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Primeiros
Passos das Ciências
(Aspectos Gerais)
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1- Aspecto Geral do
Aparecimento das Ciências
Erro da teoria
da diversificação da filosofia.
Costuma-se ouvir com freqüência: “Existem atualmente vários
ramos da ciência, como a matemática, a física, a química etc., mas
que, antigamente, essa diversificação não existia. Havia apenas a
filosofia, que, com o passar do tempo,
foi-se especializando e se diferenciando, resultando nas várias
ciências de hoje”.
Essa tese é correta apenas no sentido de que, antigamente, os
conhecimentos eram em menor quantidade e, assim, eram escritos num
só volume, intitulado Filosofia ou
Ciência. Mas, à medida que a sua
quantidade foi aumentando, tornou-se impossível escrever num só
volume, e portanto foram aparecendo vários deles intitulados
matemática, física etc. Pode-se dizer que a palavra ciência
existia apenas como título de descrições.
Contudo perguntamos se teria existido realmente o conceito abstrato
de ciência (definido no sentido rigoroso). A resposta é não,
pois a realidade não é essa. Mais correto seria considerar que, de
várias experiências adquiridas, foram surgindo, independentemente, a
física, a matemática etc. e, a partir delas, foi nascendo o conceito
de ciência. Vejamos, a seguir, detalhadamente esse aspecto do
aparecimento das ciências.
Estágio de
aquisição de experiências.
Evidentemente, bem antes de surgirem as letras, a humanidade já
havia adquirido várias experiências e feito inúmeras descobertas. O
pescador teria encontrado um novo peixe, o homem que caçava na
montanha teria descoberto um novo animal, outros teriam visto novas
flores ou árvores, novos tipos de borboletas ou outros insetos.
Também aquele que subdividia as terras agrícolas do Egito teria
descoberto por acaso que podia obter o ângulo reto usando uma
corda de comprimentos 3, 4 e 5. Os que trabalhavam na
construção das pirâmides aprenderam por si as utilizações dos
cilindros sob as pedras, da alavanca e da polia. Aqueles que
construíam a casa com madeira foram aprendendo qual deveria
ser a espessura do suporte para que ela
não caísse. Também os comerciantes da Índia foram percebendo que
vender duas mercadorias três vezes era equivalente a vender seis de
uma só vez. Essas descobertas e experiências foram sendo memorizadas
e comunicadas oralmente ás gerações sucessivas devido ao seu valor
prático. Poderíamos dizer que essas informações constituíam o
conhecimento prático ou o conhecimento tecnológico.
Estágio de
descrições não-classificadas.
Com o decorrer do tempo, aprendeu-se a desenhar, inventaram-se
as letras, e descobriu-se o método de conservação dos materiais, de
modo que se tornou possível “descrever” as experiências e
descobertas. A palavra “descrição” é
usada aqui num sentido bem amplo, incluindo também o significado de
coleção. Por exemplo, descobre-se um animal e, mesmo que não seja
descrito por letras ou desenhos, se existir um método de conservá-lo
como um espécime, como as múmias, também será incluído na palavra
“descrição”.
No começo, essas descrições eram feitas desordenadamente, sem
nenhuma classificação. Um general que vencia os inimigos trazia
tesouros para o rei, os quais eram guardados desordenadamente na
sala do tesouro do palácio. Um homem descobria um pássaro raro e com
ele presenteava o rei; esse pássaro era registrado no livro do
palácio. Um outro, usando uma barra, conseguia mover muito
facilmente um material bem pesado; isso também era registrado no
livro. Dessa maneira, várias descobertas e experiências foram sendo
descritas sem qualquer coordenação. No
início, teriam sido apenas descrições cronológicas, tornando-se,
entretanto, bastante confusas quando acumuladas em grande
quantidade.
Estágio de
descrições classificadas.
Uma vez acumulado esse grande volume de descrições desordenadas,
os objetos semelhantes foram sendo juntados, iniciando-se assim a
classificação.
Não havia a priori nenhuma regra de classificação. De um modo
geral, foi sendo feita pelo método de tentativa e erro:
classificava-se pelo modo mais conveniente e, se posteriormente
surgisse alguma inconveniência, procurar-se-ia outra classificação
mais adequada. Por exemplo, na obtenção de um ângulo reto, no
desenhar um círculo etc., o ponto comum consistia em desenhar
figuras no solo, que, assim, foram postas no mesmo ramo de
classificação. A polia, a alavanca etc., formaram um ramo porque
estavam relacionadas com a força. A sardinha, o linguado etc.
formaram um ramo porque nadavam no mar e tinham formas parecidas. A
baleia foi posta também nesse último ramo. Uma vez concluída a
classificação com enorme número de ramos, o homem começou a
classificar esses ramos miúdos. A sardinha, o linguado, a baleia
etc, estavam num ramo, o polvo, a lula etc., que viviam no mar e
possuíam pernas, formavam outro ramo;
desse modo, até então, havia ramos em
demasia, o que não era conveniente.
