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Construindo a Ciência
Fases do Método Científico
Parte 2
Prof. Luiz Ferraz Netto
leobarretos@uol.com.br
Introdução
As ciências
experimentais como a Física e a Química, utilizam o
denominado método científico
experimental, cujas principais fases iremos
analisar a seguir, utilizando-nos de um caso real. Para
tanto, propomos que você se imagine como se já fosse um
cientista e tivesse como incumbência dar uma explicação
a um fenômeno natural como, por exemplo, o
arco-íris.
Como você planejaria sua
atividade e que passos darias até encontrar resposta a
todas as perguntas que envolvem o fenômeno do arco-íris?
No decorrer desse texto
vamos tentar guia-lo por esse caminho onde você será o
principal protagonista.
A
observação do fenômeno
Observação do arco-íris
Uma vez definido o fenômeno
de estudo, a primeira coisa a fazer é observar
seu acontecimento, as circunstâncias em que se produz e
suas características.
Esta observação deve ser
reiterada (deve ser realizada várias vezes; deve ser
repetida), minuciosa (deve-se tentar apreciar o
maior número possível de detalhes), rigorosa
(deve ser realizada com a maior precisão possível) e
sistemática (deve ser efetuada de forma ordenada).
Em
que circunstâncias aparece o arco-íris?
A observação reiterada e
sistemática do fenômeno lhe permitirá constatar que o
arco-íris aparece quando chove (mais tarde você
poderá simular uma chuva, em laboratório, e não
precisará mais ficar aguardando 'chover')e, além disso,
que há sol (mais tarde, no laboratório, um boa
lâmpada irá simular o Sol). A mesma seqüência de
observações fará com que você perceba que o arco-íris só
será visível quando você estiver situado entre o sol e a
chuva, de costas para o Sol. Você anotará em seu
caderninho de campo: "O arco-íris não é visto de
qualquer lugar que eu fique e, quando o vejo, estou de
costas para o Sol entre o sol e a chuva". Na ilustração
acima, onde você deverá estar? Onde está o Sol?
Qual é a forma do arco-íris?
A forma do conhecido
arco-íris é a de um arco de circunferência. Entretanto,
você não deverá anotar apenas isso em seu caderno de
campo. Anote também: "Será que observado do alto de uma
montanha o tamanho desse arco aumenta? diminui? O raio
médio da circunferência se altera? Se eu estivesse num
avião teria ele, ainda, a forma de um arco?"
Que cores ele nos mostra e em que ordem aparecem?
Poderás observar (apenas
usando seus olhos) que existe sete cores diferentes no
arco-íris e que são, de dentro para fora do arco:
violeta, anil, azul, verde, amarelo, laranja e vermelho.
Em busca
de informações
Você não é a
primeira pessoa a observar um arco-íris, com certeza.
Assim, como passo seguinte e com o objetivo de confirmar
e reafirmar as observações efetuadas, deve-se consultar
livros, enciclopédias ou revistas científicas que já
descrevem algo sobre o fenômeno que está sendo, mais uma
vez, estudado. Não esqueça que nos livros encontram-se
os conhecimentos científicos acumulados através da
história. Por esse motivo, a busca de informações e a
utilização dos conhecimentos existentes são
imprescindíveis em todo trabalho científico.
Coincidem as informações que encontrou com aquelas
obtidas durante suas observações?
A consulta de qualquer livro
de Física Elementar lhe confirmará que as conclusões a
que chegou através de suas observações são corretas. Ou
seja:
a) O
arco-íris só aparece e pode ser visto quando chove
e, além disso, há sol.
b) O arco-íris sempre apresenta as mesmas cores e
essas se sucedem na mesma ordem.
Atende para o fato de que
esse livro texto elementar não deu resposta ás suas
dúvidas anotadas em seu caderno de campo; talvez outros
livros as dêem.
Que outras informações puderam ser colhidas nos livros
consultados?
A consulta de livros e
revistas poderão lhe informar que, por exemplo, por
vezes, aparecem dois arcos-íris, se bem que um
deles é bem mais tênue que o outro e, portanto, mais
difícil de se ver.
Arco-íris
principal e secundário.
A
formulação de hipóteses
O cientista
formula uma hipótese.
Depois de observar o
fenômeno e de reunir documentação suficiente sobre
observações já efetuadas por outros, o cientista deve
buscar uma argumentação que permita explicar e
justificar cada uma das características de tal fenômeno.
