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Ímãs e
pára-raios
(Parte1)
Prof. Luiz Ferraz Netto
leobarretos@uol.com.br
O 'compasso'
Pela metade do século dezoito, a máquina de calor
tinha-se estabelecido como elemento essencial do domínio
do homem sobre o seu ambiente. De fato, foi o sucesso da
máquina a vapor que atraiu a atenção de homens como
Carnot,
Watt e
Thompson para o estudo do
calor. A energia química contida nos combustíveis
fósseis ou orgânicos tinha suplementado a força dos
cavalos e da água corrente muito antes que qualquer
progresso real fosse realizado em nossos conhecimentos
sobre a termodinâmica. No campo da eletricidade e do
magnetismo, as coisas aconteceram de modo muito
diferente, no sentido de que receberam pouco
encorajamento ou estímulo da tecnologia existente.
Isto não significa que o homem nada sabia sobre a
eletricidade ou o magnetismo, antes dos tempos modernos.
Um óxido de ferro magnético pode ser encontrado em
muitas partes do mundo, e a literatura grega contém
grande quantidade de referências à magnetita. Os
antigos sabiam que ela pode atrair pedaços de ferro, e
que o ferro comum pode ser magnetizado, quando é
atritado contra um pedaço de magnetita. Acredita-se que
os chineses sabiam, além disso, que um ímã aponta para o
norte e para o sul, quando pode girar livremente. No
século doze, esta notável propriedade tornou-se
conhecida na Europa, e o compasso tornou-se um
novo e importante instrumento utilizado na navegação. Os
gregos estavam também familiarizados com uma curiosa
propriedade do âmbar, resina natural de origem vegetal.
Quando o âmbar é friccionado, atrai pequeninos pedaços
de papel e poeira. Entretanto, além dessas observações
elementares e 'poderes místicos', nada se conhecia sobre
a eletricidade e o magnetismo, até que passaram a ser
objeto de estudo científico.
A primeira investigação experimental sobre o magnetismo
foi relatada por Picard
Peregrinus em 1269. Peregrinus utilizou uma
magnetita esférica, marcando nela dois pólos onde sua
atração magnética parecia especialmente forte. Verificou
também a tendência de um pólo para procurar a direção
norte, enquanto o outro procura a direção sul. Descobriu
que pólos iguais se repelem, e que pólos diferentes se
atraem; descobriu ainda que uma magnetita pode ser
partida em dois pedaços, formando dois ímãs em lugar de
um. Peregrinus verificou igualmente a semelhança
magnética entre uma magnetita esférica e a terra. Ambas
influenciavam uma pequena agulha de bússola, de maneira
muito semelhante. Não obstante, os escritores dos
séculos seguintes continuaram a supor que a agulha da
bússola aponta para a Estrela do Norte, a Grande Ursa,
ou para alguma misteriosa montanha localizada no norte.
Formas primitivas de compasso, usualmente, nada mais
eram que um pequeno pedaço de ferro magnetizado
flutuando sobre madeira e colocado sobre um recipiente
de madeira cheio com água. 'Compasso' é o nome dessa
estrutura toda que contém como elemento básico o
magneto. Mais tarde apareceram a agulha com pino e o
cartão do compasso --- um disco dividido nos trinta e
dois "pontos" iguais do compasso. As bússolas eram
montadas de tal maneira que virtualmente não eram
afetadas pelos movimentos de um navio.
Além de sua utilidade óbvia como instrumento capaz de
indicar o norte, o compasso tinha outra característica
que levantou o interesse dos navegadores. Durante o
século quinze, descobriu-se que a agulha do compasso não
aponta precisamente para o pólo geográfico verdadeiro,
sendo inclinada segundo um pequeno ângulo, em relação à
direção norte-sul verdadeira. Este ângulo varia de lugar
para lugar, sendo ocasionalmente igual a zero, como
observou Colombo em sua viagem de 1492. 0 desvio angular
da agulha do compasso em relação ao norte verdadeiro foi
chamado de "desvio magnético", ou variação do compasso".
A 'variação do compasso' foi medida em várias partes do
mundo durante grande parte do século dezesseis. Essas
medidas naturalmente tiveram um motivo prático. Um
navegador desejava saber e compensar a variação que
existisse em qualquer lugar que estivesse. Mas havia
também uma esperança de que a variação magnética pudesse
fornecer uma solução para o inquietante problema da
determinação da longitude no mar.
Para ilustrar, imaginemos uma linha (chamada
"isogônica") traçada em um mapa e que passe por todos os
pontos que tenham um 'desvio magnético' de 5o
oeste, por exemplo. Imaginemos agora outras isogônicas
traçadas para muitos outros desvios
magnéticos. Elas formam uma
rede de linhas que interceptam os paralelos de latitude.
Com esta informação, um navegador podia descobrir sua
posição no mar, por meio da medida de sua latitude e do
desvio magnético. Sua posição seria a interseção das
duas linhas. Mas logo se observou que a desvio magnético
varia ligeiramente de ano para ano, de maneira que o
sistema não tinha valor permanente.