Foram então classificadas a sardinha, o polvo, etc, num mesmo ramo,
porém maior, por serem encontrados no mar. Quando o número de ramos
maiores tornou-se excessivo mais uma vez, formou-se uma
classificação mais geral, denominada animais.
A situação era a mesma com relação a ervas e flores. No começo, as
plantas com belas flores formavam um ramo, e as plantas nocivas
formavam um outro. As árvores que davam flores e aquelas cujas
folhas não caíam formavam cada uma, respectivamente, um ramo. Mas,
como estes também foram se tornando numerosos, Os vários ramos foram
reunidos, formando um ramo de classificação chamado
vegetais. E esse o terceiro estágio, o
das descrições classificadas.
Aparecimento
das ciências.
Alcançando esse estágio de descrições classificadas, o homem às
vezes encontrava dificuldades, defrontando-se com descobertas que
ele não sabia em qual ramo deveria incluir. Descrevendo vegetais por
longo tempo, encontrava por vezes plantas que não sabia se deveriam
ser consideradas como erva ou como árvore, e começava a pensar em
qual ramo deveria classificá-las. Daí foram sendo selecionadas as
propriedades comuns a cada ramo classificado, não por uma observação
intuitiva como, por exemplo, de a erva ser menos resistente que a
árvore, mas sim por uma pesquisa em um nível mais elevado e mais
profundo em conteúdo.
Mesmo não encontrando dificuldades nas classificações, isso
naturalmente teria acontecido. Quando objetos da mesma espécie são
agrupados, procurar propriedades comuns a eles constitui uma espécie
de método de compreensão e também um instinto do ser humano. Desse
modo, a partir das características de várias figuras, suas
propriedades comuns foram sendo agrupadas, produzindo vários
teoremas. Porém não se pode dizer que a geometria já existia, nesse
estágio. A medida que esses processos eram repetidos inúmeras vezes,
um número considerável de teoremas foi sendo acumulado. Mais tarde,
as propriedades comuns entre os teoremas foram abstraídas e surgiram
alguns axiomas. Assim, o conteúdo de um ramo maior de classificação,
denominado geometria, foi sendo completado gradativamente. Isso
constitui o aparecimento da ciência.
Re-coordenação
das ciências.
À medida que as propriedades comuns obtidas das abstrações foram
sendo esclarecidas, a classificação foi sofrendo uma revisão sob
esse ponto de vista e transformando-se em outra nova classificação.
Por exemplo, no caso da biologia, a baleia foi considerada um peixe,
mas, observando-se a sua maneira de criar os filhos, começou-se a
compreender que seria melhor colocá-la no mesmo ramo de
classificação do boi, do cavalo etc. Fica, assim, por ora, concluído
o estágio de descrições classificadas. Então, as
estruturas desses animais começaram a
ser pesquisadas. Havia o sangue no corpo. Que papel desempenharia?
Ou qual seria a função do fígado? Problemas dessa ordem foram sendo
pesquisados paulatinamente, surgindo a
filosofia. Por outro lado, investigando a sua constituição,
descobriu-se a existência das células. Observou-se que estas
existiam não só em mamíferos, mas também nos peixes, insetos e
plantas. Esses estudos prosseguiram e surgiu a
citologia.
A certa altura, descobriu-se um ser vivo estranho, um vegetal que se
movia, por exemplo; houve indecisão quanto à sua classificação como
animal ou como vegetal. Em tal caso, a classificação primitiva de
até então tornava-se inconveniente e, assim, combinando os
conhecimentos da fisiologia, que acabara de ser concluída, tentou-se
modificar para a classificação em que os vegetais são definidos como
aqueles que possuem clorofila e produzem proteína por si mesmos.
Depois, entretanto, percebendo-se a existência de vegetais que não
possuem clorofila, como as plantas parasitas, essa classificação
começou a ser inconveniente. A descoberta de bactérias também
influenciou. Abandonando então a .classificação de zoologia e
botânica, surge um novo ramo de classificação denominado
biologia, cujo conteúdo foi dividido
então, em fisiologia, citologia etc. Isso constitui a re-coordenação
da ciência. Esquematicamente esse processo de aparecimento pode ser
posto assim:
Coleção de
insetos e o Aparecimento da ciência.
