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As Bases da Ciência
João Carlos Holland de Barcellos
Edição e adaptação
Luiz Ferraz Netto
Introdução - Uma teoria científica
nunca pode ser provada verdadeira.
Karl Popper
[1902-1994] é considerado o filósofo que definiu a Ciência
Moderna delimitando seu objeto de estudo e definindo
suas fronteiras. Assim, segundo Popper:
Nota
do editor: As palavras 'verdadeira' e 'falsa' usadas no contexto acima
se referem a julgamento de proposições/premissas postas nas mesmas condições
de contorno para as quais são aceitas as teorias propostas. Não se referem a
'verdades absolutas' ou seu antônimo. A Ciência não cogita de verdades
absolutas.
- Uma teoria científica apenas pode ser provada falsa.
- Uma teoria que não pode ser falseável não é uma teoria científica.
Falseabilidade
(ou refutabilidade) é, portanto, a palavra chave em ciência. Uma teoria (um conjunto de idéias ou leis) é dita falseável quando existe alguma forma, como um experimento, por exemplo, de se colocar a teoria em 'xeque' e de poder mostrá-la falsa, por exemplo, através de um experimento. O resultado do teste nunca poderá provar que uma teoria é verdadeira apenas poderá provar, caso que não passe no teste, que é falsa. Assim, se uma teoria nunca pode ser testada, ou refutada, também não poderá ser uma teoria científica.As
pseudo-ciências
A ciência não é nada misericordiosa em relação
às teorias que se propõe serem científicas. Para que uma teoria científica
seja derrubada basta achar um único caso em que ela falhe e, mesmo que ela
passe incólume por inúmeros testes, nunca poderá ser considerada uma teoria
verdadeira, pois sempre poderá ocorrer um caso em
que ela falhe. Para elucidar, vejamos um exemplo de uma teoria não científica.
Se eu proponho a seguinte teoria:
"Existe um diabinho verde no ombro de cada pessoa, mas sempre que se tenta detectá-lo, ou observá-lo de alguma forma, ele desaparece",
esta não é uma teoria científica, pois não existem meios de verificar a existência do tal "diabinho verde" uma vez que ele sempre desaparece quando se tenta detectá-lo. Contudo, se a teoria fosse:
"Existe um diabinho no ombro de cada pessoa, mas ele só se torna visível na lua cheia de um ano bissexto"
então esta teoria
seria científica!
Ela seria uma teoria científica porque seria
A
aplicabilidade das teorias científicas
Claro que não é o fato de uma teoria ser científica que a torna
automaticamente uma teoria útil e nosso último exemplo prova isso. O
grau de aplicabilidade de uma teoria científica é proporcional à quantidade
de eventos que ela consegue abordar. Quanto mais geral e abrangente for uma
teoria maior será o grau de aplicabilidade e de importância que ela terá.
Desmistificando
o "... está cientificamente provado que ..."
Agora que você viu como é fácil criar teorias científicas vamos
desmistificar ainda mais a ciência com uma afirmação audaciosa, mas
verdadeira :
Nota do editor: Para solidificar a nota inicial, repare aqui, como a palavra 'verdadeira' se refere a uma 'afirmação' a ser feita e não uma 'verdade absoluta'.
já conhecidas leis da Física poderão mudar e, até mesmo a força da gravidade poderá deixar de existir!""Amanhã de manhã todas as
Você certamente poderá se espantar com isso e achar uma acentuada blasfêmia. Esse espanto acontece até mesmo com pessoas instruídas e formadas em Física! Isso acontece porque as pessoas, de certo modo, tendem a
mistificar as ciências, particularmente a Física, e a tratarem como sendo verdades inquestionáveis e acham que quando uma teoria recebe o status de "lei da Física" ela atingiu a perfeição e é, portanto imutável. Isso é falso."Não
se mexe no time que está ganhando"
Entretanto, por uma questão de simplicidade
e praticidade,
assume-se a estabilidade das leis da Física no tempo, como algo verdadeiro.
