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Primeiros Passos da
Física Clássica
(Parte2)
leobarretos@uol.com.br
A física
clássica, que surgiu pelo processo explicado no trabalho
precedente (PPFC - parte 1),
continua ainda sua evolução. Vejamos, neste atual trabalho, as
evoluções que ela ainda realizou.
Estágio de
refinamento
Esse estágio costuma seguir-se ao essencial,
logo após o completamento das pesquisas desse estágio. Aqui a
mecânica obtida no estágio essencial é reorganizada de modo mais
refinado matematicamente. Quando chegamos a esse estágio, o
significado mais essencial da mecânica torna-se claro e, como o
formalismo matemático já está ordenado, a sua aplicação torna-se
também mais fácil. É possível que se torne o ponto de partida para
uma nova mecânica futura.
Exemplo 1
- A equação de Newton foi reescrita em formas bastante elegantes por
Lagrange, Hamilton e outros. Por isso, os cálculos de rotação do
corpo rígido e da influência da atração entre os planetas
tornaram-se muito simples e, ao mesmo tempo, o significado mais
fundamental da equação de Newton foi esclarecido sob o ponto de
vista da lei de ação mínima. Pode-se dizer também que o formalismo
de Hamilton exerceu o papel de degrau para a posterior mecânica
quântica.
Exemplo 2
- Foi pesquisado por Lorentz e outros, sob o ponto de vista da
teoria dos elétrons, como a equação de Maxwell se comporta no
interior da matéria, e assim o significado essencial da constante
dielétrica, que Maxwell havia introduzido simplesmente como uma
constante física, ficou esclarecido. Ao mesmo tempo, o formalismo
hamiltoniano obtido por eles esclareceu o significado mais profundo
da teoria eletromagnética e ficou sendo o ponto de partida para a
posterior eletrodinâmica quântica. Esquematizando o que vimos até
aqui, obtemos:

Estágio de
aplicação
Outro desenvolvimento importante é começar sua aplicação quando a
formação da mecânica atingir o estágio essencial. Às vezes, ela é
feita depois do estágio de refinamento. A aplicação é uma espécie de
dedução, e difere do processo visto até
então, o indutivo. Assim, o sentido da
flecha na esquematização acima é invertido, isto é, primeiramente os
fenômenos são reconhecidos pelas observações ou experiências; em
seguida, a partir destas, é obtida a lei empírica.
==> Às vezes existe a possibilidade de a lei ser obtida em
primeiro lugar teoricamente e, em seguida, ser confirmada
experimentalmente. Porém, nos estágios da física clássica, isso é
relativamente raro.
Em seguida, daí é construída uma teoria de modelo e comparada com a
mecânica já feita. Contudo é mais freqüente que a própria teoria de
modelo seja deduzida da mecânica já feita, e que sejam comparadas a
lei empírica obtida da experiência e a teoria de modelo obtida da
mecânica. Esquematizando, obtemos:

Exemplo 1-
Descobriu-se que a carga elétrica é armazenada no capacitor que
consiste de duas placas colocadas paralelamente (o fenômeno). Em
seguida, variando-se de diversas maneiras as áreas das placas, os
intervalos entre elas etc., obtém-se uma lei empírica (o estágio
fenomenológico). Depois, considera-se um modelo, que se obtém
simplificando o capacitor real, por exemplo, considerando-se duas
placas paralelas de tamanho infinito, aplicamos a ele (modelo) a
mecânica já feita, que, nesse caso, é a teoria de Maxwell, e
deduz-se uma lei concreta (o estágio substancialístico). Compara-se
então com a lei empírica anterior. É o processo de aplicação mais
comum.
Exemplo 2 -
Vamos considerar o problema de um líquido fluindo em um tubo fino.