Não é preciso consultar livros antigos para conhecer esse tipo
de aparecimento de ciência, pois podemos conhecê-lo observando o
comportamento das crianças ou dos índios primitivos. Um bom exemplo
é a coleção de insetos de uma criança. Esta, no início, apenas por
divertimento, apanha borboletas, libélulas, cigarras; repete esse
comportamento simples de apanhar e jogar, e surpreende-se quando
encontra uma nova espécie (estágio de aquisição de experiências e
descobertas). Depois de algum tempo, aprende a fazer espécimes, cola
as borboletas em tábuas próprias, abre-lhes as asas e deixa-as
arrumadas. Mas, no início, a criança prende os insetos em alguma
caixa de vidro ou papelão, sem coordenação de nenhuma espécie,
apenas na ordem em que foram apanhadas (estágio de descrições
não-classificadas). Depois de algum tempo, as borboletas vão sendo
classificadas, por exemplo, pela cor, dependendo da criança. As
amarelas num determinado lugar, as
pretas em outro. Outra criança tenta
classificar de acordo com o tamanho. Outra ainda pela forma das asas
(estágio de classificação por tentativas e erros). Assim, à medida
que vão fazendo classificações, algumas crianças percebem que todas
possuem quatro asas, Seis pernas, duas antenas compridas etc. Outras
crianças, ainda, com observação mais aguda, notam as pequenas fendas
no corpo de inseto (os estigmas), interrogando-se sobre o que possa
ser aquilo. Chegando a esse ponto, estamos num estágio iminente do
aparecimento da ciência primitiva.
2- Aparecimento das
Várias Ciências
Sob o ponto de vista mencionado acima,
vamos rever mais detalhadamente o processo do aparecimento de várias
ciências. Vamos ver aqui as demais ciências, deixando a física (o
que mais nos interessa) para um trabalho em separado.
Aparecimento
da matemática.
O conceito de número é deveras
antigo. Existem os que defendem sem reserva que a diferença da
racionalidade entre o homem e os animais está exatamente no fato de
possuir ou não o conceito de número. Dizem que normalmente os
animais usam uma parte de seu próprio corpo como arma, por exemplo,
marfins, chifres, garras etc., ao passo que somente o ser humano,
desde a Antiguidade, lança mão de outros objetos, como pedras,
cacetes etc. Nessa época, a acumulação de pedras para atirar
significava expansão de armamentos. Obviamente aprenderam a contar o
número de pedras guardadas. Surgiu, desse modo, o conceito de
números, que aumentou decididamente a diferença intelectual entre o
ser humano e os animais, mas tudo isso não ultrapassa o limite da
imaginação. Não se pode dizer, contudo, que a suposição acima não
contém nenhum fundamento, pois sabe-se, por experiências, que o
chipanzé, embora tenha um nível relativamente alto de inteligência,
em outros pontos, não possui absolutamente o conceito de número.
Parece que a descrição dos números começou juntamente com a invenção
das letras, porém a maneira de descrevê-los era diferente em cada
lugar do mundo. Como exemplo de uma das mais famosas dessas
maneiras, existe o sistema de numeração sexagesimal da Babilônia. No
Egito, o tratamento de frações era peculiar, isto é, todas as
frações eram expressas como a soma de frações simples da forma 1/n
e, para isso, eles possuíam uma tabela de redução das frações da
forma 2/(2n + 1) às somas de frações simples. Em Roma, os inteiros
eram expressos no sistema de numeração decimal, mas as frações eram
no de base 12. Não existia a notação de zero e, conseqüentemente, o
princípio da posição decimal, como o atual, também
não existia.
Isso sobrevive até os nossos dias sob a forma de algarismo romano,
por exemplo, 30 é XXX e 32 é XXXII. Foi na matemática da Índia que
surgiu o sistema de numeração decimal como se usa atualmente,
inclusive com a notação do zero, que posteriormente foi introduzido
na Europa, por intermédio dos árabes, como números arábicos.
Imagina-se que esses números tenham sido aí introduzidos por volta
de 1299, a julgar pelo fato de haver sido expedida nesse ano em
Florença uma lei proibindo a escrituração comercial usando números
arábicos, a fim de evitar falsificações, em Florença.
Parece que várias propriedades dos números eram conhecidas desde a
Antiguidade. No Egito, já existia o ábaco, e, na matemática da
Índia, eram conhecidos o método da extração das raízes quadrada e
cúbica e até mesmo a solução da equação do segundo grau. Tais
propriedades foram sendo descritas, uma a uma, como descobertas
não-relacionadas entre si, mas, por serem remotas demais, não
conhecemos bem, atualmente, a maneira segundo a qual foram sendo
descritas gradativamente com classificação, surgindo a aritmética e
a álgebra. Com relação a esse ponto, o aparecimento da geometria,
que mencionaremos a seguir, está mais esclarecido.