Da mesma maneira também se postula que elas são válidas em qualquer lugar
do universo. Não há nenhum mistério ou mágica nesta suposição, isso é
apenas uma hipótese que tem dado certo e não existe, por enquanto,
nenhuma evidência de que estas suposições sejam falsas. Pode-se considerar
que a estabilidade das leis Físicas sejam postulados da Física. Postulados
são hipóteses consideradas verdadeiras, como teorias primordiais das quais
todas as outras se baseiam e que nunca foram refutadas.
Empíricas,
Dedutivas e Indutivas
A ciência não faz nenhuma restrição quanto à origem das teorias
cientificas. Por esta razão teorias científicas não precisam
necessariamente originar a partir de dados reais (leis empíricas) e poderiam
ser até mesmo concebidas por computadores (ver o projeto Criator
no apêndice). Contudo, teorias científicas devem ser, necessariamente, falseáveis,
isto é, passíveis de serem testadas e rejeitadas caso não sejam
aprovadas nos testes.
Embora uma teoria possa ser concebida usando-se apenas a imaginação de seu
criador (leis dedutivas e indutivas), a quase totalidade das teorias tem uma
origem empírica, isto é, baseada na experiência, na observação da
Natureza, da síntese da análise de dados experimentais.
Chama-se indução o processo de abstrair regras gerais através da
observação de fatos particulares. Por exemplo, ao se observar que estrelas
atraem os planetas e este, por sua vez, atraem seus satélites então se
poderia generalizar induzindo que matéria atrai matéria e que esta força de
atração é proporcional à quantidade de matéria em cada corpo. Este foi um
feliz exemplo de uma teoria criada por indução,
conhecida como teoria da gravitação, e que até hoje permanece como sendo
uma teoria válida da mecânica clássica que foi concebida por Isaac Newton
no século XVII. Vejamos agora alguns outros exemplos:
70% das pessoas morrem numa cama" então, por indução, poderíamos concluir que "A cama é o local mais perigoso do planeta"? .- Observa-se que "
A
resposta negativa a estas duas questões mostra que o mecanismo de abstração
por indução não
fornece sempre uma regra verdadeira e por isso não pode ser utilizada nunca
como critério de veracidade de uma teoria.
Evidências factuais
O mecanismo de indução é uma das maneiras mais utilizadas para a
modelagem de teorias científicas e, pensando bem, não
deveria ser de outro modo já que a ponte de ligação entre nosso cérebro e
a Natureza é feita através de observações. As teorias científicas nada
mais são do que uma forma de modelar a natureza extraindo dela a sua essência,
o fator comum a todos os eventos observados.
Conquanto o mecanismo de indução, baseado na repetida observação de
fatos particulares, pode muitas vezes nos levar a teorias errôneas, o que
se poderia então dizer de teorias concebidas sem nem mesmo uma única observação?
Almas, espíritos e fantasmas são fatos de repetidas observações na
natureza? Quando foi que você viu pela última vez alguns deles?
Por incrível que possa parecer teorias feitas assim são as que mais existem
e isso não deixa de ser um sinal de que o cérebro é um órgão bastante fértil
e criativo na sua capacidade de abstração e síntese, mas infelizmente, tal
capacidade humana de gerar teorias acaba por poluir o mundo de muitas idéias
que carecem de qualquer vínculo com a realidade.
As teorias, não
apenas as teorias físicas, mas qualquer teoria que tente explicar o mundo de
alguma forma, são tantas que, para se separar o joio do trigo, adota-se um
primeiro filtro que faz esta tarefa: A busca pelas evidências.
Como deveríamos proceder para avaliar uma hipótese ou teoria quando não temos nem um fato refutatório nem uma evidência favorável?
Para complicar,
existem ainda teorias rivais em que os mesmos fatos são evidências que
corroboram ambas as teorias!. Nestes casos como proceder para avaliar entre
uma teoria ou outra? Como escolher?
Com esta pergunta, você leitor, é induzido a pensar sobre um antigo princípio
da lógica filosófica conhecido como a "
"Pluralitas non est ponenda sine neccesitate"
[Pluralidades não devem ser postas sem necessidade]
este é o princípio que geralmente é chamado de 'Navalha de Occam'.
