|
Primeiros Passos da
Física Clássica
(Parte1)
leobarretos@uol.com.br
Completamento
da física
No trabalho inicial dessa série PP,
expusemos o processo dos
Primeiros Passos da Ciência: primeiro,
os dados ou fatos experimentados ao acaso são descritos sem nenhuma
classificação; depois, gradativamente,
vão sendo classificados e, nesse estágio, as propriedades comuns
entre os elementos de cada item da classificação são abstraídas, de
onde surgem as leis científicas.
Entretanto a formação das ciências, no sentido rigoroso, provém
exatamente desse estágio em que as propriedades comuns entre as
descrições classificadas são abstraídas; é também onde o trabalho
apresenta-se mais difícil. Nessas condições, trataremos aqui apenas
dessa parte da formação da física.
Vamos considerar primeiro o que
significa um ramo da física tornar-se completo.
De um modo simples, significa que todos os
dados e os fatos experimentados classificados nesse ramo
podem ser explicados e interpretados teoricamente e, ao mesmo tempo,
todos os fenômenos desse ramo ainda não descobertos podem ser
previstos teoricamente. Usamos aqui a palavra "ramo", mas ela não
possui um significado absoluto.
As razões são:
(1) como foi visto nos
trabalhos anteriores dessa série PP,
não existe nenhuma regra absoluta para as classificações, mas isso
foi sendo feito paulatinamente por tentativas e erros, observando-se
globalmente a conveniência, a simplicidade, a lógica etc.;
(2)
existe a possibilidade de que um fenômeno classificado em um
determinado ramo mude, às vezes, para
outro, quando a precisão de observação for aumentada, isto é, o ramo
está intimamente relacionado à precisão de observação, ou ao grau de
aproximação.
Exemplo 1
- Consideremos o fenômeno em
que uma partícula carregada não muito rápida, curva sua trajetória
num campo magnético. Comumente, este é considerado um problema da
mecânica de Newton e da teoria eletromagnética de Maxwell, mas,
nesse mesmo problema, quando medimos a energia e a curvatura da
trajetória com precisão extrema, aparece um pequeno desvio que não
pode ser explicado pelas teorias clássicas de Newton e de Maxwell.
Isso quer dizer que tal fenômeno pertence ao ramo da
eletrodinâmica clássica na precisão
ordinária, mas torna-se um problema da
relatividade especial no limite de precisão extrema.
Exemplo 2
-A órbita de Mercúrio poderá ser muito bem explicada pela
mecânica de Newton se for observada
durante um período relativamente curto. Mas, como será discutido nos
PP da relatividade, se a
observação for feita durante um período mais longo e com a precisão
aumentada, não poderá ser explicada mais por essa teoria,
tornando-se um fenômeno de um novo ramo, denominado
relatividade generalizada.
Matéria e
Mecânica
A seguir, vejamos o que é preciso fazer para que um ramo da física
torne-se completo no sentido
considerado acima.
De um modo geral, basta que se abstraia dos fatos que foram
descritos com classificação (isto é, dos fenômenos pertencentes a
esses ramos), os elementos que constituem o
fenômeno e as suas leis de movimento ou
de mudança. Chamamos o primeiro de matéria e o último
de mecânica. Portanto, matéria e
mecânica possuem aqui um significado
bastante amplo, diferindo um pouco do sentido comumente usado. Em
seguida vamos exemplificar isso.
Exemplo 1
- Vamos considerar o problema
em que um líquido escoa de um recipiente, como abaixo ilustrado. A
fim de conhecer a velocidade de saída, precisamos saber primeiro se
o líquido é água ou óleo. Se for água, qual a sua viscosidade, a
temperatura e a altura do recipiente, o comprimento do tubo etc.
Denominaremos isso de "conhecimento sobre a matéria". Conhecidos
esses dados precisamos saber a hidrodinâmica, que será a ‘mecânica’
no sentido acima. No linguajar vulgar diríamos que a hidrodinâmica
explica a 'mecânica da coisa'.
Exemplo 2
- Vamos considerar o problema
do cálculo do movimento de um planeta do sistema solar. Como
matéria, precisamos conhecer os planetas existentes, suas
respectivas localizações, suas massas, massa do Sol etc. Além disso,
precisamos das equações da mecânica
newtoniana.
Exemplo 3
- Vamos considerar o problema
de investigar as propriedades dos gases encerrados num recipiente.
Precisamos saber qual é o gás, que este, na verdade, é um conjunto
de moléculas bastante pequenas. Depois, será preciso saber que as
moléculas se movem segundo a mecânica de Newton, e que o
comportamento estatístico de muitas partículas é descrito pela
mecânica estatística de Boltzmann.
Exemplo 4
- No problema do espalhamento
do nêutron por um núcleo, precisamos saber primeiramente a massa do
nêutron, a massa do núcleo, a estrutura interna do núcleo, a força
que atua entre eles etc., ou seja, tudo sobre a matéria. Depois,
precisamos saber que o movimento dos nêutrons etc, é descrito pela
mecânica quântica.