Como já é do conhecimento de todos, a
geometria surgiu da agrimensura do Egito. Depois das inundações
anuais do rio Nilo, que serviam como uma adubação natural, as terras
agrícolas eram re-divididas e, por experiência, os teoremas
geométricos e métodos de cálculos de área ficaram sendo conhecidos.
Com a invenção das letras, isso permaneceu descrito
desordenadamente, não tendo sido nem mesmo classificado. Tal fato
tornou-se conhecido porque, entre as inscrições nas paredes dos
templos egípcios, em meio a outras que lhes são completamente
alheias, acha-se, de repente, o cálculo da área do triângulo. Já nos
'livros sagrados' dos sacerdotes egípcios também havia vestígios de
que o método do desenho descritivo era concluído. Não existia,
naturalmente, nenhum tipo de demonstrações, Mas, como já expunham
que a área de um círculo era igual à de um quadrado de lado 8/9 do
diâmetro desse círculo, podemos saber que o seu nível era
consideravelmente alto. Isso equivale a dizer que
p =
3,16; mas, na Babilônia, onde outros ramos estavam bastante
desenvolvidos, usava-se p
= 3.
Em seguida, entrou-se no estágio em que
essas descrições desordenadas iam sendo coordenadas e classificadas
e, para isso, foi grande a contribuição dos povos da cidade grega de
Mileto. Nessa cidade, os conhecimentos culturais importados do Egito
e da Babilônia não permaneceram nas mãos de poucos nobres e
sacerdotes, mas ao contrário, propagaram-se entre seus cidadãos.
Conseqüentemente, apareceu um grupo de professores denominados
sofistas. Dizem alguns
que, antigamente, os do norte iam da
Grécia ao Egito, passando pela ilha de Creta, de onde voltavam com
novos conhecimentos. Porém, desde o século VII A. C.,
começaram as invasões da Assíria e os ataques da Pérsia, e assim
ficaram impossibilitados de viajar para o Egito; passaram então a
adquirir a cultura egípcia em Mileto. De qualquer maneira, com a
finalidade de transmitir a extensa cultura egípcia num período
curto, os conhecimentos foram sendo descritos e classificados.
Também, para aumentar o poder persuasivo, foi inventada a chamada
demonstração. Foi nessa época que
surgiu Pitágoras (569 - 500 A.C.).
A criação da demonstração exaltou a
mente dos sofistas, e os teoremas que até então eram conhecidos
simplesmente por intermédio da experiência adquirida iam sendo
demonstrados um a um. Foi Euclides (330-275A.C) da época
áurea da Alexandria quem unificou e abstraiu as propriedades gerais
desses teoremas. Partindo de cinco axiomas e cinco postulados, todos
os teoremas, descobertos até então, podiam ser daí deduzidos
sinteticamente. É esse o completamento
da geometria euclideana.
No apogeu da Alexandria, a aritmética e
a álgebra desenvolveram-se consideravelmente, mas, nos cálculos
práticos, não conseguiram tanto como na Índia, tendo sido mais
teóricos. Pitágoras já havia descoberto o número irracional e
Arquimedes (287-2 12 A.C.) deixou a relação:

Essas não seriam pesquisas sistemáticas,
talvez mais próximas de descrições, independentes das experiências
adquiridas em relação ao número. Embora na época negra da Idade
Média não existisse nenhum desenvolvimento que merecesse uma menção
especial, o método do cálculo escrito progrediu consideravelmente.
(Antes disso era de capital importância o cálculo com o uso de
ábacos.)
A divisão era ainda bastante diferente, mas a multiplicação já era
bem parecida com a atual. Com a Renascença, esse ramo foi
rapidamente desenvolvido; a solução da equação do terceiro grau foi
descoberta por Tartaglia (1500-1557) e a do quarto
grau por Ferrari (1522-1560). A descoberta do número decimal
e o completamento da notação algébrica também se deram nessa época.
O uso prático foi também destacado e, em 1614, foi apresentada por
Napier (1550-1617) a tabela de logaritmo, que simplificou
bastante a multiplicação. Descartes (1596-1650)
iniciou a geometria analítica, combinando a geometria e a álgebra,
que já estavam concluídas em linhas gerais. Foram sendo
desenvolvidos o cálculo diferencial por Barrow (1630-1670) e
o cálculo integral por Newton (1642-1727). Foi nessa época
que, finalmente, estabeleceu-se o conceito de matemática. O século
XVIII foi o período da aplicação da matemática, que já estava
concluída, assim, em linhas gerais. Relacionadas com a
hidrodinâmica, a condução térmica etc. surgiram as equações
diferenciais parciais, a série de Fourier etc.