A "navalha de
ocam" (Occam's Razor, em Inglês) é um principio filosófico que
estabelece que se temos que escolher uma dentre muitas teorias, e não temos
evidências que privilegiem alguma em relação a
outras, então deveremos ficar com a teoria que requeira menos hipóteses,
considerada assim, a mais simples. É importante notar que é um
argumento heurístico e freqüentemente não produz respostas corretas.
A "navalha de ocam" também é conhecida como"Principio da
Parcimônia" ou ainda como "Principio da Economia" (na gíria
científica inglesa, jocosamente, costumam usar para isso a expressão
"K.I.S.S." (keep it simple, stupid) . A "navalha de ocam"
pode ser resumida na seguinte versão:
"Para explicar algo, as entidades não devem ser estendidas além do que é necessário."
Devemos ter sempre em mente que a "navalha" não é um método de refutar uma teoria e sim um critério lógico de escolha. A "navalha" deve ser aplicada sempre que não existirem evidências que corroborem uma teoria mais que outra. Freqüentemente é mal-interpretada através da idéia de que "a simplicidade é a perfeição".
Albert Einstein teve isso em mente quando escreveu que as "teorias devem ser tão simples quanto possível, mas não as mais simples".- A caixa está vazia
- Pedras da Lua
- A coroa de ouro da Rainha Elizabeth
- 20 mil reais em dinheiro
A maioria das pessoas optaria pela primeira teoria :
-A caixa está vazia.Podemos dizer que o
trabalho de um cientista nada mais é do que utilizar a "navalha de
ocam" em seu limite de aplicabilidade. Todo cientista tentar reduzir ao mínimo
o número de hipóteses requerido por sua teoria de modo a ampliar sua abrangência
e aumentar sua utilidade e, portanto, seu grau de importância.
Se houverem duas teorias diferentes explicando um dado fenômeno físico então
a comunidade científica sempre dará preferência à teoria mais
geral, que abarque um número maior de casos, ao invés de sua concorrente
cujo limite de aplicabilidade seja menor.
E esta é a grande dificuldade e a grande luta dos cientistas uma vez que
criar teorias de grande
aplicabilidade, isto é , com um número reduzido de hipóteses de restrição,
é algo não trivial.
A Matemática
"Por que a Matemática serve tão bem à Física? "
[Uma solução que encontrei para esta questão seria que o universo serviria à Física porque o próprio universo poderia ser virtual, algo como um modelo computacional (Veja o apêndice A para mais detalhes)].
Contudo,
diferentemente das ciências naturais, a Matemática tem seu próprio universo
que são seus axiomas e seus elementos básicos : Os números.
Tendo seu próprio universo, a Matemática, em principio, não precisaria
servir às ciências naturais (como a Física a Química etc.)e, na verdade,
existem muitas e diferentes Matemáticas que são ramos distintos uma[s] das
outras e que são criadas quando se altera um ou outro de seus axiomas. Elas
evoluem independentemente e nem todas, até o momento, tem utilidade em nosso
mundo físico.
O desenvolvimento da Matemática se faz através dos Teoremas que são proposições
a respeito dos elementos do universo matemático (e, não confundir com
universo físico). Os teoremas são equivalentes às teorias das Ciências
naturais, mas ao contrário das últimas, os teoremas não podem ser refutados
através de experimentos ou da confrontação com os fatos de nossa realidade
física!. O papel da refutabilidade na Matemática é feito através da
contradição que em lógica significa que existem duas proposições onde uma
nega a outra ([A] e [não A]). Assim, se se mostra que uma proposição leva a
uma contradição então ela é considerada falsa.
Além disso, diferentemente do nosso mundo real, onde nenhuma teoria científica
pode ser provada verdadeira, existem teoremas que se podem provar que são
verdadeiros dentro do arcabouço em que são enunciados, isto é, que se pode
demonstrar sua veracidade tornando-os assim, dentro do universo matemático,
uma 'verdade absoluta'. (Um teorema é considerado demonstrado quando a partir
dos
axiomas e da lógica se chega ao teorema.)