Em primeiro lugar, foi investigada experimentalmente a relação entre
o comprimento do tubo, a pressão no ponto inicial do tubo, o tempo
de escoamento etc. (o estágio fenomenológico). Em seguida aparece a
teoria de modelo, em que foram introduzidas diversas constantes
físicas, como a viscosidade, a compressibilidade e as hipóteses de
que a velocidade do líquido é zero na parede do tubo (o estágio
substancialístico). Por outro lado, a partir da mecânica de Newton,
é deduzida a equação geral para o movimento do líquido
(fluidodinâmica), a qual é comparada com a teoria substancialística
acima. Este é um exemplo em que a comparação é feita entre os
estágios substancialístico e essencial.
Como podemos ver nesse segundo exemplo,
à medida que a aplicação progride, inicia-se a especialização e
aparecem novos ramos especializados, como a hidrodinâmica, a
mecânica construcional etc. Mas eles surgiram apenas como um
requisito do campo da aplicação, com objetivos técnicos e
conveniências, não contendo, essencialmente, nada de novo sob o
ponto de vista da ciência.
Combinação
O novo passo que veremos em seguida é a combinação de duas ou mais
mecânicas de ramos diferentes que, às vezes, resulta em uma outra de
um novo ramo. Essa resultante é também uma nova mecânica que nasceu
pela exigência da aplicação, mas, comparando com a mecânica dos
ramos especializados, discutida no item precedente, contém com maior
freqüência novos princípios físicos. Esquematizamos esse fato assim:

Exemplo 1-
Eletrodinâmica — Foi construída para
calcular o movimento das partículas carregadas eletricamente, e é a
combinação da mecânica de Newton e da teoria eletromagnética de
Maxwell.
Exemplo 2
- Magneto-hidrodinâmica — É a
combinação da teoria eletromagnética e da hidrodinâmica. Nos dias
atuais, é aplicada freqüentemente ao problema do movimento do plasma
no espaço interestelar (nuvem rarefeita ionizada) e à pesquisa da
reação de fusão nuclear.
Descoberta da
matéria microscópica
Por último, um fato muito importante que deve ser ressaltado é que,
quando a física se torna cada vez mais desenvolvida, auxilia a
exploração de novas tecnologias, devido às quais novos fenômenos são
descobertos e, às vezes, pode ser descoberta até uma nova espécie de
matéria que até então jamais havia sido imaginada. O motivo dessa
nova espécie de matéria “jamais ter sido imaginada” é que escapava à
observação direta dos nossos sentidos por ser minúscula demais. Esse
novo tipo de matéria é denominado matéria microscópica. (Entretanto,
estendendo um pouco mais o seu significado, usaremos a seguir no
sentido de matéria que pode ser reconhecida somente com o auxílio da
“mecânica”.)
A descoberta da
matéria microscópica está estritamente ligada à construção de
modelos no estágio substancialístico. Um novo fenômeno foi
descoberto, e também a sua lei empírica. Mas, quando se tentou
interpretá-lo construindo um modelo e aplicando a “mecânica” não foi
possível explicá-lo, sem a introdução de uma nova espécie de
matéria. Assim, foi construído um modelo com a nova matéria e a
mecânica já existente aplicada. O fenômeno foi então muito bem
explicado. Assim, tornou-se possível a existência dessa matéria.
Novamente outros fenômenos foram descobertos. Também foram bem
explicados, quando se construiu um modelo com a nova matéria e se
aplicou a “mecânica” já feita. Com a repetição de trabalhos
semelhantes, a existência dessa matéria invisível foi se tornando,
aos poucos, fora de dúvida. Além disso, à medida que se iam
explicando vários fenômenos novos com essa nova matéria, as
propriedades quantitativas da própria matéria foram sendo
conhecidas. Essa é a descoberta da matéria microscópica. Mostramos
esse processo na seguinte esquematização:

Exemplo 1-
Molécula de gases — É um fato bem
conhecido que os gases eram considerados um conjunto de pequenas
partículas invisíveis chamadas moléculas, devido aos vários
fenômenos de reação química de gases, como, por exemplo, que dois
volumes de hidrogênio e um de oxigênio, em condições normais,
produzem dois volumes de água.