No século XIX, a base da matemática foi
revista e desenvolveu-se de modo puramente teórico. Cauchy (1
789- 1857) pesquisou a convergência das séries infinitas indo até a
teoria da função de variável complexa; Riemann (1826- 1866)
completou-a geometricamente, e Weierstrass (1815-1897),
analiticamente. A teoria dos números também foi re-estudada por
Dedekind (1831-1916) e levada até a teoria dos conjuntos por
Cantor (1845- 1918). Com respeito à geometria, os cinco axiomas
de Euclides foram reconsiderados, e geometrias de sistemas
diferentes foram construídas por Lobachevskv (1793-1856) e
Riemann. Houve nessa época uma completa mistura de geometria,
álgebra, cálculos diferencial e integral e uma classificação simples
como antes era impossível. Assim, iniciou-se o estágio de
re-coordenação da matemática.
Aparecimento
da química.
A descoberta dos metais, como indica o nome “era de bronze”, é
bem antiga. Usava-se, no início, o cobre nativo, depois o minério
oxidado, que podia ser facilmente tratado pela fundição e redução
simples. O método de tratamento do minério sulfuroso veio depois do
apogeu de Roma. A produção de bronze pela adição de estanho era
praticada desde a Antiguidade. A descoberta do ferro também é
remota, usando-se, no início, o minério oxidado. Por volta de 1 000
anos A. C., parece que a quantidade da produção aumentou
consideravelmente, mas a maior parte foi usada como armas.
No fim da Idade Antiga, já se conhecia o método de produção do ouro,
chumbo, estanho, zinco, mercúrio e também do vidro. Produziu-se o
sabão misturando-se a soda natural ao óleo. A técnica de ligas
desenvolveu-se. Era conhecido o método de produção do licor e do
perfume. Estes também são descritos sem inter-relação e em lugares
menos esperados, como no caso da geometria. Com relação a teorias,
existem várias, como a do átomo de Demócrito (460- 370 A.C.),
a teoria dos quatro elementos,
terra, água,
fogo e ar,
de Aristóteles (384-322 A.C.) etc., mas vamos suprimi-las
aqui, porque elas provieram da pura imaginação e estão distantes da
ciência.
A metalurgia da Idade Antiga foi introduzida na Arábia e, sob o
desejo de produzir metal nobre a partir de metal pobre, foi
transformada em alquimia; foi ainda re-introduzida na Europa e
sobreviveu até por volta do século XVII. Durante esse período, o
desenvolvimento da ciência foi pequeno, mas as técnicas das
experiências químicas progrediram e várias espécies de substâncias
novas foram separadas e
extraídas; podemos dizer, portanto, que serviu de degrau para uma.
nova era. Os alquimistas descobriram muitas espécies de sais, além
de álcoois e álcalis. Os ácidos clorídrico e sulfúrico foram
produzidos no século XVI e o ácido nítrico antes.
Já no século XIV, o explosivo primitivo, uma mistura de nitrogênio,
enxofre e carvão, era produzido. O éter, a acetona, o ácido de
benjoim foram descobertos antes do século XVII. Entretanto, como o
método de produção dessas substâncias ficou encerrado por trás de um
véu misterioso como segredo de alquimistas, ou como segredo
nacional, a sua saída para outros países foi impedida, e não se
puderam ver suas descrições através de letras.
Devemos levar em consideração que, em seu sentido amplo, as
descrições mencionadas no começo foram feitas nessa época através da
conservação dos produtos, da transmissão secreta ao discípulo etc.
Quanto às classificações, existem muitos ramos independentes,
surgidos de modo natural, ligados intimamente às técnicas, como, por
exemplo, o ramo ligado à produção do ferro que em linguagem atual,
seria uma combinação da mineralogia e da metalurgia, o ramo ligado
aos trabalhos de alquimistas, que seria a ciência das ligas e dos
ácidos; o ramo ligado à produção de licores, que seria a ciência de
fermentação e química orgânica; o ramo ligado aos trabalhos da
chamada “bruxa”, que seria a venenologia e a anestologia etc. Mas
não há nenhuma evidência de que tivesse havido intercâmbio entre
eles.
Mas, ao serem descobertas muitas
substâncias de espécies diferentes no século XVII e à medida que as
suas. inter-relações foram sendo esclarecidas, esses ramos
independentes de classificação começaram também a ser pesquisados
globalmente. O fato de a pesquisa científica ter sido estabelecida
em outros ramos, como a matemática ou a física, influenciou
bastante. Boyle (1627-1691), que deixou pesquisas sobre as
propriedades dos gases nesse sentido, foi um dos criadores da
química. Mas, até chegar-se à química no sentido verdadeiro, foi
preciso ainda mais de um século; isso devido à falta de
interpretação científica da combustão de substâncias. Na segunda
metade do século XVIII, sucederam-se descobertas sobre gases e,
relacionadas a elas, começou-se a considerar detalhadamente o
significado científico da combustão. Foi descoberto em 1754 o gás
'significado', em 1774 o oxigênio, e em 1776 o hidrogênio. A
separação do nitrogênio e do cloro também ocorreu nessa época.
