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Primeiros Passos da Física
(Parte1)
leobarretos@uol.com.br
Aqui, examinando a história dos
primeiros passos dos diversos ramos da física, explicaremos o
processo do despertar da ciência exposto no trabalho precedente,
isto é, o processo segundo o qual os fatos experimentados
desordenadamente foram sendo descritos, inicialmente sem qualquer
tratamento, depois, gradativamente, foram sendo classificados em
vários ramos miúdos e, em seguida, propriedades comuns desses ramos
foram sendo abstraídas e, finalmente, os ramos maiores das ciências
foram sendo formados pelas abstrações das propriedades mais gerais
das leis especializadas assim obtidas.
1- Passos da Mecânica
Estática.
Há muitos registros de que as alavancas já eram usadas na época do
Egito. Visto que o método da utilização da balança romana já era
descrito num livro de medicina da mesma época, imagina-se que o seu
princípio também era, até certo ponto, compreendido. Embora não
exista nenhuma descrição, pensa-se que as polias talvez já fossem
usadas, uma vez que foram construídas estátuas de quase 400
toneladas. As descrições sobre a estática da Idade Antiga podem,
portanto, ser vistas espalhadamente às vezes em livros de medicina,
às vezes em livros religiosos, ou ainda em registros de obras de
engenharia civil.
Esses ramos, como no caso de outros,
começaram a ser descritos classificadamente também na época da
Grécia, e Aristóteles, Arquimedes, e outros. deixaram obras
relacionadas com a estática. Aristóteles deu a seguinte condição de
equilíbrio (ilustração abaixo, esquerda):
m/m’ v’/v, onde m e m’ são,
respectivamente, as massas de cada peso e v e v’ são as velocidades
com que ambas as pontas da barra se movem quando o equilíbrio for
quebrado. Heron (século II A.C.) fez uma descrição mais
completa do assunto e deixou a conclusão correta do equilíbrio da
polia, (ilustração abaixo, direita) dada por d.m = d'.m'.
Foi bem mais tarde que a lei mais geral
sobre equilíbrio das forças foi abstraída. No século XV, Leonardo
da Vinci (1452-1519) já teria compreendido, até certo ponto, o
paralelogramo de forças, mas a compreensão verdadeira deve-se a
Stevin (1548-1620), que, entretanto, não a descreveu sob a forma
de uma lei rigorosa. A conclusão da estática no sentido verdadeiro
foi feita por Varignon (1654-1722), depois de Newton.
Dinâmica.
Ao contrário da estática, que era
conhecida relativamente bem desde a Idade Antiga, a
dinâmica permaneceu confusa até a Idade
Moderna. Existem algumas descrições classificadas, mas incorretas,
na maioria. Aristóteles descreveu, por exemplo, que o corpo pesado
cairia mais rapidamente que o leve, e que uma pedra jogada ao ar
percorreria uma reta até um certo ponto, e depois cairia
verticalmente. Foi Galileu (1564-1642) quem primeiramente
corrigiu esses erros através de experiências. Examinando, com um
relógio d’água, o movimento de
corpos esféricos que percorriam vagarosamente um plano inclinado,
ele obteve que, no caso de existir uma aceleração constante a,
a relação entre a velocidade v e o tempo t era dada por v = at
e a distância percorrida s por s = at2/2.
Além disso, descobriu o isocronismo do pêndulo e compreendeu o
movimento circular e o da queda de um corpo.
Entretanto, na classificação atual, o seu trabalho estaria inclinado
mais para a cinemática que para a
dinâmica, porque a relação entre a
força e a aceleração era ambígua. De qualquer modo, a estática e a
cinemática pertenciam a categorias diferentes.
O conceito de atração terrestre apareceu
somente no fim do século XVII, depois que os astrônomos descobriram
que um relógio de pêndulo, calibrado em um determinado ponto da
Terra, não indicava o tempo rigorosamente correto em outro ponto.
Com base nesse fato, parece que Huygens (1629-1695)
considerou, embora obscuramente, a existência da atração terrestre.
Quem compreendeu o fato de modo extremamente claro e discriminou a
massa do peso
foi Newton. Os vários fenômenos independentes e suas respectivas
interpretações que eram conhecidos até então foram por ele unidos
sob a forma de três leis da mecânica.
Astronomia.
As descrições relativas aos fenômenos de astronomia foram realizadas
desde idade bastante antiga, devido às necessidades relacionadas com
a agricultura, ao espanto ingênuo ante um eclipse ou ao seu
aproveitamento para religiões. Já na época do Egito, o ano possuía
365 dias. O estabelecimento do ano bissexto em cada 4 anos, por
causa da sua inexatidão, deu-se em 46 A.C.. Na Babilônia, já havia
sido descoberto o período de Saros de 6585 dias e a precessão da
Terra também já era conhecida por volta de 300 A.C.. As observações
dos cinco planetas, Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno,
ficaram registradas por longo tempo, e, nessa época, já existia uma
tabela quase exata das previsões das posições dos planetas. Assim,
quando essas observações passaram para as mãos dos gregos, já se
encontravam no estágio de descrições
classificadas, mas, na época da Alexandria, esses dados foram
compilados do modo mais ordenado possível, surgindo a tabela das
estrelas, Almagest, de Ptolomeu (85-165).
