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Primeiros Passos da
Mecânica Quântica
(Parte 1)
leobarretos@uol.com.br
Nestes trabalhos (PPMQ
- partes 1 e 2), revendo a história da formação da
mecânica quântica como exemplo, examinaremos mais detalhadamente o
processo da evolução da física, exposto no trabalho anterior (PPFM).
É necessário observar, de início, que a transição de um estágio para
outro se faz de forma evolucionária, isto é, excetuando alguns
casos, no avanço normal de uma ciência, a passagem de um estágio
para outro não se faz repentinamente numa determinada época, mas o
progresso alterna-se com o
retrocesso; alcança-se um estágio,
volta-se novamente ao estágio anterior, e o vaivém repete-se de
acordo com as circunstâncias.
Radiação do
Corpo Negro
Entre o fim do século XIX e início do século XX, fenômenos de um
novo ramo, que viriam a ser o ponto de partida para o descobrimento
de uma nova mecânica, foram descobertos com a ajuda das mecânicas já
existentes, a radiação de cavidade, a
estrutura atômica e o
espectro óptico. Nesta
parte 1, veremos a radiação de
cavidade.
Pesquisa das
temperaturas dos altos-fornos
Em meados do século XIX, na Alemanha, que havia anexado ao seu
território os centros de produção de carvão localizados na fronteira
com a França, a indústria siderúrgica desenvolveu-se rapidamente.
Foram construídas muitas instalações modernas, e enormes esforços
foram feitos para produzir aço de melhor qualidade. O fator mais
importante na produção de aço de primeira qualidade é o controle
delicado da temperatura dos altos-fornos. Evidentemente, não se pode
usar termômetros comuns para a medição de temperaturas tão altas. A
fim de contornar esse problema, pesquisas foram feitas no sentido de
determinar as temperaturas usando as cores das
radiações térmicas, isto é, mais concretamente, foram
recolhidas as luzes provenientes dos fornos às diversas
temperaturas. Assim, analisando essas luzes pelos prismas e medindo
as intensidades de cada parte espectral, foram obtidas as curvas,
como as ilustradas abaixo.
Lei de
Stephan-Boltzmann
No ano de 1884, foi descoberta por Stephan (1835-1893) a lei
empírica

onde
f é
o fluxo total de radiação, isto
é, a energia de radiação que flui através da área unitária num tempo
unitário, e é representada pela área de baixo da curva, no gráfico
acima. s
é uma constante de proporcionalidade e T é a temperatura
absoluta da cavidade.
No mesmo ano, essa lei empírica foi explicada teoricamente por
Boltzmann, com o uso das “mecânicas” já existentes, isto é, a
termodinâmica e a teoria eletromagnética. Nessa época, já era
conhecida pela teoria eletromagnética que a luz, semelhantemente aos
gases comuns, exerce sobre as paredes a pressão --- p = u/3 ---
onde u é a densidade de energia
de radiação. Boltzmann imaginou então um dispositivo como o
esquematizado a seguir, que contém luz ao invés de gás, e tentou
aplicar os princípios da termodinâmica.
A variação da entropia do sistema é
dada por

Como uma das propriedades da radiação de
cavidade foi explicada assim facilmente pela teoria clássica, no
início considerou-se que a radiação de cavidade era também um
fenômeno do mesmo ramo.
Lei do
deslocamento de Wien
Encorajados pelo êxito de Boltzmann, muitos tentaram explicar não só
o fluxo total, mas também os espectros da cavidade, baseados na
teoria clássica. Em 1893, Wien (1864 -1928), considerando o
dispositivo igual ao sistema usado por Boltzmann (veja ilustração do
cilindro acima), calculou a variação da densidade de energia
luminosa --- uldl
--- entre os comprimentos de onda
l e
dl,
quando o pistão é deslocado com
velocidade constante.
Devido ao efeito Doppler, quando o
pistão refletor está em movimento, a luz de comprimento de onda
l
transforma-se em outra de comprimento de onda
l’
de modo que uldl
sofre um decréscimo devido à luz
refletida. Por outro lado, devido ao mesmo efeito Doppler, uma outra
luz de comprimento de onda l”
transforma-se em luz de comprimento de onda
l,
de modo que a energia sofre um acréscimo correspondente a essa
parte. Wien fez cálculos detalhados relativos a essa variação de
energia e chegou à relação,

onde V é o volume do cilindro. Resolvendo essa
equação diferencial parcial, obtém-se facilmente

onde
j
é uma função arbitrária.
Agora, introduzindo o resultado de Boltzmann, u = aT4, na
equação que representa a variação de entropia, temos

No caso da variação adiabática, dS = 0.
Temos então:
T3.V = C (constante).
Usando essa relação no resultado
anterior, obtemos

é uma nova função arbitrária.
A partir desse resultado, podemos
calcular o comprimento da onda de luz de intensidade máxima
lm.
Derivando a equação acima em relação a
l,
temos