Entretanto, com relação à combustão, não existia em tal período
senão um raciocínio bastante primitivo. Na época de Boyle,
pensava-se que o fato de o metal tornar-se pesado com a combustão
era devido à adição de “partículas de fogo”. Esse raciocínio, no
qual se considerava o fogo uma espécie de substância, chegou a seu
clímax no início do século XVIII, quando Stahl (1660-1747)
imaginou uma substância
denominada flogístico.
Foi Lavoisier (1743-1794) quem primeiro negou tal hipótese e
transformou a experiência química, que até então era qualitativa, em
quantitativa. Usando uma balança, ele mediu com precisão o aumento e
a diminuição da massa dos gases e das substâncias observados durante
a combustão das substâncias, no interior de um recipiente
perfeitamente fechado, e descobriu que o elemento imaginado, o
flogístico, não existia, que a massa total das substâncias era
constante, e que a combustão significava combinação com o oxigênio.
Com essa descoberta, foi abstraído e estabelecido o conceito de
elemento químico que era inextinguível nas reações químicas, e,
unificando vários ramos miúdos que existiam até então
independentemente, a química foi concluída como uma ciência em que
se estuda a combinação e a separação dos elementos.
Desde então, a pesquisa progrediu
rapidamente e, passando sucessivamente pelas leis das proporções
constantes de Proust (1754-1826), das proporções múltiplas de
Dalton (1766-1844), pela teoria atômica apresentada por ele
em 1808, pela lei das reações dos gases de Gay-Lussac (1778- 18500
etc., foi apresentada em 1811 por Avogadro (1776-1856) a
teoria molecular, a qual ficou enterrada, entretanto, até quando
Cannizzaro (1826-1910) foi buscá-la, em 1860. Embora os
conceitos de átomo e molécula tenham assim vagueado um pouco no seu
caminho, o raciocínio de elemento químico apresentado por Lavoisier
foi promovido intensamente por Berzelius (1779-1848), que por
sua vez produziu mais de 2 000 espécies de compostos químicos e
mediu as massas atômicas de 43 espécies de elementos. Até essa
época, pensava-se que a substância orgânica podia ser extraída
somente do corpo de um ser vivo e que a sua pesquisa pertencia a um
outro ramo. Mas, desde que Wohler (1800-1882) conseguiu
sintetizar a uréia, esse estudo entrou também para o ramo da
química.
O conceito de valência química é devido
aos esforços de Frankland (1825-1899), Kolbe (1818-18
84), Kekulé (1829-1896) e outros, na metade do século
XIX. Em 1865, Kekulé conseguiu a fórmula estrutural correta do
benzeno. Juntamente com isso, várias características dos elementos
foram pesquisadas e em 1869 Mendeleiv (1834-1907) apresentou a
tabela periódica. Pode-se dizer que, com isso, ficou concluída, em
linhas gerais, a química no sentido clássico. Posteriormente,
juntou-se à teoria da estrutura atômica da física, surgindo a
físico-química, e a química também entrou no estágio de
re-coordenação.
Aparecimento
da biologia.
As descobertas de novas e raras espécies
de animais e vegetais, e suas descrições
desordenadas, são análogas a
outros ramos. Foi também na Grécia clássica que estas começaram
a ser descritas de forma um pouco mais
classificada. Aristóteles descreveu 520 espécies de animais, e já
classificou a baleia como um mamífero. Em relação a vegetais, foi
Teofrasto (372-287 A. C.) quem primeiro colecionou e descreveu;
a classificação, entretanto, ainda não era completa, mas já se
discutia a diferença de germinação entre sementes de plantas
monocotiledôneas e dicotiledôneas. Diascórides(40-90), da
época de Roma, classificou e descreveu 600 espécies novas de animais
e vegetais. As descrições das plantas medicinais da índia por del
Huerto (1490-1570), das plantas egípcias por Alpini
(1533-1617), das pIantas americanas por Monardes (1493-1 588)
são famosas. Da comparação desses novos animais e vegetais com os já
conhecidos, a taxologia também se desenvolveu, aparecendo as
histórias naturais de Gesner (1516-1565),
Aldrovanti (1522-1605), Monfet (1533-1604) e outros.
