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Como
'nasce' uma grandeza física
Densidade e peso específico
Prof. Luiz Ferraz
Netto
leobarretos@uol.com.br
Introdução
Se compararmos, por exemplo, chumbo e
madeira, qualquer um dirá imediatamente, que o chumbo é
mais “pesado” que a madeira. Esta forma de expressar-se
revela-se fruto de uma análise bastante imprecisa, e
pode até ser falsa; basta observar que uma pequena
esfera de chumbo pode, certamente, ser mais leve do que
um pedaço de madeira suficientemente grande. Como vemos,
as expressões do quotidiano “mais leve” e “mais pesado”
não são suficientes para descrever com exatidão uma
propriedade da matéria.
Na Física temos que ter sempre em mente a precisão de
nossa forma de expressão, e dar um significado bem
específico aos termos tirados da linguagem diária. Esse
artigo poderia abranger boa quantidade de exemplos, tais
como, "trabalho" e "energia", que no cotidiano têm os
significados mais inusitados e todavia frontalmente
afastados de seus significados científicos. Vamos, de
momento, apenas 'ver' o nascimento das grandezas 'massa
específica' (ou densidade absoluta) e 'peso específico'.
Na comparação de suas
substâncias o volume tem, evidentemente, importância,
pois sabemos que: com volumes iguais, um corpo de chumbo
é mais pesado que um corpo de madeira. Se pelo
contrário, ambos forem, no mesmo local, iguais em
peso, então seus volumes serão diferentes. Duas esferas
de mesmo peso, uma de chumbo outra de madeira, a de
madeira terá volume maior (cerca de 12 vezes maior em
volume; cerca de 3 vezes maior em raio); mas, como
peso e massa são proporcionais um ao outro, então as
duas esferas têm a mesma massa.
Um corpo de chumbo com a
mesma massa de um corpo de madeira ocupará, portanto, um
espaço (volume) menor. Por este motivo dizemos que o
chumbo é mais “denso” que a madeira.
A diferenciação entre as substâncias pode ser
determinada quando comparamos primeiro corpos com massas
iguais, e a seguir corpos com volumes iguais.
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Comparando corpos com massas iguais e
corpos com volumes iguais, de diferentes
substancias. |
Como corpos de uma mesma
substância podem ter tamanhos diversos, pesos diversos e
massas diversas, temos que encontrar uma grandeza que
seja independente da massa, do peso e do volume
atual dos corpos. Esta grandeza deve ser característica
da substância da qual
o corpo é feito, e não do corpo em si.
Ela deve caracterizar uma
propriedade da substância e não do corpo.
Vamos comparar a massa, ou o
peso, de corpos de mesmo volume e de substâncias
diferentes. Seja o volume 1 cm3. Podemos
dizer então: se o peso de 1 cm3 de uma
substância é maior que o peso correspondente de uma
segunda substância, então a primeira substância tem um
peso específico maior. Se a massa de 1 cm3
de uma substância é maior que a massa correspondente de
uma segunda substância, então a primeira substância é
mais densa.
Continua ainda de pé a
pergunta se podemos abranger quantitativamente, isto é,
se podemos tornar mensuráveis, estas características
através da definição de uma grandeza física adequada.
Como estas grandezas devem
ser independentes das grandezas características de um
corpo (volume, massa, peso) e representativas apenas da
substância, as grandezas representativas do corpo devem
ser eliminadas de alguma forma. Para isto necessitamos
da razão entre volume e massa, ou entre volume e
peso.
Experimento: Fragmentamos em pedaços três
tipos diferentes de pedras e os distribuímos entre os
alunos, de forma que cada grupo de trabalho receba
diversos pedaços.
Com a ajuda de um recipiente
de transbordo é determinado o volume, e com um jogo de
'pesos' e balança, é determinada a massa.
É claro que deve ser observado a que espécie de pedra
pertence cada medida. As medidas de todos os grupos de
trabalho são transportados para um sistema de
coordenadas, escolhendo-se para a massa o eixo vertical.
e para o volume o eixo horizontal.
Os pontos correspondentes a cada conjunto de medidas
ordenam-se de uma forma determinada. Eles podem ser
ligados por linhas retas. Todas retas passam pelo ponto
zero. Os pontos correspondentes às medidas de uma mesma
espécie de pedra estão em uma mesma reta. Portanto, o
conjunto de pontos da reta nos informa que todos os
pedaços de pedra são igualmente 'densos'.
Pesamos diferentes
quantidades de álcool, e determinamos cada vez o volume.
O mesmo fazemos com ferro. Transportamos as medidas para
um gráfico. Em todos os casos temos gráfico de uma reta.
