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Coisas no Ar
(parte 5)
(Ar fixo,
deflogistificado etc.)
Prof. Luiz Ferraz Netto
leobarretos@uol.com.br
Peso do Calor
Dos quatro elementos de
Empédocles, terra, água, ar e fogo, o
último foi o que cedeu com maior relutância. A última tentativa
realizada para preservar a natureza material do calor foi a “teoria
do flogístico”. De acordo com a teoria, todos os materiais
combustíveis — tais como a madeira ou o carvão — contêm um elemento
inflamável que é liberado durante a queima, a calcinação (oxidação)
e a respiração. Pensava-se que esse elemento inflamável, o
flogístico, era absorvido pelo ar ambiente.
A teoria do flogístico, que persistiu
através a maior parte do século dezoito, foi criado pelos químicos
alemães Becher e
Stahl. Pensava-se que o carvão era
praticamente flogístico puro. Quando um minério é convertido em
metal, por meio do aquecimento em presença do carvão, o metal
absorve uma certa parte do flogístico.
Similarmente, quando um metal é queimado no ar, ele libera seu
flogístico no ar, transformando-se em um resíduo (ou óxido, como
diríamos hoje).
metal = flogístico +
resíduo
A equação química acima apresentava um
paradoxo. Era perfeitamente sabido que um metal pesa menos
que seu resíduo. Como pode então um metal que perdeu seu flogístico
(algo material) experimentar um aumento de peso? A maior parte dos
químicos não tentou responder a esta questão. Alguns dos que o
fizeram, atribuíram o peso menor do metal ao peso negativo do
flogístico! A despeito da lei de gravitação universal de
Newton, certos químicos conseguiam
acreditar que um elemento químico — o flogístico — podia ter peso
negativo. Tal opinião não era, entretanto, sustentada
universalmente. A maioria dos químicos preferiam alegar ignorância
de tais questões, embora acreditando na idéia geral do flogístico.
Usavam o conceito quando lhes era útil, ignorando-o quando falhava.
Eliminar o flogístico da tabela dos elementos químicos seria uma
tarefa para Lavoisier. Mas estamos
avançando demais nossa história.
Peso do “Ar Fixo”
Em 1756, o grande cientista
escocês Joseph Black (1728-1799)
publicou um documento breve mas cheio de novidades, referente aos
Experiments upon Magnesia Alba, Quicklime, and some other Alcaline
Substances.
Seu trabalho foi de extrema importância como o primeiro estudo
quantitativo de uma série de reações químicas. Seu grande triunfo
foi mostrar que as várias transformações químicas estudadas podiam
ser detetadas e compreendidas por meio da pesagem dos vários
elementos químicos envolvidos.
Durante suas experiências, Black
descobriu um gás diferente do ar, que podia existir, seja como gás
comum, ou no estado sólido, em combinação com outras substâncias. Em
seu estado combinado, podia ser transferido de uma
substância sólida para outra, sem escapar na forma de gás. A
extensão e o desenvolvimento das idéias de Black seria a tarefa
principal da Química durante o restante do século.
Podemos compreender a façanha de Black
seguindo suas experiências com o giz, ou carbonato de cálcio, CaCO3.
Ele sabia que o giz perde quase a metade de seu peso quando
aquecido. O resíduo, óxido de cálcio, é chamado cal viva.
Mostrou que a diferença de peso era devida a uma quantidade de “ar”
que é liberada pela reação. Ele utilizou o aparelho abaixo ilustrado
para coletar o gás sobre água.
O recipiente (algo como um tubo de
ensaio) é preenchido com água e invertido em um vaso cheio de água.
Quando o gás (representado em amarelo) se libera do giz aquecido,
caminha pelo tubo recurvado e surge no alto do recipiente. Este
aparelho para coletar gases é chamado de 'tina pneumática', e foi
desenvolvido por Stephen Hales
em 1727.
Black mostrou que o "ar" que emanou do
giz é diferente do ar comum. Juntamente com Hales, chamou-o de “ar
fixo” e sustentou que ele se assemelhava ao “ar” resultante da
combustão e da respiração. Nós o chamamos de dióxido de carbono,
CO2.
Ele então repetiu sua experiência
quantitativamente. Mediu com todo cuidado uma 'onça' de giz e
aqueceu-a, para eliminar todo o seu “ar fixo”. A cal viva resultante
pesou cerca de 0,56 'onças'. Imaginou que as 0,44 'onças' que haviam
desaparecido tinham sido liberadas como “ar fixo”. Podemos expressar
essa reação como uma equação química:
| CaCO3 |
=
CaO |
+ CO2 |
| giz |
=cal
viva |
+ ar
fixo |
|
carbonato de cálcio |
=
óxido de cálcio |
+
dióxido de carbono |
| 1
onça |
=
0,56 onças |
+
0,44 onças |
Observem que o mesmo peso aparece em
ambos os lados da equação. Black foi um pioneiro na crença de que a
matéria não pode nem ser criada, nem ser destruída por uma reação
química. A chamada lei da conservação da matéria tomou-se um
marco da química moderna. Observem também que cada espécie
particular de átomo à esquerda do sinal de igualdade é
contrabalançada por um átomo idêntico na direita. Há um átomo de
cálcio, um de carbono e três de oxigênio em cada lado da equação.