Daí foi sendo abstraído algo essencial,
aparecendo um ramo da ciência denominado biologia, mas, para tanto,
contribuiu decididamente o microscópio, inventado em 1590 por
Jansen (1 560-1628). No século XVII, o microscópio foi melhorado
e utilizado ativamente na pesquisa da biologia.
Van Leeuwenhook (1632-1723) esclareceu a estrutura interna dos
insetos e corrigiu a idéia corrente nessa época de que os insetos e
os mamíferos pertenciam a dimensões completamente diferentes.
Malpighi (1628-1692), Grew (1641-1713), e outros,
esclareceram a constituição do tecido celular. Grew afirmou que os
animais e os vegetais possuíam estruturas semelhantes, que os órgãos
reprodutores existiam também nos vegetais, e que estes eram
exatamente as flores. Foi em 1628 que Harvey (1578-1657)
defendeu a teoria da circulação sangüínea. Dessa maneira, à medida
que os pontos comuns como a existência de células para animais e
vegetais, a semelhança da ação fisiológica, etc., foram sendo
esclarecidos paulatinamente, o protótipo da biologia moderna foi
sendo formado.
Chegando ao século XVIII, o número das
espécies de animais e vegetais descobertos aumentou rapidamente.
Von Linné (1707-1778), por exemplo, contou 18 000 espécies de
vegetais. (No século XIX, Cuvier (1769-1832) contou 50 000
espécies.) Juntamente com isso foi formada a taxologia científica,
na qual eram usados os conhecimentos da fisiologia, anatomia etc. Em
1759, pela observação minuciosa da incubação de ovos de galinha, foi
construída a base da embriologia, por Wolf (1733-1794). No
século XIX, unificando tais conhecimentos, Darwin (1809-1882)
concluiu a sua teoria da evolução (1859). Foi nessa época que
Mendel (1822-1884) descobriu a lei da hereditariedade. A
hipótese da mutação foi apresentada em 1901 por Vries
(1848-1935). Por outro lado, a
citologia progrediu rapidamente devido ao aperfeiçoamento do
microscópio com lente acromática, por volta de 1820 por Amici
(1786-1863); Braun (1805-1 877) descobriu o núcleo celular e,
na década de 1870, o comportamento do cromossomo foi esclarecido por
Strausburger (1844- 1912) e Fleming (1843-1905). No
fim do século XIX, com a colaboração da química, conheceu-se que a
proteína é a substância constituinte dos seres vivos e, desse modo,
um novo ramo da biologia foi aberto. Houve, então, uma mistura dos
vários ramos, começando-se a estudar a origem da vida, a relação
entre a evolução e a hereditariedade etc., entrando também a
biologia no estágio de re-coordenação.
3-
Ciências Novas
Além dos vários ramos que hoje se
apresentam há possibilidades de que surjam no futuro ramos
completamente novos de ciência, sendo que alguns já se encontram no
estado um tanto além do embrionário.
Vejamos a seguir as condições sob as quais isso aconteceria. A
maneira mais comum é a de que dois ou mais ramos de ciências já
concluídas se combinem, produzindo um novo ramo ou alargamento da
região de pesquisa, isto é, o cultivo da “região marginal”.
Diferindo destas, temos as ciências verdadeiramente novas, que
nascem quando o crescente desenvolvimento tecnológico gera fatos
experimentais completamente novos, ou quando as invenções
tecnológicas possibilitam repentinamente a apresentação de fatos que
até o momento careciam de meios de descrições, embora fossem
experimentados cotidianamente. E claro que, segundo a teoria já
exposta, apenas a descrição dos fatos não nos leva à ciência, sendo
necessária a classificação e depois a abstração das propriedades
comuns de cada ramo classificado. Exemplificaremos a seguir:
Exemplo1.
Ciência do espaço cósmico: — Existe uma possibilidade de
surgir no futuro uma ciência denominada, por exemplo,
“cosmoespaçologia”, que é diferente da física do espaço. O
desenvolvimento de satélites artificiais trouxe novos conhecimentos
sobre o espaço cósmico. Mas, por enquanto, pode-se dizer que ainda
se acha no estágio de descrições cronológicas em que se descreve,
por exemplo, como foram descobertos tais e tais fatos por um
satélite artificial no dia xx de 20yy. Não existe ainda uma
acumulação suficientemente grande de dados para que se necessite de
uma classificação. Portanto, mesmo que venha a ser um novo ramo da
ciência, será um problema do futuro. Presentemente, é possível
pesquisar esse ramo dividindo-o em vários ramos das ciências
existentes. Por outro lado,
devido ao desenvolvimento dessa tecnologia, já começaram a ser
obtidas informações novas e, portanto, é mais provável que no futuro
venha surgir daí uma nova ciência.