Como vimos, a palavra "matéria" aqui
considerada não é absoluta do mesmo modo que a palavra "fenômeno"
discutida em nosso trabalho anterior. Ela representa a matéria que
está sendo considerada nesse ramo, e está intimamente ligada ao
estágio de classificação ou ao seu grau de aproximação. Por exemplo,
no ramo da hidrodinâmica, o gás é considerado um meio contínuo, mas,
no ramo da teoria molecular dos gases, é considerado um conjunto de
partículas muito pequenas.
Os três
estágios da formação da física
Consideremos a seguir em qual ordem e como as ‘‘matérias’’ e as
"mecânicas’’, definidas acima, devem ter-se originado, a partir das
abstrações das experiências já classificadas.
De início, notamos que existem matérias que são abstraídas
diretamente das experiências classificadas ou por simples
imaginação. Chamamos essa matéria de matéria macroscópica. A
definição é um pouco ambígua, mas difere dos elétrons, ou átomos,
que consideraremos depois, no seguinte ponto: a primeira pode ser
reconhecida pelas observações ou experiências simples ou, às vezes,
adicionando a elas um pouco de imaginação "não muito científica",
sem o auxílio da mecânica já concluída. Evidentemente, nesse
estágio, essa "matéria" não é reconhecida em definitivo,
principalmente do ponto de vista quantitativo. Podemos considerar
que foi entendida qualitativamente, ou como uma possibilidade de
existência. Essas matérias macroscópicas serão depois confirmadas,
ou compreendidas, muito mais detalhadamente pela mecânica que daí
surgir. Em seguida explicaremos esse processo através de exemplos.
Exemplo 1
- A água que apareceu no
exemplo anterior não foi reconhecida depois
de resolvida a equação hidrodinâmica, ou seja, depois de esclarecida
a sua 'mecânica'. Vários líquidos experimentados pelo homem (óleo,
água do mar, da chuva, do poço, do rio, licor etc.) já haviam sido
classificados, abstraindo-se daí uma matéria chamada
água. Podemos, pois, chamá-la de
matéria macroscópica.
Exemplo 2
- Consideremos os planetas.
Observando as luzes do céu, o homem imaginou que ali deveria existir
algo. Com base no fato de que a luz parece escurecer, à medida que
nos distanciamos do local em que é emitida, começou-se a considerar
que os planetas eram fontes de luz enormes que estavam extremamente
longe. Os planetas não foram descobertos
depois da conclusão da mecânica de Newton. Como não podem ser
tocados diretamente com as mãos, mas apenas reconhecidos
indiretamente, poderíamos dizer que os planetas foram confirmados,
no sentido quantitativo, somente depois do completamento da mecânica
de Newton, mas vamos considerá-los matéria macroscópica, no sentido
usado acima.
À medida que os movimentos dessas
matérias macroscópicas forem sendo observados, surgirão
gradativamente as "mecânica" clássicas. Sobre tal processo,
Taketani (*) apontou a
possibilidade de dividi-lo nos três estágios seguintes:
fenomenológico,
substancialístico e essencial.
Estágio fenomenológico
- Enquanto são investigadas as várias propriedades gerais dos
fenômenos de um determinado ramo, as expressões compactas dessas
propriedades vão sendo abstraídas empiricamente, isto é, o estágio
em que aparecem as leis empíricas surge em primeiro lugar.
Exemplo 1
- Até a época de Tycho Brahe,
enquanto muitos astrônomos observavam e descreviam o movimento dos
planetas, já havia sido descoberta uma regularidade sobre o
movimento dos mesmos. Essa é, tipicamente, uma lei empírica.
Exemplo 2
- Enquanto Coulomb examinava
de várias maneiras a força entre duas cargas elétricas, descobriu a
lei: f = q1q2/r2, onde q1
e q2 são cargas elétricas, r é a distância entre elas e f
é a intensidade da força. Essa também é uma lei empírica.
Estágio
substancialístico: — Quando
aparecem as leis empíricas, como estágio seguinte, tenta-se através
de modelos mais concretos, explicar mais profundamente essas
leis. A definição da palavra "modelo" não é clara, mas significa
descrever, ante os olhos, a forma simplificada ou a imagem do agente
causador do fenômeno. Por seu intermédio, uma das leis empíricas,
ou, quando houver algumas da mesma espécie, serão conjuntamente
explicadas. Mas não podemos dizer que essa
teoria de modelo seja suficientemente geral e completa, pois
vale para um determinado fenômeno, mas não atinge outros. Além
disso, usualmente, estão incluídas hipóteses cujos motivos são
completamente desconhecidos.
Exemplo 1
- Kepler apresentou uma
teoria de modelo do sistema solar
constituída de três leis, para explicar
unificadamente as leis empíricas sobre o movimento de diversos
planetas obtidas por Tycho Brahe e outros.