Isto também é característico das reações químicas.
Em seguida, Black deu um passo à frente.
Sabia que o giz e a cal viva são substâncias básicas ou
alcalinas. Misturando-se qualquer uma das duas com um ácido,
produz-se um sal. Assim, ele misturou um ácido com 1 onça de giz,
aumentando lentamente a quantidade de ácido até que a combinação
ficasse neutra, isto é, até que o papel de tornassol
nela mergulhado não ficasse nem azul nem vermelho. Chamemos a essa
quantidade de ácido de a onças. (Ele observou que um gás, o
ar fixo, era liberado durante o processo). Verificou então o peso da
cal viva (CaO) que seria necessária para apenas neutralizar a mesma
quantidade (a onças) de ácido, e encontrou cerca de
0,56 onças (nenhum gás foi liberado durante a reação). Uma onça de
giz e 0,56 onças de cal viva neutralizam a mesma quantidade de
ácido. Mas mostrou-se anteriormente que 0,56 onças de cal viva
derivam de 1 onça de giz pela ação do calor. Então, o dióxido de
carbono que está em combinação com a cal viva no giz, e é liberado
em forma de bolhas quando o ácido é derramado no giz, não afeta seu
poder para neutralizar um ácido. Uma quantidade definida de giz,
seja ou não aquecida até transformar-se em cal viva, neutraliza a
mesma quantidade de ácido.
Black repetiu então uma conhecida reação
química, a adição de água à cal viva para produzir a cal extinta, ou
hidróxido de cálcio.
| CaO |
+ H2O |
=
Ca(OH)2 |
| cal
viva |
+
água |
=
cal extinta |
| óxido
de cálcio |
+
água |
=
hidróxido de cálcio |
Era bem sabido que a cal extinta podia
transformar-se no material original, giz, se tratada com um álcali
brando como o carbonato de soda. Escreveríamos a reação da seguinte
maneira:
|
Ca(OH)2 |
+ Na2CO3 |
=CaCO3 |
+
2NaOH |
| cal
extinta |
+
soda |
= giz |
+
soda cáustica |
hidróxido
de cálcio |
+ carbonato
de sódio |
= carbonato
de cálcio |
+ hidróxido
de sódio |
Pesando cada composto em cada reação
química, Black conseguiu mostrar que seu “ar fixo” (CO2)
podia ser transferido de uma substância (soda) para outra (giz) sem
escapar para o ar. Provou também que os pesos das várias substâncias
podiam ser verificados, supondo que qualquer peso “perdido” teria
deixado uma reação sob a forma de “ar fixo”.
As pesquisas de Black foram importantes
devido à luz que lançaram sobre a natureza das substâncias alcalinas
que se tinham tornado indispensáveis à indústria. A palavra “álcali”
passara a significar qualquer substância que neutraliza um ácido. A
cal viva (CaO), a potassa (KCO3), e a potassa cáustica
(KOH), (obtida pela fervura da água, potassa e óxido de cálcio),
eram todos “álcalis”. Black acrescentou o importante conhecimento de
que certos álcalis se enquadram em grupos estreitamente
relacionados. Descobriu as relações de família entre a
potassa (carbonato de potássio, KCO3) e o giz (carbonato
de cálcio, CaCO3). Ambos liberam ar fixo quando
submetidos à ação de ácidos. A cal viva (CaO), por outro lado, não o
faz. Dizemos hoje que esta última é um óxido, enquanto que as duas
primeiras substâncias são carbonatos.
Invenção da Água de
Soda
A água de soda foi inventada
por Joseph Priestley
(1733-1804), um dos grandes químicos amadores. Priestley nasceu
perto de Leeds e estudou para o ministério religioso. Conseguiu
sustentar sua família trabalhando ora como mestre-escola, ora como
ministro ou tutor particular. Devido a sua religião liberal e
opiniões políticas, levou vida atribulada e viu sua casa e seu
laboratório queimados por uma multidão movida por motivos políticos.
Emigrou para os Estados Unidos em 1794 e morreu em Northumberland,
Pensilvânia.
A primeira pesquisa de Priestley
relacionou-se com um gás incolor que ele recolheu dos tonéis
borbulhantes de uma cervejaria próxima. Observou que o gás podia
apagar o fogo de pedaços de madeira e suspeitou que era o mesmo “ar
fixo” que Black tinha estudado quinze anos antes.
Descobriu que o gás (dióxido de carbono) era algo solúvel na água,
produzindo um copo de água efervescente
excepcionalmente agradável, que mal podia ser distinguida da água de
Seltzer. Descreveu mais tarde sua descoberta para os membros
da Royal Society, conquistando o interesse e a apreciação deles. Nós
agora a chamamos de água de soda, uma solução ácida fraca de gás
dióxido de carbono em água.