Como primeiro passo desta fase, o cientista começa a
fazer várias conjecturas ou suposições a partir das
quais, posteriormente, mediante uma série de
comprovações experimentais, elegerá como explicação do
fenômeno a mais completa e simples, a que melhor se
ajuste aos conhecimentos gerais da ciência no momento.
Essa explicação racional, razoável e suficiente se
denomina hipótese científica.
O
arco-íris é um fenômeno luminoso?
Parece que sim, posto que só
se produz quando existe uma fonte luminosa (o Sol).
Sua existência tem algo a ver com água?
A resposta também é
afirmativa, posto que o arco-íris só aparece quando
chove.
É
um fenômeno de reflexão ou de refração?
Parece que, a princípio,
podemos descartar a reflexão, posto que o aparecimento
do fenômeno não se observa em nenhum corpo opaco
refletor. Por sua vez, podemos propor a hipótese de que
o arco-íris seja um fenômeno de refração da luz e que
seu aparecimento se dê por causa da decomposição da luz
solar quando essa passa através das gotas de água da
chuva. É uma hipótese razoável.
A
comprovação experimental
Uma vez formulada
a hipótese, o cientista deve comprovar que esta é válida
em todos os casos e, para tanto, deve realizar
experiências nas quais se reproduzam o mais fielmente
possível as condições naturais nas quais se verifique o
fenômeno estudado. Se sob tais condições o fenômeno
acontece, a hipótese terá validade, ou seja, será uma
proposição verdadeira nas condições estipuladas.
Como faremos para reproduzir as condições de
aparecimento do arco-íris?
Comecemos por simular uma
chuva e, para tanto devemos ter água caindo em gotas.
Não é difícil fazer isso, basta pegar uma mangueira de
regar o jardim e apertar a extremidade de saída com as
mãos de modo a fazer um jato fino e largo. Máquinas de
lavar, elétricas, permitem o ajuste desse fluxo com
facilidade. Dirija o jato para cima e dê suas costas
para o Sol. Pronto, você reproduziu com fidelidade os
requisitos indispensáveis para o aparecimento do
arco-íris; simulou uma chuva, há sol e você se colocou
entre ambos.
Que acontecerá quando você realizar essa experiência?
Se seguiu todos os passos
descritos acima, poderá comprovar que no horizonte da
'chuva' irá aparecer um pequeno arco-íris.
Poderemos admitir como válida a hipótese formulada?
Tudo indica que sim, porque
com as mesmas condições que se dão na Natureza, porém em
escala reduzida (tudo de tamanho menor), conseguimos
obter um arco-íris.
Simulação
do arco-íris.
Trabalhando no laboratório
Uma das
principais atividades do trabalho científico é a de
realizar medidas sobre as diversas variáveis que
intervêm no fenômeno que se estuda e que são
susceptíveis de serem medidas.
Se nos prendermos ao
experimento descrito acima dificilmente você poderá
tirar alguma medida, por isso, é conveniente repetir a
experiência em um lugar adequado onde isso possa ser
feito, ou seja, num laboratório. Estas experiências
realizadas nos laboratórios se denominam 'experiências
científicas' e devem cumprir os seguintes requisitos:
a)
Devem permitir realizar uma observação sobre a qual
possa-se extrair dados.
b)
Devem permitir que os distintos fatores que intervêm
no fenômeno (luminosidade, temperatura etc.)
possam ser individualmente controlados.
c)
Devem permitir que se possam realizar (repetir)
tantas vezes quanto necessárias e por distintos
operadores.
Habitualmente, em ciências
experimentais, os trabalhos de laboratório permitem
estabelecer modelos, que são situações ou
suposições teóricas mediante as quais se efetua uma
analogia (formalização)(equivalência) entre o fenômeno
que ocorre na Natureza e o experimento que realizamos.
Como poderemos fazer uma montagem em laboratório na qual
se possa efetuar medidas
sobre o fenômeno arco-íris?
Com a ajuda de seu professor
você poderá realizar sem muita dificuldade uma
experiência sobre o arco-íris. Para tanto deverá
preparar um modelo no qual se verifique as seguintes
equivalências:
|
na Natureza |
|
no
Laboratório |
|
O Sol |
se substitui por |
uma fonte de luz
(projetor) |
|
os raios de Sol |
se substitui por |
um estreito
feixe de luz
procedente da fonte |
|
uma gota de
chuva |
se substitui por |
um balão cheio
de água |
|
o fundo do céu |
se substitui por |
uma tela na qual
se recolhe a luz |
Montagem
de laboratório para a observação do arco-íris e seu
esquema explicativo.