Assumindo aqui que a raiz da equação
-5f(x) + xf'(x) = 0 seja b, temos a relação,
lmT
= b , que concorda muito bem com
a experiência, e é chamada lei do deslocamento
de Wien.
Lei de Paschen
Como o fenômeno parecia cada vez mais ser de um mesmo ramo, muitos
esforços foram feitos para explicar o espectro todo pela teoria
clássica. Porém, para se chegar a uma teoria correta de modelo, era
necessário passar pelo estágio fenomenológico. Nessas condições,
Paschen (1865-1947) apresentou uma lei
empírica, na qual, quando lT
< 0,1, o espectro seguia a fórmula

onde
a,
b
e C são constantes apropriadas. Devido à condição restritiva acima,
não podemos dizer que era uma teoria fenomenológica completa, mas,
de qualquer modo, um passo fora dado no avanço regular da ciência.
Teoria de
modelo de Wien
Como etapa seguinte, utilizando um modelo,
Wien tentou explicar a fórmula acima. Ele supôs que, se as
energias cinéticas das moléculas fossem iguais, estas emitiriam luz
de mesmo comprimento de onda, isto é,
l =
F(e),
onde e
é a energia cinética das moléculas. Resolvendo inversamente, temos a
relação e
= h(l).
De acordo com a teoria de Boltzmann, o
número de moléculas que tem a energia cinética
e
é proporcional a e-e/kT
. Portanto a intensidade da luz com comprimento de onda
l
deve ser também proporcional a e-h(l)/kT,
isto é,

Comparando com a fórmula geral obtida
anteriormente, temos

que é exatamente igual à fórmula
empírica de Paschen.
Essa teoria, portanto, é incompleta,
sendo válida somente para as regiões de comprimentos de onda
pequenos. Contudo, nota-se que, ao se aplicar a teoria clássica,
nenhuma condição foi imposta obrigando a validade da lei somente
para os comprimentos de onda curtos. A aplicação da teoria seguiu os
caminhos perfeitamente lógicos. Se ela estivesse incorreta, deveria
haver uma discordância com a experiência também nos domínios das
ondas curtas. A essa altura, começou a pairar a dúvida de que,
talvez, a radiação da cavidade fosse
fenômeno de um novo ramo.
Fórmula de
Rayleigh-Jeans
Entretanto, no início, não se acreditou que o fenômeno fosse de um
novo ramo. Rayleigh (1842-1919) e
Jeans (1877-1946), considerando que a
hipótese de Wien não era correta e que,
na pesquisa da intensidade da luz, não era necessário conhecer o
número de moléculas emissoras, e que o cálculo deveria ser feito
puramente pela teoria eletromagnética, realizaram o seguinte
cálculo: supõe-se que a luz esteja presa numa cavidade de forma
cúbica de lado l. Nesse caso, de modo análogo ao do som, são
permitidas somente determinadas espécies de comprimento de onda,
devido ao efeito de ressonância. Podemos calcular, pois, facilmente,
quantas ondas permitidas existem entre os comprimentos de onda
l
e l
+ dl,
semelhantemente ao caso das ondas de som, e obtemos

Essa expressão difere da expressão para
o som por um fator 2, mas isso é devido à existência de duas
polarizações no caso da luz.
Em seguida, introduz-se a hipótese de que a energia média da onda da
luz seria dada por --- el
=kT ---.
Em geral, a energia total de um
oscilador satisfaz a relação seguinte:
(energia total) = (energia potencial) +
(energia cinética) = 2(energia cinética)média sobre o tempo.
Segundo a lei de
eqüipartição de energia da mecânica estatística, a energia
cinética média por um grau de liberdade é kT/2. Introduzindo na
equação acima, encontramos que a energia média do oscilador
unidimensional é kT. Baseados nessa analogia, eles chegaram à
hipótese acima. A partir desses resultados, a densidade de energia
da luz pode ser facilmente calculada:

Essa fórmula é chamada
lei de Rayleigh-Jeans. Ao contrário da
lei de Wien, está em excelente
concordância experimental com as regiões de comprimentos de onda
longas. Também, nesses cálculos, nenhuma condição restritiva foi
imposta. Mesmo assim, não coincidia com os resultados experimentais.
Estava, pois, confirmado que a radiação da
cavidade era um fenômeno de um novo ramo.
====>
segue em
PPMQ
- parte 2 com "Fórmula de
interpolação de Planck" etc. e "Espectro
atômico"
Para navegar para os
trabalhos anteriores:
Primeiros Passos da Ciência (Geral)
Primeiros Passos da Física (parte 1)
Primeiros Passos da Física (parte 2)
Primeiros Passos da Física (parte 3)
Primeiros Passos da Física (parte 4)
Primeiros Passos da Física Clássica (parte 1)
Primeiros Passos da Física Clássica (parte 2)
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