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Coisas no Ar
(parte 4)
(Novos
nomes - Os
primeiros passos da nomenclatura química)
Prof. Luiz Ferraz Netto
leobarretos@uol.com.br
Os nomes usados para vários compostos
químicos eram antigas relíquias dos dias envoltos em segredos e
magia da alquimia. Nomes como "pó de
Algarrotti", "sal de Alembroth",
"água fagedênica" ou "colcotar"
nada revelavam sobre os componentes de um produto químico, ou sobre
a relação entre os diferentes produtos. Termos como “óleo
de tártaro pelo sino”, “óleo de
vitríolo”, “manteiga de antimônio”
ou “flôres de zinco” são ainda mais
indesejáveis, porque nos conduzem a idéias erradas. Longe de se
relacionarem com óleo, manteiga ou flores, tais produtos são, em sua
maior parte, venenos violentos.
A reforma da nomenclatura, que se
seguiu, foi produto do cérebro de Guyton de
Morveau, advogado francês. Trabalharam com ele o grande
Lavoisier,
Berthollet, que foi instrutor de Química de Napoleão,
e Fourcroy, um escritor e figura
de proa no Reinado do Terror. Seu novo Método de Nomenclatura
Química apareceu em 1787, e as reformas foram primeiramente
aplicadas por Lavoisier, em seu
Traité Elémentaire de Chêmie (“Tratado Elementar de Química”).
A nova
nomenclatura estabeleceu nomes que expressavam a natureza
química ou a composição da substância. Como
primeiro passo, todos os produtos químicos foram divididos em
duas classes, os elementos e os compostos de
Boyle. Os elementos incluíam
as substâncias mais simples ou fundamentais “aquelas que os químicos
não foram capazes de decompor até o presente momento”. Os compostos
eram substâncias formadas de dois ou mais elementos. Assim sendo,
deviam ser designados “pela reunião dos nomes daqueles mesmos
elementos”.
Um dos elementos que recebeu um nome foi o oxigênio, nome formado
pelas palavras gregas que significam “ácido” e “gerar”, pois se
acreditava, erradamente, que o oxigênio era um componente de todos
os ácidos. Outros foram o hidrogênio, o nitrogênio (em 1790, dado
por Chaptal) e o carbono. O
enxofre manteve seu nome, e seus ácidos foram chamados de sulfúrico,
para designar o máximo conteúdo de oxigênio possível, e sulfuroso
para designar o ácido que contém menos oxigênio. De acordo com o
novo método, os sufixos “ico” e “oso”
indicam maior ou menor quantidade de oxigênio, quando a substância
pode combinar-se com o oxigênio em duas quantidades diferentes.
O oxigênio, o elemento mais abundante da
terra, ocupou um lugar preeminente no novo sistema. Seus compostos
incluíam antes de tudo e principalmente, os óxidos, formados
quando outro elemento se combina com o oxigênio. Uma classe
importante dos óxidos era a dos acidíferos, isto é, substâncias que
se dissolvem na água para formar ácidos que tornam vermelho o papel
de tornassol. Entre esses estão os óxidos de enxofre, de carbono, de
nitrogênio, de fósforo e de outros não metais. Opostos aos óxidos
acidíferos estavam os óxidos de metais, que eram chamados básicos,
e que se dissolviam na água para formar soluções alcalinas. Entre
eles estavam os óxidos de potássio, de sódio, e de outros metais,
cujos óxidos em solução tornam azul o papel de tornassol. Alguns
desses óxidos básicos, como a cal viva (óxido de cálcio), unem-se
com a água para formar compostos mais complexos chamados “álcalis
cáusticos”.
Quando um óxido básico reage com um
ácido, é formada uma substância chamada sal. Estes foram
designados de acordo com o ácido ou óxido acídico do qual derivam.
Para ilustrar, sulfato é o nome geral dado a todos os sais formados
pelo ácido sulfúrico, correspondendo o sufixo “ato”
a um maior conteúdo de oxigênio. O termo sulfito
refere-se aos sais formados pelo ácido sulfuroso, de teor de
oxigênio mais baixo. Assim, os nomes “sulfato de cobre” e “sulfito
de cobre” indicam o ácido e o metal do qual derivam. Similarmente,
ácido carbônico é uma solução de um óxido de carbono na água. Os
sais formados quando o ácido carbônico reage com os óxidos básicos
são chamados de “carbonatos”. Assim, o óxido de cálcio, que é
básico, une-se com o ácido carbônico para formar o carbonato de
cálcio. Os sais também podem ser formados dissolvendo-se um metal,
em vez de seu óxido, em um ácido forte, como o ácido sulfúrico. A
mesma nomenclatura se aplica aos sais resultantes.
O novo método de classificar os produtos
químicos é muito mais que um novo conjunto de nomes para as coisas.