Na Idade Média, não houve nenhum
desenvolvimento importante. Deve-se notar somente que a precisão das
observações aumentou bastante, tendo sido publicada, em 1252, por
Afonso X (1221-1284), corrigindo o Almagest, uma tabela de
estrelas em que se podia confiar muito mais que na primeira.
Posteriormente a precisão de observações foi aumentando cada vez
mais, de tal modo que, na época de Tycho Brahe (1546-1601),
mestre de Kepler (1571-1630), tinha-se tornado possível
prever quase perfeitamente a posição dos planetas a partir de dados
observados no passado.
No campo teórico, foram apresentadas várias teorias desde a época da
Grécia. Contudo, devido à noção inexata da distância entre os
planetas, estas eram mais dogmas do que teorias. Com relação à
estrutura do sistema solar, Aristarco (310-230 A.C.) defendeu
a teoria heliocêntrica, mas a maioria era geocêntrica, como, por
exemplo, a teoria de circulo excêntrico de Hiparco (190-125
A.C.) e a teoria de epiciclos de Apolônio (265-200 A.C.). Na
última, especialmente, como se mostra na ilustração abaixo, os
planetas percorriam uma órbita circular pequena com o centro
percorrendo, em velocidade escalar constante, uma circunferência
cujo centro era a Terra, e portanto era muito conveniente para a
explicação do fenômeno de progressão e retrocesso dos planetas.
Se a explicação não fosse conseguida,
introduzia-se uma terceira circunferência cujo centro b percorresse
a segunda, depois mais uma quarta... Assim, com melhoramentos
contínuos, conseguiu sobreviver até a época moderna. Mas, no século
XV, com o aumento da precisão de observação, era preciso considerar
um total de 79 epiciclos para se conseguir explicar o movimento dos
planetas com a hipótese de epiciclos.
A primeira consideração, de que somente
a hipótese heliocêntrica conseguiria interpretá-los de modo simples,
foi apresentada por Copérnico (1473-1543). Mas mesmo ele não
chegara, ainda, à idéia de órbita elíptica, e usou a circular, de
modo que precisou ainda considerar os epiciclos para explicar os
valores observados. Foi Kepler quem primeiramente propôs a órbita
elíptica. Apresentou essa primeira lei em 1609 (hoje, lei das
órbitas), juntamente com a lei que ele descobrira por volta de 1603
(atualmente denominada segunda lei ou lei das áreas) em que a área
varrida pelo raio vetor que liga o Sol ao planeta é proporcional ao
tempo necessário para percorrê-la. A terceira lei foi apresentada em
1619, e diz que o quadrado do período dos planetas é proporcional ao
cubo da distância média entre estes e o Sol.
Completamento
da mecânica. A partir da terceira lei de Kepler, muitos
imaginaram a existência de uma força inversamente proporcional ao
quadrado da distância entre o Sol e os planetas. R. Hooke
(1635-1703) era um deles, porém não conseguiu resolver o problema
matematicamente. Foi mencionado anteriormente que se pensou na
existência da atração terrestre devido a variação no período do
pêndulo, mas Newton, notando que essa variação não era muito grande
entre um lugar plano e uma montanha, imaginou que deveria ter um
alcance mais longo e, levando em conta a terceira lei de Kepler,
supôs que seria igual a uma força inversamente proporcional ao
quadrado da distância; aplicando-a ao caso da translação da Lua,
obteve sua lei de gravitação universal, por volta de 1666.
Entretanto, como nessa época, a medição da distância correspondente
a um grau de latitude não era muito precisa, ao calcular a distância
entre a Terra e a Lua apareceu um erro muito grande, e portanto os
resultados não foram satisfatórios, sendo sua apresentação adiada
até 1687.
Desse modo, os problemas relacionados
com a alavanca, a polia, a trajetória de uma pedra atirada, o
pêndulo, a localização dos planetas, o eclipse etc., que existiam
independentemente no começo, gradativamente foram sendo
classificados em ramos miúdos, como a estática, a cinemática, a
astronomia, que se desenvolveram independentemente e, pelos
trabalhos de Newton, um ramo maior chamado
mecânica tornou-se completo. Desde então, pela sua aplicação
a vários ramos especializados, essa mecânica foi sendo re-dividida
em mecânica celeste, hidrodinâmica, mecânica de construção etc.
Primeiros Passos da Ciência (Geral)
Primeiros Passos da Física (parte 1)
Primeiros Passos da Física (parte 2)
Primeiros Passos da Física (parte 3)
Primeiros Passos da Física (parte 4)
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