O matemático e lógico
Kurt Gödel demonstrou que dentro de um sistema lógico axiomático, um sistema baseado em axiomas e na lógica, como a matemática, sempre existirão proposições que nunca poderão ser demonstradas utilizando-se a lógica e os axiomas do próprio sistema. Este teorema é conhecido como o "Teorema da Incompletude" ou simplesmente como "Teorema de Gödel"e balançou os alicerces daAdendo do editor:
A Matemática, a Física e o isomorfismo"lsomorfo"
significa, grosseiramente, "similar no modelo". Trata-se de um
conceito do mais amplo alcance e de máxima importância para todos os que
desejam abordar acuradamente assuntos onde o "modelo" desempenha uma
parte. Eis uns exemplos:
(a)
Um negativo fotográfico e a sua cópia, no que se refere ao molde da foto, são
isomorfos. Os quadrados do negativo aparecem como quadrados na cópia; os círculos
aparecem como círculos; as linhas paralelas em uma permanecem como linhas
paralelas no outro. Assim, certas relações entre as partes dentro do
negativo aparecem com as mesmas relações na cópia, embora as aparências,
no que se refere à luminosidade, sejam diferentes, na verdade exatamente
opostas.
(b)
Um mapa e a região que ele
representa são isomorfos (se o mapa for preciso!). Os relacionamentos na região,
tais como formarem as cidades A, B e C um triângulo eqüilátero, ocorrem
inalterados sobre o mapa, onde os pontos representativos para A, B e C formam
também um triângulo eqüilátero.
Se uma pedra é lançada verticalmente para cima com uma velocidade inicial de
15m/s, há um isomorfismo entre o conjunto de pontos no ar (espaço físico)
tal que no instante t a pedra esteja h metros acima do solo, e o conjunto dos
pontos do gráfico (espaço geométrico) que satisfazem à lei:
h
= 15.t - 5.t2 (h em m, t em
s)
As
linhas ao longo das quais o ar flui (em velocidades subsônicas) através de
um aerofólio formam um padrão idêntico às linhas ao longo das quais passa
uma corrente elétrica num líquido condutor através de um não condutor do
mesmo formato que o aerofólio. Os dois modelos são iguais, embora as bases físicas
sejam diferentes.
Resumo
*
Vimos que a ciência esta alicerçada no critério de falseabilidade ou
refutabilidade: Teorias que não
podem ser refutadas não são teorias científicas.
E que nenhuma teoria científica pode ser considerada verdadeira. As teorias
sofrem uma seleção natural onde apenas as que conseguem passar pelos inúmeros
testes de refutabilidade sobrevivem.
*
O método de indução é uma das formas de gerar conhecimento através da
abstração e síntese da observação de fatos particulares, mas não por
isso deve ser considerada melhor, ou mais valida, do que qualquer outra forma
de geração de conhecimento. Aliás, a ciência não faz qualquer restrição
quanto à origem das teorias científicas.
*
Muitas teorias rivais podem passar ilesas pelos critérios de refutabilidade,
mas se temos que escolher uma delas, ainda existe pelo menos dois outros critérios
considerados científicos de se fazer esta escolha: As que apresentam evidências
a seu favor e, se esta não puder ser aplicada, teremos ainda a "Navalha
de Ocam".
*
A "navalha de ocam" deve ser utilizada quando as teorias rivais
passam tanto pelo critério de refutabilidade quanto pelo critério das evidências
(quando ambas ou nenhuma delas, apresentam fatos a seu favor). A
"navalha"estabelece que devemos escolher a teoria que apresente o
menor numero de entidades ou hipóteses, considerada assim, a mais simples.
Apêndices
O autor João
Carlos Holland de Barcellos está
preparando um livro cujo título é "O Genismo", do qual se extraiu
esse texto introdutório ao capítulo I. Nesse capítulo encontram-se os 'apêndices'
citados no texto. A integralidade deles pode ser colhida diretamente com o
autor (clique aqui).
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