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Métodos dos Passos da
Física
(Parte
2)
leobarretos@uol.com.br
Relação entre
Experiência, Teoria e Matemática
Previsão
teórica dos resultados experimentais
A relação entre a experiência, a teoria e a matemática
está estritamente ligada ao estágio em que foi aplicado o novo
método de pesquisa explicado no trabalho precedente (MPF - parte
1).
Na Idade Média, os pensadores, os
filósofos e os sacerdotes construíam teorias arbitrárias, com base
em puras imaginações. Elas não exprimiam a realidade, “isto é
assim”, mas simplesmente aquilo que desejavam, “gostaria que fosse
assim”. Por conseguinte, estranhas teorias surgiram, como a teoria
geocêntrica, na qual a Terra era o centro do universo, com o Sol
orbitando ao seu redor. Depois da Renascença,
o perigo desses raciocínios arbitrários foi reconhecido e mudada a
forma de pensar: primeiro se observa a
realidade e depois se estrutura a
teoria.
Durante um certo período, como uma reação ao anterior, as teorias
que precediam as experiências eram estritamente evitadas. Desse modo
trilhou-se o caminho correto para o desenvolvimento da física, isto
é, primeiro a experiência e depois a estruturação da
teoria correspondente. Nessa época, as previsões teóricas eram
consideradas um entrave para o progresso das ciências e, portanto, o
método contemporâneo de pesquisa explicado neste trabalho anterior
não era muito usado, sendo a indução a
mais procurada. Mesmo quando usado, era apenas para formar a teoria
de modelo, quando surgiam algumas teorias fenomenológicas.
Porém, uma vez experimentado esse
método, a eficiência da pesquisa aumentou extraordinariamente e a
física teórica começou a se desenvolver mais velozmente que a física
experimental. (Esta
última recebe uma limitação muito maior dos fatores econômicos e
técnicos e, por isso, o seu progresso acelerado só pode ser esperado
em condições especiais, como, por exemplo, competições entre grandes
potências.)
Assim, quando as diversas possibilidades consideradas por analogia
eram selecionadas pela simetria, na maioria dos casos, restavam
somente algumas teorias prováveis e, em alguns casos, uma única.
Daí, pela dedução, podiam-se prever os fenômenos que ocorreriam.
Isso é a previsão teórica dos fatos experimentais. Esse tipo de
pesquisa era aplicado no estágio substancialístico, mas, aos poucos,
foi sendo aplicado também no estágio essencial, e
novas mecânicas começaram a nascer sem
passar pelos estágios fenomenológico e substancialístico.
Exemplo - 1
- Ao ser observada uma pequena discrepância entre os valores
teóricos e os observados na órbita de Urano, construiu-se, no
começo, uma teoria fenomenológica. Pela semelhança dessa
discrepância com a da órbita de Júpiter, causada pela atração
gravitacional de Saturno, a existência de Netuno foi considerada.
Realmente, mais tarde, esse planeta foi observado no local previsto.
Esse é um exemplo da antecipação da teoria à experiência, no estágio
substancialístico, e da conseqüente previsão do fato experimental.
Exemplo - 2
- Maxwell (1831-1879) reescreveu na
forma diferencial as leis de Coulomb para a interação elétrica, para
a interação magnética, as leis de Faraday, de Ampère, e da
conservação da carga-corrente, obtendo as seguintes equações:

que era consistente com as demais.
Dessa nova equação pôde-se prever a existência de ondas
eletromagnéticas. A previsão foi feita em 1865. Somente em 1 877, a
sua existência foi comprovada experimentalmente por
Hertz (1857-1897). Esse é um exemplo da
antecipação da teoria à experiência no estágio essencial.
Citamos acima dois exemplos antigos, mas
essa antecipação da teoria à experiência parece atingir o seu máximo
com os trabalhos de Einstein. No
trabalho, a seguir, acompanhando a história dos Primeiros Passos da
Teoria da Relatividade Especial (PPTRE),
veremos mais detalhadamente esse aspecto. Devido ao enorme sucesso
alcançado pela introdução do novo método, por volta de 1925, as
teorias substancialísticas e essenciais às vezes ficaram completadas
por analogia e outras teorias antes do completamento do estágio
fenomenológico. Abaixo, alguns exemplos.
Exemplo - 3
- A descoberta
do pósitron - Em 1928,
Dirac uniu a equação de Schrödinger
para os elétrons com a teoria da relatividade de Einstein. A equação
obtida admitia duas soluções: uma expressava corretamente o elétron
usualmente conhecido e a outra significava a existência de uma
partícula de propriedades completamente opostas às dos elétrons. A
expressão “completamente opostas” significava que essa partícula
acelerava quando deveria parar, seguia para a esquerda quando
deveria ir para a direita etc. Por isso, inicialmente, esse elétron
recebeu o apelido de donkey eletron. Mais tarde, em 1930,
imaginou-se que fosse uma partícula carregada positivamente e foi
prevista a existência do pósitron. Em
1932, o pósitron foi confirmado experimentalmente por
Anderson.