Em 1544, foi descoberta por
Georg Hartmann, clérigo alemão, outra
propriedade inesperada da agulha magnética. Ela foi
redescoberta independentemente por
Robert Norman,
fabricante inglês de bússolas, em 1576. Esses dois
homens descobriram que se uma agulha de compasso for
suspensa por seu centro de gravidade, de tal maneira que
fique livre para movimentar-se tanto vertical quanto
horizontalmente, ela não ficará na posição horizontal,
quando estiver em repouso, mas inclinar-se-á para baixo,
em geral, em um ângulo chamado "mergulho" ou
"inclinação", que também varia de lugar para lugar. 0
livro de Norman, The Newe Attractive (1581), continha a
primeira sugestão de que o lugar para onde aponta o
compasso está realmente no interior da terra.
Em 1608, Henry Hudson
descobriu que a agulha do compasso ficava quase na
vertical, em um lugar situado no paralelo 75 de latitude
norte. Mas, como a variação do compasso, o mergulho
magnético (inclinação magnética) também varia de ano
para ano, bem como de lugar para lugar. Nenhum dos dois
podia prover uma solução de confiança para o problema da
determinação da longitude.
A Terrella de Gilbert; um
Modelo da Terra
0 estudo moderno do magnetismo e da
eletricidade começou com o trabalho de
William Gilbert (1540
-1603). Gilbert, o maior cientista experimental inglês
de seu tempo, era médico praticante em Londres. Realizou
grande parte de seu importante trabalho sobre
eletricidade e magnetismo enquanto era médico da Rainha
Elizabeth. Seus resultados foram registrados em um
grande livro, De magnete (Sobre o Ímã), publicado
em 1600.
0
livro começa refutando as velhas superstições sobre
os alegados poderes curativos da magnetita e, ainda
hoje, há quem acredite nesses 'poderes'.
Gilbert mostra então como localizar os pólos de uma
possante magnetita esférica, utilizando uma agulha
minúscula de bússola suspensa sobre um eixo. A agulha do
compasso é usada como um indicador sensível para fazer
um mapa das propriedades magnéticas da magnetita.
Gilbert colocou-a sobre a superfície da magnetita e
marcou sua direção com uma linha de
giz, que foi prolongada para
formar um grande círculo sobre a esfera. Ela foi então
deslocada, sendo traçado outro grande círculo, e assim
sucessivamente. Todos os círculos passavam por dois
pontos opostos da pedra --- os dois pólos magnéticos,
A e B --- como se ilustra:
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A Terrella de Gilbert |
Quando a linha foi colocada em qualquer ponto
eqüidistante de A e B --- sobre o equador
magnético --- verificou-se que a agulha permanecia
paralela à superfície da magnetita, como em C. 0
mergulho magnético no equador era sempre igual a zero.
Entretanto, quando colocada nos pólos, a agulha ficava
sempre perpendicular à superfície. Nos pontos
intermediários, a inclinação da agulha em relação à
superfície variava com sua distância dos pólos, como nos
pontos E, F, G e H. Ele
então traçou círculos paralelos ao equador,
correspondendo aos lugares de igual inclinação da
agulha. 0 comportamento magnético de sua magnetita
globular levou Gilbert a conceber a Terra como um imenso
ímã esférico. Sua magnetita experimental era meramente
uma miniatura da Terra, pelo que ele a chamou de
terrella.
Gilbert investigou também o efeito de dividir um ímã em
dois. Começou com uma magnetita alongada, a qual tinha
os pólos norte e sul conforme ilustramos:
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Cortando-se uma peça magnetizada,
produz-se dois ímãs |
Cortou-a então em dois pedaços aproximadamente iguais,
ficando com dois ímãs separados. Os pólos originais
permaneceram sem alteração, mas um novo pólo apareceu em
cada uma das faces recentemente cortadas.
Foi também salientado em De Magnete que, embora a
Terra faça um ímã girar (ação orientadora), ela não o
desloca como um todo. Se um ímã estiver flutuando sobre
um pedaço de madeira, ele gira meramente para se alinhar
com a direção norte-sul. Não há tendência para o ímã
deslocar-se seja para o norte ou para o sul, sob a
influência do magnetismo terrestre.
Atração Elétrica
Os fenômenos elétricos eram de menor valor
prático que os efeitos magnéticos, e pouco se aprendeu
sobre eles, antes de Gilbert. Sabia-se que certos peixes
produziam choques, o raio era um assunto familiar e era
comum o fato de que o âmbar, quando friccionado, atraía
objetos leves, mas não havia uma compreensão geral de
que estas observações eram relacionadas entre si. Foi
Gilbert quem descobriu que o poder de atração do âmbar
era partilhado por muitas outras substâncias. Suas
descobertas estabeleceram a ciência da eletricidade
resultante da fricção (eletrização por atrito).
Ele fabricou um eletroscópio elementar e
utilizou-o para detectar a presença de cargas elétricas.
Seu instrumento era meramente uma agulha metálica
equilibrada para girar com facilidade em torno de seu
centro, que era apoiado em um suporte em ponto.