Efetuando-se a montagem
acima ilustrada e dirigindo o feixe de luz proveniente
da fonte para o balão cheio de água (e isso pode ser
substituído por um bulbo de lâmpada incandescente da
qual se extraiu seu 'miolo'), poderá observar projetado
sobre a tela, uma em seguida a outra, as cores que
formam o arco-íris.
Como explicaremos o que ocorreu?
Quando o estreito feixe de
luz branca atinge a região [A] do balão e penetra na
água ele muda de direção ampliando a abertura do feixe
(observe a região interna de [A] para [B]). Ao chegar na
região [B], ao sair da água, novamente ocorre outra
mudança de direção e nova ampliação da abertura do feixe
--- é o fenômeno da refração que se faz acompanhar da
decomposição da luz branca. As luzes coloridas
provenientes dessa decomposição atingem a tela. Cada
gota da chuva, nas condições citadas, tem esse
comportamento. Devida a essas milhares gotas de chuva
que participam dessa decomposição é que se torna
possível ver o arco-íris no horizonte.
Além dessa importante observação, o experimento permite
medir os diferentes ângulos de desvio de cada uma das
cores em relação ao estreito feixe incidente inicial. É
um experimento científico, preenchendo os requisitos
básicos.
Assim, se comprova que a
formação do arco-íris pode ser explicada pelas leis que
regem a refração da luz.
O
tratamento dos dados
As medidas
efetuadas sobre os fatores que intervêm em um
determinado fenômeno devem permitir encontrar algum tipo
de relação matemática entre as grandezas físicas que
caracterizam o fenômeno em estudo. Para chegar a essa
relação matemática os cientistas procuram seguir dois
passos prévios: a análise dos fatores pertinentes e a
construção de tabelas e gráficos.
1 Análise
dos fatores
O estudo em
profundidade de um fenômeno requer, em primeiro lugar, a
determinação de todos os fatores que nele intervêm. Para
que esse estudo se realize de forma mais simples,
fixa-se uma série de grandezas que não variem (variáveis
controladas) e se estuda a maneira como varia uma dada
grandeza (variável dependente) quando se produz uma
variação de outra grandeza (variável independente).
Assim, se reconhecidamente existem 10 fatores intervindo
num dado fenômeno, fixam-se os valores de 8 deles,
variamos deliberadamente (de modo muito bem determinado)
um dos dois restantes e se determina, mediante
cuidadosas medidas que variação sofreu aquele fator
restante. Isso se repete ciclicamente até esgotar toda a
série.
Eis um exemplo prático:
queremos estudar o alongamento que uma mola que tem uma
das suas extremidades fixa experimenta, quando colocamos
'pesos aferidos' na outra extremidade. Há um conjunto de
grandezas que, de início, poderão ser consideradas com
valores invariáveis (temperatura do recinto onde se faz
o experimento, a pressão barométrica dentro do mesmo, a
umidade relativa do ar etc.), que correspondem ás
variáveis controladas. Nesse caso, a medida da
deformação da mola (seu alongamento) será a variável
dependente e o 'peso' (massa aferida ou massor) que
colocamos na extremidade livre será a variável
independente (nós escolhemos os valores desses pesos).
2 A
construção de tabelas e gráficos
A construção de
tabelas consiste em ordenar os dados numéricos obtidos
para a variável dependente em correspondência com os
dados numéricos da variável independente. Sempre devemos
especificar as unidades com as quais se medem
essas duas variáveis em jogo. Normalmente se utilizam de
parêntesis em continuação a seus nomes. No caso da mola,
a tabela poderia ser assim:
|
massa colocada
(g) |
10 |
15 |
20 |
25 |
30 |
35 |
|
alongamento (cm) |
1,0 |
1,5 |
2,0 |
2,5 |
3,0 |
3,5 |
.
Montagem
do experimento e a relação linear (y = k.x).
A representação gráfica
consiste em transferir os dados das medidas (pares
ordenados) para um sistema de eixos cartesianos
ortogonais onde, normalmente, a variável independente se
faz corresponder ao eixo X (eixo das abscissas)
enquanto que a variável dependente se faz corresponder
ao eixo Y (eixo das ordenadas).