Nessa época, já era conhecida a lei empírica em que existe a relação
pV = RT entre a pressão, o
volume e a temperatura dos gases. Então, usando essa matéria
microscópica, obtida no campo da reação química, foi considerado um
modelo em que o gás era um conjunto de um enorme número dessas
moléculas em movimentos desordenados, ao qual se aplicava a mecânica
de Newton. O resultado foi a própria lei empírica acima (Maxwell).
Por isso, a existência da matéria microscópica, chamada molécula,
ficou sendo ainda mais certa. Essa idéia de moléculas foi aplicada
também ao problema da evaporação do líquido e da tensão
superficial.
Seja 'd' o diâmetro aproximado da molécula e 'f' a força com que a
molécula está ligada ao líquido. Se 'm' for a massa da molécula, o
calor latente de evaporação 'L' (a energia necessária para evaporar
um grama de líquido) é dado por L = fd/m. Vamos considerar agora a
energia superficial.
O trabalho necessário para o deslocamento da molécula do interior do
líquido para a superfície é igual a fd, e o número de moléculas que
estão presentes em 10-4 m2 (1 cm2)
da lâmina superficial é rd/m,
onde r
é a densidade do líquido. Portanto, a energia necessária para criar
novamente 1 cm2 da superfície, isto é, a densidade
superficial de energia S (em J/m2), é expressa por S =
rfd2/m.
Conseqüentemente, obtemos, dessas duas, d = S/rL,
e assim podemos saber aproximadamente o diâmetro da molécula.
No caso da água, por exemplo, temos S = 10-1 J/m2
, L = 106 J/kg e r
= 103 kg/m3 na temperatura ambiente, e então d
= 10-10 m.
Dessa maneira, as propriedades quantitativas também foram se
tornando conhecidas e, pelas aplicações aos problemas de
viscosidade, difusão etc., foram sendo confirmadas.
Exemplo 2 -
Elétron — Com o desenvolvimento do
estudo do eletromagnetismo, foram descobertos em primeiro lugar os
raios catódicos, pela técnica da descarga elétrica no vácuo. No
início, os raios catódicos foram considerados uma espécie de luz,
mas, com a descoberta da sua deflexão no campo eletromagnético e,
depois, com o esclarecimento da relação entre o raio de deflexão e a
intensidade do campo eletromagnético, cogitou-se que eles seriam uma
corrente de partículas carregadas. Além disso, quando, pelo uso
desse modelo da corrente de partículas carregadas, o cálculo da
pressão que esses raios catódicos exerciam sobre outros corpos
concordou com os resultados experimentais, a existência dessa
matéria microscópica ficou confirmada e recebeu o nome de
elétron. Depois, pelas experiências de
Millikan e outros, as suas propriedades quantitativas foram sendo
esclarecidas. (Ver PPF - parte 1.)
Primeiros Passos da Ciência (Geral)
Primeiros Passos da Física (parte 1)
Primeiros Passos da Física (parte 2)
Primeiros Passos da Física (parte 3)
Primeiros Passos da Física (parte 4)
Primeiros Passos da Física Clássica (Parte 1)
Primeiros Passos da Física Clássica (Parte 2)
Primeiros Passos da Física Moderna
Primeiros Passos da Mecânica Quântica (Parte 1)
Primeiros Passos da Mecânica Quântica (Parte 2)
Primeiros Passos da Mecânica Quântica (Parte 3)
Métodos dos Passos da Física (Parte 1)
Métodos dos Passos da Física (Parte 2)
Métodos da Teoria da Relatividade (Parte 1)
Métodos
da Teoria da Relatividade (Parte 2) (em
preparo)
Métodos da Teoria da Relatividade (Parte 3) (em
preparo)
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