Exemplo - 4
- Hipótese do
neutrino - No caso do
decaimento b,
a soma das energias das partículas observadas não satisfazia a lei
da conservação da energia. Em 1932, a fim de resolver essa
dificuldade, Pauli introduziu o
conceito de neutrino, uma partícula que
não era observada diretamente. Desde então a teoria do decaimento
b
iniciou um grande desenvolvimento. A observação direta dessa
partícula foi feita só em 1955 pela experiência de
Alvarez e outros.
Exemplo - 5
- Teoria do
méson - A previsão da
existência do méson, feita por Yukawa
em 1935 (assunto já exposto anteriormente), é um bom exemplo da
antecipação da teoria à experiência pelo uso desse método analógico.
Em 1947, foi confirmada experimentalmente por
Powell, Lattes e outros.
Abuso do novo
método de pesquisa
Uma palavra de advertência
deve ser dada relativamente ao abuso
desse método moderno ou método analógico.
Quando o seu uso se restringe ao estágio substancial,
o perigo praticamente inexiste.
Entretanto, se for usado no estágio
essencial, embora a vantagem de um
eventual sucesso seja enorme, a probabilidade de um perigo também o
será. Se for usado no estágio de refinamento tentando-se construir
uma 'mecânica' cujos estágios fenomenológico, substancialístico e
essencial ainda não estejam completos, será extremamente perigoso e
tornar-se-á quase uma ciência da Idade Média.
O uso do
método analógico no estágio de refinamento significa o uso da
analogia nos domínios da matemática e não no domínio dos conceitos
físicos.
A relação entre a
física teórica e a matemática
encontra-se bem definida desde a Renascença e bem resumida nas
seguintes palavras de Newton:
“A matemática não é
física. Contudo é a única língua da física”.
Isso quer dizer que, ao se construir uma nova teoria, deve-se usar
raciocínio físico baseado nos fenômenos e matérias. Mas, quando for
apresentada a conclusão, deve ser expressa pelos recursos da
matemática, para evitar ambigüidades. Essa relação entre ambas foi
mantida durante muito tempo. Alguns exemplos serão dados a seguir.
Exemplo - 1
- Antes de Schrödinger apresentar a sua equação, já havia
raciocínios como o de De Broglie sobre a dualidade do elétron.
Exemplo - 2
- Quando Heisenberg construiu a mecânica das matrizes, ele próprio
não conhecia a matemática das matrizes.
Recentemente, contudo, essa relação
tradicional entre a física e a matemática às vezes tem sido
quebrada. Devido, talvez, aos sucessos do método analógico, têm
surgido tentativas de fazer-se analogia matemática no estágio de
refinamento e obter diretamente uma nova mecânica. Esquematizando,
obtemos:
Os exemplos dessa aplicação perigosa
são vistos com freqüência na história da pesquisa da teoria da
relatividade generalizada, porém discutiremos isso em detalhes no
próximo trabalho. Somente citaremos aqui um exemplo observado na
recente pesquisa da física das partículas elementares.
Exemplo - 3
- Existem várias teorias fenomenológicas para explicar o espectro de
massa de diversas partículas. Para explicar essas teorias, foi
utilizado um método matemático extremamente refinado, a teoria do
grupo SU( 3). Porém, como as próprias teorias fenomenológicas
não são ainda precisas em si, foi impossível a explicação do
espectro de massa a partir de SU(3). Assim, muitos tentaram
encontrar a explicação com o grupo SU(6) ou com matemáticas
ainda mais complicadas. Isso é apenas uma extensão de conceito
matemático nos casos de muitos imitadores, excetuando evidentemente
os poucos pioneiros.
Entretanto é claro que isso não
significa que tais trabalhos sejam completamente inúteis. Enquanto
se trabalha tendo em mente que
essa é apenas uma possibilidade, a sua utilidade é reconhecida.
Todavia, algumas vezes, surge o fanatismo e começa-se a acreditar
que aquela é a única possibilidade. Nesse caso, a física se
transforma em matemática e, nesse ponto, a utilização do método
contemporâneo exige o devido cuidado.
Para navegar pela
série PP:
Primeiros Passos da Ciência (Geral)
Primeiros Passos da Física (parte 1)
Primeiros Passos da Física (parte 2)
Primeiros Passos da Física (parte 3)
Primeiros Passos da Física (parte 4)
Primeiros Passos da Física Clássica (parte 1)
Primeiros Passos da Física Clássica (parte 2)
Primeiros Passos da Física Moderna
Primeiros Passos da Mecânica Quântica (parte 1)
Primeiros Passos da Mecânica Quântica (parte 2)
Primeiros Passos da Mecânica Quântica (parte 3)
Métodos dos Passos da Física (parte 1)
Métodos dos Passos da Física (parte 2)
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