Denominamos 'ajuste do
gráfico' ao procedimento mediante o qual se determina
qual a melhor linha que passa (que se ajusta) por todos
os pontos (ou pela maioria deles) do gráfico,
representativo dos pares ordenados. Na maioria dos
casos, os gráficos que se obtém são linhas retas,
o que indica que a relação entre as grandezas físicas
representadas é da forma Y = k.X, onde k é uma
constante. Veja ilustração acima.
Em outros casos, a relação
entre as grandezas pode ser do tipo 'parabólico', o que
matematicamente se representará por Y = k.x2
, ou do tipo 'hiperbólico', cuja expressão será da forma
X.Y = k.
Relação
'parabólica' (y = k.x2) e
Relação 'hiperbólica' (x.y = k).
As
conclusões e a comunicação de resultados
A análise dos
dados e a comprovação das hipóteses levam os cientistas
a emitirem suas conclusões, que podem ser empíricas,
ou seja, baseadas na experimentação ou dedutivas,
ou seja, obtidas mediante um processo de raciocínio do
qual se parte de uma verdade conhecida (premissa
verdadeira) até chegar á explicação do fenômeno.
A imprensa científica comunica os
resultados obtidos pelos investigadores.
Uma vez bem solidifica essas
conclusões, estas devem ser comunicadas e divulgadas
para o restante da comunidade científica para que sirvam
de ponto de partida para outros descobrimentos ou como
fundamento de uma aplicação tecnológica prática.
Qual o caminho trilhado para se chegar á explicação da
formação do arco-íris?
O primeiro cientista que
estudou de forma rigorosa a decomposição da luz foi
Isaac Newton (1642 - 1727) e suas publicações serviram
para que, posteriormente, a formação do arco-íris
pudesse ser bem explicada. Mais adiante ainda, a
tecnologia aproveitou o fenômeno da refração da luz e
foram inventados numerosos instrumentos ópticos, como
máquinas fotográficas, projetores etc. em cujo
funcionamento intervêm esse fenômeno.
A
elaboração de Leis e Teorias
O estudo
científico de todos os aspectos de um fenômeno natural
leva á elaboração de leis e teorias.
* Uma
lei científica é uma hipótese que tenha sido
comprovada sua validade.
* Uma
teoria científica é um conjunto de leis que explicam
um determinado fenômeno ou grupo deles.
Assim, por exemplo, a
hipótese comprovada de que o arco-íris se forma devido á
refração que a luz branca (solar) experimenta ao
atravessar as gotas de chuva, é uma lei integrante de um
conjunto de leis que regem outros fenômenos luminosos
(reflexão, dispersão, difração etc.). Esse conjunto é
conhecido como a Teoria sobre a luz.
Tanto as leis como as
teorias devem cumprir os seguintes requisitos:
a)
Devem ser gerais, ou seja, não devem explicar apenas
casos particulares de um fenômeno.
b)
Devem ser comprovadas, ou seja, devem estar
alavancadas (avalizadas)(corroboradas)(assentadas)
pela experimentação.
c)
Devem, quando possível, estar 'matematizadas', ou
seja, devem poder expressar-se mediante funções
matemáticas.
As teorias científicas têm
validade até que sejam incapazes de explicar
determinados fatos ou fenômenos, ou até que algum
descobrimento novo comprovado se oponha a elas. A partir
de então, os cientistas começam a elaborar outra teoria
que possa explicar esses novos descobrimentos. A Ciência
é conhecimento evolutivo e não estacionário.
A
que conclusão você chegaria se viesse a ver um arco-íris
em um dia sem chuva?
De acordo com o que até
agora foi estudado, a teoria da luz exige que, para que
se produza o arco-íris é preciso que chova, para que as
gotas de água possam decompor a luz solar em suas sete
cores. Se no ambiente não houver água, teremos que
repensar sobre a mencionada teoria e tentar completá-la
com outros argumentos (novas hipóteses, novas
comprovações) que passem a explicar o fenômeno
observado. Se tal não for possível toda teoria cairá por
terra.
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O trabalho científico

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Aplicações práticas - Tema 1- Relação entre o
crescimento de uma planta e a quantidade de água com que
foi regada. Tema 2 - Trabalhe como um cientista.
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