Ajuda-nos a compreender como um produto pode ser obtido ou
utilizado, e o que tem em comum com os produtos relacionados. Chamar
a dois produtos químicos de litargírio e galena pouco ou nada nos
diz sobre sua composição química. Mas seus novos nomes, óxido de
chumbo e sulfureto de chumbo (hoje, sulfeto de chumbo II) encerram
uma riqueza de informações. Antes de mais nada, os novos nomes
indicam que ambos contêm chumbo. Além disso, sabemos que muitos
sulfuretos podem ser convertidos em óxidos, quando aquecidos com o
oxigênio em ambiente fechado — processo chamado oxidação. Assim, o
sulfureto de chumbo (galena) pode ser oxidado para fornecer óxido de
chumbo (litargírio). O enxofre do sulfureto de chumbo combina-se com
o oxigênio do ar e é liberado como um gás, composto de enxofre e
oxigênio. O chumbo liberado que resta é também oxidado para fornecer
óxido de chumbo; este pode então ser convertido em chumbo, quando
aquecido com o carbono, em ambiente fechado — processo chamado
redução. O carbono extrai oxigênio do óxido de chumbo e é liberado
como um gás, o dióxido de carbono. Isto deixa como resíduo o metal
puro, o chumbo. Assim, o conhecimento dos antigos processos
químicos, juntamente com os 'novos' nomes dos produtos, dá valiosas
indicações ao químico. Esta reforma foi da maior importância para
estimular o crescimento da ciência química.
Novos Símbolos
A reforma química que
tratamos acima foi completada em 1814 pelo químico sueco
John Berzelius, que eliminou os
antigos símbolos da alquimia que eram usados para as substâncias
químicas. Abaixo ilustramos alguns dos estranhos símbolos e sinais
enigmáticos que ainda eram usados no tempo de
Lavoisier.
Berzelius
argumentou que “os sinais químicos devem ser
letras, para maior facilidade de anotação... Portanto, tomarei como
símbolo químico a letra inicial do nome latino (ou comum) de cada
elemento químico”. Quando a primeira letra era comum a outro
elemento, ele utilizava ambas as letras iniciais e a primeira
seguinte que não era comum. Os novos símbolos são dados abaixo, para
alguns elementos comuns:
|
Elemento |
Símbolo |
Derivação |
Carbono
Cobre
Cobalto
Cálcio
Cloro
Cromo
Ferro
Potássio
Nitrogênio
Oxigênio
Fósforo
Enxofre
Silício
Estanho
Zinco |
C
Cu
Co
Ca
Cl
Cr
Fe
K
N
O
P
S
Si
Sn
Zn |
nome
comum
Cuprum (latim)
Cobaltum (latim)
Calx (latim)
nome comum
Chrom (grego)
Ferrum (latim)
Kalium (latim)
nome comum
nome comum
nome comum
nome comum
Sílex (latim)
Stannum (latim)
nome comum |
Berzelius
usou estes símbolos para formar os símbolos dos
compostos. O óxido de cobre, por
exemplo, torna-se CuO — com o
símbolo do metal precedendo o do não metal. Similarmente,
o sulfureto de zinco torna-se ZnS. A
terminação “eto” geralmente representa
um composto consistindo de apenas dois elementos.
Os novos símbolos são também usados para
indicar as proporções relativas dos elementos que entram em um
composto. A menor parte de um elemento é chamada de “átomo”, e a
menor parte de um composto é chamada de “molécula”. Portanto, uma
molécula de CuO contém um átomo de cobre e um de oxigênio. A fórmula
do dióxido de carbono é CO2, que nos diz que um átomo de
carbono combinou-se com dois átomos de oxigênio. O prefixo “di-” em
dióxido representa os dois átomos de oxigênio. A fórmula do monóxido
de carbono, por outro lado, é CO. O “mono-” do monóxido de carbono
indica a presença de apenas um átomo de oxigênio. Os dois gases, CO
e CO2, são inteiramente diferentes, embora contenham os
mesmos elementos. O primeiro é um veneno mortal, e o último dá à
soda e ao champanhe sua agradável efervescência.
Os nomes e os símbolos reformados não
foram usados extensivamente até boa parte do século dezenove. Eles
nos ajudarão, entretanto, a compreender as grandes descobertas do
século dezoito, as quais teremos oportunidade de comentar.
Ainda hoje, no linguajar popular, restam
vestígios de nomes que resistiram aos "Primeiros Passos":
|
Nome
popular
|
Nome
científico
|
|
acetileno |
etino |
| anilina
|
fenilamina |
| azinavre
|
sulfeto
de mercúrio |
| bauxita
|
óxido de
alumínio |
| blenda
|
sulfato
de zinco |
| bórax
|
borato
de sódio |
| branco
de prata |
hidrocarbonato de chumbo |
| branco
de Troyes |
carbonato de cálcio |
| branco
de zinco |
óxido de
zinco |
| cal
extinta |
hidróxido de cálcio |
| cal viva
|
óxido de
cálcio |
|
carborundum |
carbureto de silício |
|
carbureto |
carbureto de cálcio |
|
cianureto |
cianeto
de potássio |
| cré
|
carbonato de cálcio |
| galena
|
sulfeto
de chumbo II |
| gesso
|
sulfato
de cálcio |
|
glicerina |
1,2,3
propanotriol |
| grisú
|
metano
|
|
litargírio |
óxido de
chumbo |
| magnésia
|
óxido de
magnésio |
| mínio -
zarcão |
tetróxido de trichumbo |
| potassa
cáustica |
hidróxido de potássio |
| propana
|
propano
|
| sal
amargo |
sulfato
de sódio |
| sal de
cozinha |
cloreto
de sódio |
| sal de
estanho |
cloreto
estanoso diidratado |
| sal
fixador |
tiosulfato de sódio |
| soda
|
carbonato de sódio |
| soda
cáustica |
hidróxido de sódio |
| uréia
|
carbamida |
| vitríolo
azul |
sulfato
de cobre |
| vitríolo
- solução de bateria |
ácido
sulfúrico |
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química" clicando AQUI
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