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Coisas no Ar   (parte 3)
(Os Primeiros Sintéticos)

Prof. Luiz Ferraz Netto
leobarretos@uol.com.br 

Introdução
Troncos de madeira ardendo na lareira de uma sala de estar ou na fogueira de um acampamento sob a cobertura das estrelas produzem um calor amigo e convidativo. Mas é somente este o grau de nossa dependência da madeira para aquecer-nos. O carvão, o óleo, o gás e a eletricidade, de há muito relegaram a madeira a um papel secundário. Entretanto, nem sempre foi assim. 
No fim do século dezessete, a madeira era ainda a fonte básica de energia para uso doméstico e industrial. E essa fonte estava sendo rapidamente exaurida. Grandes quantidades de madeira ou de carvão vegetal eram consumidas na extração dos metais de seus respectivos minérios; no refinamento do açúcar; na fabricação de cola; na queima da cerâmica, telhas, tijolos e manilhas; na secagem do malte e do lúpulo; na fabricação de sabão, vidro e pólvora; e em incontáveis outras atividades diárias.

À medida que crescia a necessidade de madeira, diminuía a terra disponível para o plantio das árvores. Conta-nos uma autoridade anônima que em todos os países situados próximos do mar “a maior parte das madeiras é consumida, sendo os campos convertidos em pastos ou plantados com cereais”. Todas as indústrias que dependiam da madeira foram forçadas a procurar materiais substitutos.

Uma dessas indústrias foi a de fundição de ferro. Ao contrário do estanho e do chumbo, o ferro não podia ser separado de seu minério com o carvão comum. Mas foi achada uma substância chamada coque para substituir o carvão vegetal. É uma substância de cor cinza-chumbo e dura, consistindo quase inteiramente do elemento carbono. Sendo um excelente agente redutor, o coque ainda hoje é indispensável na fusão do ferro. 
É produzido pelo aquecimento do carvão mineral acima de 1 100oC em ambiente fechado, durante dezesseis horas, enquanto o gás de carvão e outras substâncias são extraídas dele. O coque aquecido ao rubro é então retirado do forno e rapidamente mergulhado em água fria, para impedir que se incandesça. Cada tonelada de carvão rende cerca de 650 kg de coque e uma grande quantidade de gás de carvão inflamáveis. Até o fim do século dezoito, esse gás teve seu uso generalizado na iluminação de edifícios e ruas.

Potassa Sintética
Outras indústrias que se lançaram na procura de materiais substitutos foram as manufaturas de vidro e sabão. As substâncias chamadas potassa e soda eram amplamente utilizadas nessas indústrias. A potassa (agora chamada carbonato de potássio) era obtida das cinzas provenientes da queima da vegetação terrestre, e a soda (chamada carbonato de sódio) derivava-se das cinzas de plantas que vivem perto do mar. Esses produtos químicos eram anteriormente obtidos recolhendo a água que havia passado pelas cinzas, evaporando-a e aquecendo os resíduos em potes — daí o nome da potassa.

Devido à falta dessas substâncias alcalinas, a Academia de Paris ofereceu um prêmio para quem descobrisse um processo de converter o sal comum ou cloreto de sódio, em carbonato de sódio ou soda. O prêmio foi conquistado por um químico francês, Nicolas Leblanc, que estabeleceu uma fábrica em 1791, para a produção da soda. Entretanto, a fábrica foi confiscada pelo governo revolucionário em 1793, e em 1806, cheio de desespero, Leblanc suicidou-se. Esta foi a recompensa que recebeu por ter dado ao mundo sabão e vidro a baixo custo.

Alvejamento da Água
As pesquisas químicas também receberam grande encorajamento de outras fontes. O ácido fabricado com enxofre, oxigênio e água (ácido sulfúrico) era muito útil no alvejamento de roupas de cama e no refinamento de metais preciosos. A metade do século dezoito encontrou o ácido sulfúrico sendo produzido por novos métodos de produção em massa, que reduziram grandemente seu custo. Mais tarde, naquele século, tornou-se a matéria-prima básica das indústrias de vidro e de sabão, como um produto químico fabricado pelo processo de Leblanc.

Em 1774, Scheele descobriu o gás cloro, que também derivava de um processo químico envolvendo o ácido sulfúrico, e observou seu grande poder de alvejamento. Berthollet dissolveu o gás na água em 1785 e descobriu que a solução mantinha o referido poder. O trabalho de Berthollet permitiu a instalação da nova indústria de descorantes.

Porcelana Branca 
Outra indústria que criou uma demanda de conhecimentos químicos foi a manufatura de porcelana e de louças. As cores diferentes nos produtos acabados já de há muito vinham sendo obtidas com o uso apropriado de diversas variedades de argila. Mas, naquela época como agora, as donas de casa insistiam na porcelana branca pura. Entretanto, as dificuldades surgiam freqüentemente, devido aos compostos metálicos da terra. Certas argilas somente podiam tomar-se brancas sob a ação do fogo com a remoção dessas impurezas. Era bastante conhecido, por exemplo, que o óxido de ferro dá uma cor amarela ou vermelha à porcelana que poderia ser branca sem sua presença. No final do século dezoito, os fornecedores de argila tinham aprendido um processo de remover as impurezas por meio de processos químicos.

A Procura do Salitre
A manufatura da pólvora participou dos frutos das pesquisas químicas. Dos três componentes da pólvora negra — carvão vegetal, enxofre e salitre — o último sempre existiu em pequena quantidade. O carvão era derivado da madeira e o enxofre era obtido nos depósitos vulcânicos. Mas o salitre, ou nitrato de potássio, como diríamos hoje, era de origem animal. O salitre ou nitrato forma-se naturalmente com a decomposição dos depósitos de esterco.

Havia poucos lugares na Europa onde se podia formar o salitre sem ser carregado pelas águas da chuva. Conseqüentemente, ele podia ser encontrado apenas em celeiros e estábulos onde havia consideráveis quantidades de dejetos de animais em decomposição. Já em 1540, certos funcionários franceses, chamados salpêtriers commissjonés, tinham a pouco invejável tarefa de procurar e extrair o salitre onde pudesse ser encontrado. Durante o reinado de Luís XIII (1610 -1643) a produção anual de salitre montava a quase 2 000 toneladas. A necessidade do produto aumentou ainda mais quando o químico alemão Glauber mostrou, em 1650, que o salitre pode restaurar a fertilidade dos solos cansados.

Não foi senão em 1775 que Lavoisier, o pai da química moderna, pôde abolir a prática compreensivelmente impopular de buscar o salitre nas casas particulares. Como controlador da munição, ele pôde desenvolver grandemente sua produção, através de métodos aperfeiçoados de manufatura.

Todas estas realizações ocorreram antes que a teoria química se encontrasse orientada no sentido certo. De fato, foram elas que ajudaram a criar um crescente interesse pela pesquisa química. Tanto por esta razão como por interesse genuíno pelos conhecimentos, algumas das melhores inteligências da época dedicaram-se ao estudo da Química. Devido aos seus esforços, o fim do século dezoito viu a Química transformar-se em uma ciência exata, 'quase' em base de igualdade com a Física.

Segue: Coisas no ar (IV)

 


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