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Massa e volume, ou peso e volume são
proporcionais um ao outro, respectivamente. |
Isto significa que:
Para
todos os corpos de uma mesma substância, os
quocientes de massa m e volume V, ou
peso P e volume V, são constantes:
m/V = constante =
d
ou P/V = constante =
g
.
No nosso caso, para o álcool
d
= 0,79 g/cm3 e
g
= 0,79 gf/cm3; para o ferro
d =
7,9 g/cm3 e
g
= 7,9 gf/cm3.
d
e g
são numericamente iguais, já que, praticamente, a
massa e o peso coincidem numericamente (num local onde a
aceleração da gravidade é normal gn = 9,806
65 m.s-2).
Estes quocientes têm para
cada substância um valor fixo. Para substâncias
diferentes estes valores são naturalmente diferentes. As
grandezas d
e g
são portanto características para cada substância e
indicam uma propriedade do material.
Chamamos de densidade
absoluta (ou massa específica) o quociente
entre massa e volume:
d
= m/V .
Ao quociente entre peso e volume chamamos de peso
específico: g
= P/V .
Como nova grandeza física a
massa específica tem
por unidade de medida, no
SI, o kg/m3 (lê-se: quilograma por metro
cúbico), cujo submúltiplo de uso comum é o g/cm3
(lê-se: grama por centímetro cúbico), o peso
específico tem, no mesmo Sistema, por unidade de
medida o N/m3 (lê-se: newton por metro
cúbico); no Sistema Técnico a unidade é o kgf/m3
(lê-se: quilograma-força por metro cúbico) e como
submúltiplo usual o gf/cm3 (lê-se:
grama-força por centímetro cúbico).
Quando aquecidos, via de
regra, os corpos se dilatam; seus volumes aumentam.
O peso específico e a densidade da substância da qual
eles se compõem, tornam-se menores quando aquecida.
Este conhecimento obtido da
observação coincide com a definição de densidade
d.
Como com o aquecimento a massa (clássica) não se altera,
e pelo fato do volume estar no denominador, um aumento
de volume implica em diminuição da densidade; a redução
do volume implica em aumento da densidade. O mesmo
podemos dizer com relação ao peso específico.
Diferente de grandezas
fundamentais, como a massa ou o comprimento, designamos
as grandezas d
e g
como grandezas derivadas, pois são definidas
através de outras grandezas.
Das definições da densidade
e peso especifico resultam equações que permitem
calcular uma grandeza quando duas outras são conhecidas.
Especialmente importante aqui é o peso
específico, pois que com ele
podemos calcular o peso de um corpo de uma substância
conhecida, quando o volume é dado.
Valem, também, as seguintes
equações:
P =
g.V
e P = m.g , donde: m.g =
g.V
ou m/V = g/g
, e como d
= m/V vem: d
= g/g
ou g
= d.g.
Para o
álcool g
= 0,79 gf/cm3. Qual o peso de 50 litros de
álcool?
Vamos calcular:
P =
g.V
= 0,79 (gf/cm3). 50 000 (cm3) = 39
500 gf = 39,5 kgf
Para se determinar a
densidade de uma determinada substância, é necessária a
medição da massa e do volume da substância. Através do
quociente obtemos a densidade. Da mesma forma procede-se
na determinação do peso específico.
Como já sabemos que os gases
ocupam um espaço como os corpos sólidos e líquidos,
poderíamos determinar também, por exemplo, a densidade e
o peso específico do ar. Já ouvimos dizer que na
Antiguidade era defendida a tese, especialmente por
Aristóteles, de que o ar não teria peso e que se emanava
da Terra. É surpreendente que esta teoria tenha chegado
até a Idade Média apesar do desacordo de alguns
filósofos. Mas somente Otto von
Guericke (1602-1686), burgomestre de
Magdeburgo que ficou famoso devido às suas experiências
com a bomba de ar, descreveu em seu livro surgido em 1
672, “Novas Experiências de Magdeburgo sobre o Espaço
Vazio”, um processo para a determinação do peso do ar.
Com isto as teorias de Aristóteles ficaram
definitivamente ultrapassadas.
Iremos determinar a
densidade do ar da seguinte maneira: um balão de
vidro com torneira, é colocado com o ar contido em uma
balança de travessão. Seja m1 a massa
obtida. Bombeamos agora, com uma bomba de bicicleta, um
pouco de ar dentro do balão e pesamos novamente. A
medida é agora a massa m2, um pouco maior. A
diferença m2 - m1 , nos dá
a massa do ar bombeado.