A primeira expunha que cada planeta
movia-se numa órbita elíptica, na qual o Sol ocupava um dos focos, e
expressava a estrutura do sistema solar de modo simplificado.
Todavia, não esclareceu por que o planeta descreve uma órbita
elíptica, por que a velocidade areolar é constante, como foi
mencionado na sua segunda lei, e por
que o quadrado do período é proporcional ao cubo do raio maior da
órbita, como foi mencionado na sua terceira
lei.
Estamos dizendo somente que, se tais leis forem consideradas, os
movimentos dos planetas estudados por Tycho Brahe e outros, serão
explicados muito facilmente, e de um "modo visível".
Exemplo 2
- Faraday introduziu o
conceito de campo, para explicar unificadamente a lei de Coulomb, a
lei de Ampère e a lei descoberta por ele próprio.
Supondo o espaço preenchido por uma espécie de matéria elástica, ele
imaginou que a presença de uma carga elétrica causava nessa matéria
uma espécie de distorção que se propagava até a carga seguinte,
imprimindo-lhe uma força. Nessa teoria, embora possamos entender as
leis fundamentais da teoria eletromagnética por meio de uma
substância concreta, vários pontos continuam obscuros e, nesse
sentido, é também uma teoria de modelo.
Estágio essencial
- Quando ficam acumuladas algumas teorias substancialísticas que
surgiram do modo mencionado acima, começa a surgir uma expressão
matemática mais abstrata a fim de explicá-las globalmente. Esta é a
chamada "mecânica". Chamamos esse estágio de
essencial. A característica dessa expressão matemática
abstrata é que ela é válida não só para um determinado fenômeno em
especial, mas também para uma região bastante ampla.
Exemplo 1
- Na época em que a teoria de
Kepler foi apresentada, já existiam várias teorias
substancialísticas sobre o movimento de diversos corpos no solo
terrestre, além do movimento dos planetas, como, por exemplo, a lei
de Galileu. As três leis da mecânica e a lei da gravitação universal
de Newton são teorias que foram construídas pela unificação destas.
Essa teoria pertence ao estágio essencial e é uma "mecânica".
Exemplo 2
- Desenvolvendo ainda mais a
consideração de Faraday e estendendo a lei de Ampère até o caso da
corrente elétrica não-estacionária, Maxwell obteve um conjunto de
equações. Essas expressões matemáticas também são uma "mecânica", no
sentido mencionado acima.
Em linhas gerais, a "mecânica" clássica
foi sendo construída, atravessando os estágios mencionados. Então, a
matéria que até o momento era
reconhecida obscura e qualitativamente, foi sendo compreendida clara
e quantitativamente, com o auxilio dessa "mecânica".
Assim a física
clássica desse ramo foi sendo concluída. A palavra
"clássica" significa que foi construída diretamente da matéria
macroscópica.
(*)
- Sobre o cientista Mituo Taketani reproduzo esse texto extraído de
http://sbf.if.usp.br/WWW_pages/Journals/Fne/Vol3/Num1/a10.pdf :
Em 1958, assumiu o
cargo de Diretor Científico do IFT (Instituto de Física Teórica) o
cientista Mituo Taketani, da Universidade de Rikkyo, Japão, que
trouxe como assistente o físico Yasuhisa Katayama, da Universidade
de Kyoto. O professor Taketani, juntamente com Yukawa (prêmio Nobel
de 1949), Sakata e Tomonaga (prêmio Nobel de 1965) eram os
principais expoentes da Física Japonesa do pós-guerra. Incentivados
por Taketani a partir de 1958, o IFT iniciou a publicação do boletim
"Informações entre físicos" que contou com a participação dos
cientistas das mais variadas instituições de Física, nacionais e
internacionais. Esse boletim deu origem à Revista Brasileira de
Física, atual Brazilian Journal of Physics, editada no Instituto
durante os seus primeiros dez anos.
Primeiros Passos da Ciência (Geral)
Primeiros Passos da Física (parte 1)
Primeiros Passos da Física (parte 2)
Primeiros Passos da Física (parte 3)
Primeiros Passos da Física (parte 4)
Primeiros Passos da Física Clássica (Parte 1)
Primeiros Passos da Física Clássica (Parte 2)
Primeiros Passos da Física Moderna
Primeiros Passos da Mecânica Quântica (Parte 1)
Primeiros Passos da Mecânica Quântica (Parte 2)
Primeiros Passos da Mecânica Quântica (Parte 3)
Métodos dos Passos da Física (Parte 1)
Métodos dos Passos da Física (Parte 2)
Métodos da Teoria da Relatividade (Parte 1)
Métodos
da Teoria da Relatividade (Parte 2) (em
preparo)
Métodos da Teoria da Relatividade (Parte 3) (em
preparo)
Copyright © Luiz Ferraz
Netto - 2000-2011 ® - Web Máster: Todos os Direitos Reservados
|