Exemplo 2.
Problema do olfato e paladar. — Entre os sentidos
humanos, o problema da visão está bem compreendido devido ao
aperfeiçoamento da óptica. Mas não existem ainda ciências do olfato
e do paladar (gosto) em seus significados rigorosos. Sob o ponto de
vista dos estágios, encontram-se estagnados no mais primitivo, onde
ainda não se conhece nem mesmo como descrever os fenômenos. Portanto
a sua transformação em ciência é problema de um futuro remoto.
Exemplo 3.
Problema da tradução: — Até essa fase, a tradução de textos,
por exemplo, não era problema da ciência, mas sim da literatura.
Entretanto, com o progresso do computador eletrônico, tornou-se
possível, até certo ponto, fazê-la mecanicamente. Evidentemente,
isso ainda não é perfeito. Existe inclusive um fato que parece uma
piada: há duas ou três dezenas anos, quando foi traduzida
mecanicamente uma sentença da Bíblia que significava “o espírito
está desejoso, mas a carne é fraca”, do inglês para o russo, e
depois re-traduzida do russo para o inglês, obteve-se uma sentença
que significava “o vinho está delicioso, mas a carne é ruim”.
Supondo que, no futuro, tais erros banais sejam eliminados, seriam
necessários ainda muitos anos até se poder traduzir uma sentença bem
escrita para outra bem escrita, uma sentença mal escrita para outra
mal escrita, uma sentença de ofício para outra de ofício etc. Para
isso, é preciso uma ciência denominada ciência de tradução. Se
usarmos um computador com memória grande, será possível deixá-lo
memorizar todas as sentenças de variadas espécies. Atualmente,
está-se tentando classificá-las segundo várias regras, como, por
exemplo, segundo a freqüência de adjetivos e advérbios, ou o
comprimento de sentenças, e procurando leis gerais que devam ser daí
abstraídas. Sob o ponto de vista de estágios, encontra-se no de
classificação por tentativas e erros. Desse modo, existe uma grande
probabilidade de tornar-se uma ciência, mas não se pode dizer que
será em um futuro próximo.
Exemplo
4.
Linguagem dos animais: — Até que ponto os animais possuem uma
linguagem e até onde o homem pode entendê-la? Até agora, esse
problema quase não tem sido tratado como uma ciência. Contudo,
atualmente, se assim o desejarmos, dispomos de técnicas para
descrever como, por exemplo, a gravação em fita, em disco etc.
Também poderíamos experimentar várias maneiras de classificação
rápidas, com auxilio de computadores eletrônicos. Se daí se
descobrirem leis, tornar-se-á uma ciência. Sob o ponto de vista de
estágios, podemos dizer que, a despeito de possuirmos técnica, não
estamos fazendo nem descrições.
Exemplo 5.
Cibernética: — Foi apresentada depois da Segunda Guerra por
Wiener (1894-1963), e é um sistema de novas ciências que foi
construído com base no desenvolvimento de computadores eletrônicos,
pensando-se que era necessário tratar globalmente o controle e a
comunicação de animais e máquinas. Historicamente não foi depois do
aparecimento da matemática que nasceram a geometria, a aritmética e
a álgebra, mas, como na verdade foi exatamente o contrário, tem-se a
impressão de que seja cedo demais para instituir essa espécie de
sistema geral. Se a teoria de informação, a teoria de computador
eletrônico, a teoria de feed-back,
que são estudadas atualmente nesse campo, forem concluídas
respectivamente, se as ciências mencionadas nos Exemplos 2 e 4
também forem completadas, se, em seguida, as propriedades comuns
entre elas forem sendo esclarecidas, e se, finalmente, forem
unificadas, surgindo daí a cibernética, então será ortodoxo sob o
ponto de vista da “embriologia”. Entretanto, se esta for
estabelecida no sentido de uma possibilidade por analogia (voltarei
a falar disso), então não haverá problema.
Eis a série dos
Primeiros Passos:
Primeiros Passos da Ciência (Geral)
Primeiros Passos da Física (parte 1)
Primeiros Passos da Física (parte 2)
Primeiros Passos da Física (parte 3)
Primeiros Passos da Física (parte 4)
Primeiros Passos da Física Clássica (parte 1)
Primeiros Passos da Física Clássica (parte 2)
Primeiros Passos da Física Moderna
Primeiros Passos da Mecânica Quântica (parte 1)
Primeiros Passos da Mecânica Quântica (parte 2)
Primeiros Passos da Mecânica Quântica (parte 3)
Métodos dos Passos da Física (parte 1)
Métodos dos Passos da Física (parte 2)
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