Agora teremos apenas que determinar o volume desta
quantidade de ar.
Para se determinar o volume
da quantidade de ar adicional, recolhemos o ar em um
cilindro de medição, o qual é emborcado cheio d’água em
uma cuba de vidro com água. Seja V o volume. A densidade
d
é então: d
= (m2 - m1)/V. Encontraremos o
resultado d
= 1,3 mg/cm3.
Os gases dilatam-se muito
quando aquecidos. Por isso determinamos sua densidade e
peso específico a uma temperatura de 0 oC.
Todos os dados valem portanto para condições bastante
específicas (0 oC, pressão normal). Em lugar
da bomba de ar podemos também usar uma seringa
calibrada. O volume do ar bombeado pode ser medido pelo
deslocamento do êmbolo. No que se deve prestar atenção?
Nossas experiências
mostraram que a densidade e o peso específico de um
corpo praticamente não se diferenciam
numericamente. A rigor isto somente vale num local
padrão, local onde a aceleração da gravidade é normal; gn
= 9,806 65 m/s2. Em toda a superfície
terrestre, no entanto, o peso de um corpo de massa 1 g
varia, no máximo em
0,3% de 1 gf. Nas proximidades do local padrão a
diferença é naturalmente menor. Na maior parte dos casos
práticos, portanto, os valores numéricos da densidade
absoluta podem ser igualados aos do peso específico.
isto se modifica em muito quando nos afastamos da
superfície terrestre.
Importante: Massa
específica e peso
específico são diferentes da mesma forma que massa e
peso. A densidade de uma substância tem o mesmo valor em
todos os lugares, enquanto que o peso específico pode
ser até zero.
A seguinte tabela dá as
densidade absoluta e os pesos específicos de algumas
substâncias:
|
Densidades
ou pesos específicos
g/cm3
gf/cm3 |
|
AI |
2,7 |
Vidro |
2,4 - 2,7 |
|
Pb |
11,35 |
Mármore |
2,5 - 2,8 |
|
Fe |
7,86 |
Pinheiro |
0,4 - 0,8 |
|
Au |
19,3 |
Faia |
0,6 - 0,9 |
|
Cu |
8,93 |
Cortiça |
0,2 - 0,4 |
|
Mg |
1,74 |
Água |
0,9982 |
|
Ag |
10,5 |
Petróleo |
0,85 |
|
Pt |
21,45 |
Mercúrio |
13,55 |
|
Zn |
7,13 |
Ar |
1,29 . 10-3 |
|
Latão |
8,3 |
Oxigênio |
1,43 . 10-3 |
A densidade e o peso
específico do álcool
são d
= 0,79 g/cm3 e
g
= 0,79 gf/cm3.
Se V = 1 cm3 , então obteremos para a
massa e o peso de um centímetro cúbico de
álcool m = 0,79 g e P
= 0,79 gf.
O valor numérico do peso específico nos dá
portanto quantos gramas-força 1 centímetro cúbico pesa.
Da mesma forma o valor numérico da densidade nos
dá quantos gramas de uma substância estão contidas em um
centímetro cúbico.
O peso de um
centímetro cúbico de uma substância e seu peso
específico são por isso numericamente iguais, mas
são grandezas físicas diferentes.
O mesmo vale para a massa
e a densidade absoluta de um centímetro cúbico de
uma substância.
Nota: Em nosso terceiro
parágrafo desse trabalho, onde comparamos volumes e
raios de esferas de chumbo e madeira de mesmo peso
(portanto de mesma massa) indicamos que a de madeira
terá volume cerca de 9 vezes maior e raio cerca de 3
vezes maior. Vamos melhorar esse confronto considerando
os seguintes dados para suas massas específicas: 11,35
g/cm3 para o chumbo e 0,8 g/cm3
para a madeira.
Sejam r e R os raios das
esferas maciças de chumbo e madeira, respectivamente;
seus volumes serão: (4/3)pr3
e (4/3)pR3
e suas massas específicas serão
dPb=
11,35 = m/(4/3)pr3
e dm=
0,8 = m/(4/3)pR3
.
Como suas massas são iguais,
escrevemos: m = 11,35.(4/3)pR3
= 0,8.(4/3)pR3
.
Então, para comparar os volumes e raios fazemos:
11,35/0,8 = [(4/3)pR3]/[(4/3)pr3]
=~ 14,2
[(4/3)pR3]/[(4/3)pr3]
= R3/r3 = ~ 14,2
R/r = 14,21/3 =
2,42
A esfera de madeira terá
volume 14,2 vezes maior que a de chumbo e seu raio será
2,42 vezes maior.
***
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