Friccionava a substância em estudo, levando-a para junto
de uma das extremidades da agulha. Se a fricção tivesse
produzido uma carga elétrica, a agulha seria atraída e
giraria em direção ao corpo eletricamente carregado.
Assim, ele descobriu que muitas substâncias além do
âmbar produzem uma deflexão do eletroscópio, inclusive
gemas, vidro, enxofre, cristais e resinas. Chamou-os "elétricos"
porque podiam desenvolver uma atração elétrica. Os
metais eram uma exceção, e ele os chamou de "não
elétricos", porque não pôde eletrificá-los pela fricção.
Hoje, sabemos que os metais devem ter transferido para
as mãos de Gilbert, enquanto friccionados, sua carga
elétrica resultante da fricção. Não ocorreu a ele isolar
seus
metais, para impedir a fuga da eletricidade para a
terra. Por tal razão, deixou de descobrir a repulsão
elétrica.
Repulsão Elétrica
A única descoberta significativa referente à
eletricidade ocorrida durante o século que se seguiu a
Gilbert foi a da repulsão elétrica. Ela foi
descrita claramente pela primeira vez por
Otto von Guericke, o
inventor da bomba de ar.
Pode-se demonstrar facilmente a repulsão elétrica, em
nossa própria casa. Simplesmente coloque algumas raspas
de metal sobre uma folha de papel e aproxime delas um
pedaço de material plástico devidamente friccionado. As
aparas serão primeiramente atraídas pelo plástico, e em
seguida repelidas, algumas delas "saltando" até várias
polegadas para trás.
Guericke descobriu este
efeito com sua máquina elétrica de fricção. Esta
consistia de uma esfera de enxofre que podia ser girada
sobre um eixo de ferro, conforme ilustramos abaixo.
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Máquina elétrica de von Guericke |
Ele passava a mão sobre a esfera rotativa de enxofre e a
fricção gerava uma carga elétrica em sua superfície. A
carga atraía papel, penas e muitos objetos leves.
Enquanto trabalhava com sua máquina, ele percebeu que um
corpo é muitas vezes atraído para a esfera e depois
repelido violentamente por ela. Tais corpos ficam então
capazes de atrair outros objetos leves, como se tivessem
adquirido uma carga.
Em uma das experiências, uma pena colocada entre o
enxofre eletrificado e o solo, pulou para cima e para
baixo, entre os dois. Primeiramente ela foi atraída pela
esfera, junto à qual adquiriu uma quantidade de
eletricidade; em seguida, foi repelida para o solo, onde
permaneceu até que a eletricidade se escoasse para a
terra. Logo após, foi uma vez mais atraída pela esfera,
iniciando um novo ciclo.
Guericke descobriu também que a eletricidade pode
propagar-se até a extremidade de um longo fio de linho
--- o primeiro exemplo de cargas elétricas deslocando-se
ao longo de um condutor elétrico. Mais tarde, ele
descobriu que certos objetos podiam ser eletrificados
simplesmente colocando-os junto de sua esfera de
enxofre.
Todas estas observações constituíam 'mistério' para os
cientistas da época, não havendo nenhuma teoria que
fosse capaz de explicá-las. Por esta razão, o progresso
foi extremamente lento, porque as novas descobertas
tinham que ser feitas exclusivamente ao acaso, sem a
orientação da especulação teórica. De todas as ciências
exatas, a eletricidade foi a última a sobrepujar esta
deficiência. Não foi senão depois de bem entrado o
século dezoito que a pesquisa elétrica começou a
beneficiar-se de indícios importantes extraídos das
idéias teóricas.
Condutores e Isoladores
A descoberta da condução elétrica, feita por
Guericke, foi continuada por
Stephen Gray, em 1729. Seu aparelho consistia
de um tubo vidro arrolhado em cada uma das extremidades,
onde um fio ligado a uma das rolhas estendia-se, em
distâncias variáveis, até uma bola de marfim, conforme
ilustramos.
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Transmissão de carga elétrica por um fio |
Quando ele friccionava o tubo de vidro, descobriu que os
efeitos elétricos foram transmitidos do tubo, através da
rolha e do fio, até a bola de marfim, que passou a
atrair uma pena. A distância máxima usada na experiência
foi de 765 pés. 0 fio foi mantido acima do solo, por
meio de linhas de sustentação, feitas de fios de seda. 0
uso da seda foi necessário porque os fios de material
comum permitiriam à eletricidade escoar-se para a terra,
e nenhuma carga poderia ser transmitida para a bola de
marfim.
As experiências de Gray
estabeleceram uma aguda distinção entre os materiais que
podem conduzir a eletricidade de um lugar para outro (condutores
elétricos), e os que não podem fazê-lo (isoladores
elétricos).
Ele descobriu que alguns dos melhores isoladores são o
cabelo, a seda, as resinas e o vidro, enquanto que os
metais são bons condutores. Está claro agora que os
"elétricos" de Gilbert eram meramente bons condutores
--- substâncias que permitiam à eletricidade escoar-se
para as mãos ou para o solo, tão rapidamente quanto era
gerada. Os "não elétricos" de Gilbert eram isoladores
--- materiais que impedem o fluxo da eletricidade e
evitam que ela atinja o solo.
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