Ácido Muriático
Logo em seguida, Priestley
fez uma grande contribuição para a Química. Tentou aquecer o sal
comum junto com o ácido sulfúrico e coletou “ar ácido marítimo”
utilizando o mercúrio, em vez da água. Seu aparelho
era semelhante ao de Black (ilustração acima), exceto quanto à
substituição da água pelo mercúrio. O gás incolor que obteve
(cloreto de hidrogênio) tem um odor pungente e irritante. Descobriu
que a água o absorvia avidamente, centenas de vezes o seu volume.
Não admira que ninguém o tivesse jamais recolhido anteriormente. A
água da tina pneumática convencional dissolvia o gás quase tão
rapidamente quanto era produzido. Quando dissolvido em água, é
chamado de ácido muriático ou clorídrico. Poucos anos mais tarde,
ele deu origem à moderna indústria de alvejamento.
Empregando seus novos métodos, Priestley
descobriu outras importantes espécies de “ar” —
Coisas no Ar —. Em 1773, descobriu
o “ar alcalino” ou amônia, como diríamos. Depois, ele juntou os seus
novos gases, amônio e cloreto de hidrogênio, e observou uma
interessante reação. Os gases desapareceram subitamente, sendo
substituídos por uma nuvem branca que se depositou na forma de um pó
branco e fino. Dois gases pungentes tinham-se combinado para formar
um pó branco inodoro — cloreto de amônio que é utilizado
atualmente na fabricação de baterias.
Respiração dos
Animais e das Plantas
Priestley demonstrou
experimentalmente que as plantas purificam continuamente a
atmosfera, mantendo-a apta para sustentar a vida animal. Descobriu
que mudas de hortelã crescem excepcionalmente bem no ar que foi
contaminado pela respiração de animais. Provou também que esse ar
torna-se novamente adequado para a respiração pela ação da hortelã
em crescimento. Concluiu que o dano que é
continuamente causado à atmosfera pela respiração de um número tão
grande de animais.., é, em parte pelo menos, reparado pela atuação
do vegetal em crescimento.
Priestley também obteve o gás de óxido
nítrico, óxido nitroso (ou gás hilariante, N2O), e o gás
de peróxido de nitrogênio, N02. Em 1785, preparou o gás
de monóxido de carbono (CO), aquecendo o óxido de ferro juntamente
com o carvão vegetal. Mas, como o gás se inflamou, formando o CO2,
ele tomou-o erradamente pelo “ar inflamável”, ou hidrogênio em nossa
terminologia.
Ar Deflogistificado
A mais importante das
descobertas de Priestley foi a do ar
deflogistificado, ou oxigênio. Ele o obteve aquecendo
o óxido de mercúrio, de cor
vermelha. (A descoberta foi realizada independentemente por
Scheele, mais ou menos na mesma
época.)
Descobriu que esse gás “é cinco ou seis vezes melhor que o ar comum
para a respiração, a inflamação e, acredito, todos os outros usos do
ar atmosférico comum”. Também, “uma vela permaneceu acesa nesse ar
com uma chama forte muito interessante; e um pedaço de madeira
crepitou e queimou-se com prodigiosa rapidez...”
Priestley não fez uma idéia da
verdadeira natureza do gás que descobriu, o oxigênio. Para que
pudesse sustentar a combustão, pensava-se que o ar recolhia o
flogístico liberado por um corpo ao queimar-se. Uma vez que seu novo
gás era tão melhor que o ar comum. ele acreditou que o mesmo era
completamente “deflogistificado”, daí o nome.
Mais ou menos ao mesmo tempo,
Daniel Rutherford, aluno de Black
na Universidade de Edimburgo, descobriu a existência de dois gases
no ar. Muitos químicos, inclusive Priestley, deixaram pequenos
animais respirar o ar em um volume confinado, até que este não mais
pudesse sustentar a vida. O volume de ar decresceu apenas
ligeiramente em tais experiências, porque a respiração dos animais
substituía o oxigênio consumido pelo gás de dióxido de carbono.
Rutherford absorveu esse CO2 com o auxílio da cal viva e
da água (água de cal), que tem grande afinidade pelo gás. Depois de
absorver o dióxido de carbono, o ar usado apresentou um volume de
apenas quatro quintos do montante original. O “ar” que foi deixado —
nitrogênio — era perfeitamente inerte, e não sustentava a combustão.
Priestley demonstrou que a quinta parte que estava faltando era
precisamente o mesmo gás ou “ar deflogistificado” (oxigênio) que ele
havia obtido do óxido de mercúrio.
A descoberta do oxigênio por Priestley
marcou um ponto decisivo para a Química. Na mente fértil de
Lavoisier, ele iria pôr um fim na teoria do flogístico, e orientar a
Química ao longo da trajetória científica correta.
O interesse de Priestley pela
eletricidade levou-o a descobrir um novo método de estudar os gases.
Misturou gases inflamáveis com oxigênio e fez explodir a mistura por
meio de uma centelha elétrica. Quando ele “centelhou” o monóxido de
carbono (CO) e o oxigênio, o resíduo foi o “ar fixo”. Na
terminologia moderna,
monóxido de carbono +
oxigênio = dióxido de carbono
Pela primeira vez, mostrava-se que o
ar fixo era um composto de substâncias mais simples.
Segue:
Coisas no ar (VI)
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