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Coisas no Ar
(parte 6)
(A Química
torna-se uma Ciência)
Prof. Luiz Ferraz Netto
leobarretos@uol.com.br
Descoberta do
hidrogênio
Henry Cavendish (1731-1810), membro de uma nobre família
britânica, dedicou-se completamente à pesquisa científica. Obteve
“ar inflamável” (hidrogênio) dissolvendo zinco, ferro e estanho em
ácido sulfúrico diluído, ou em ácido clorídrico. Usando cada um
desses dois ácidos com cada um dos três metais, recolheu seis
amostras do gás e observou cada amostra queimar-se com a mesma chama
azul-pálido. Uma vez que o mesmo “ar inflamável” era produzido de
maneiras tão diferentes, Priestley
concluiu que Cavendish tinha encontrado o esquivo flogístico. O fato
de que o hidrogênio era mais leve que o ar conferiu uma certa
credencial a esta idéia. O flogístico, afinal de contas, devia ter
um peso negativo. Cavendish não compreendeu que tinha descoberto um
novo elemento, o hidrogênio.
Destruição de um mito
Cavendish produziu uma certa
quantidade do seu “ar inflamável” e, depois de explodi-lo em
contacto com o ar comum, observou que foi depositada uma espécie de
orvalho nas paredes do recipiente. Um teste posterior mostrou que
cerca de 423 volumes de “ar inflamável” combinados com 1 000 volumes
de ar comum, deixaram intactos cerca de quatro quintos do ar comum
original. Concluiu que quase todo o ar
inflamável e cerca de um quinto do ar comum perderam sua
elasticidade, condensando-se no orvalho que ficou aderente ao vidro.
Mas qual era a natureza daquele orvalho?
Seria água? Depois de repetir a experiência em larga escala, ele
obteve 135 gramas de um líquido que se revelou ser água. A água, o
elemento dos gregos, era na verdade uma combinação de dois gases, o
“ar deflogistificado” (oxigênio) e o “ar inflamável” (hidrogênio)!
Afinal de contas, a água não era um elemento.
A idéia da terra como um elemento
já não era levada a sério havia anos. Sabia-se também que o ar
continha pelo menos três substâncias mais simples — nitrogênio,
oxigênio e dióxido de carbono — e assim, como a terra, não podia ser
um elemento. A água juntava-se agora à lista dos compostos. O único
elemento remanescente de Empédocles e
Aristóteles era o fogo, disfarçado sob
a máscara de flogístico. Com o trabalho de Lavoisier, o fogo
tinha começado sua lenta transição da lista dos elementos químicos
para seu lugar adequado, como um ramo da Física — a Física Térmica.
Química torna-se uma
Ciência
Grandes químicos de
Boyle a Cavendish,
tinham conseguido consideráveis progressos em suas pesquisas
experimentais sobre a combustão e a respiração. Mas cada descoberta
tivera que ser moldada para encaixar-se em uma teoria errônea. A
maior parte dessa ginástica intelectual terminou com
Antoine Laurent Lavoisier (1743-1794),
o químico cujas interpretações primeiro sugeriram o verdadeiro
significado da queima e da respiração. Essa nova compreensão criou a
ciência química.
Lavoisier foi o primeiro cientista a
formular explicitamente a lei da conservação da matéria: “Pode-se
ter como certo que em toda reação há uma igual quantidade de matéria
antes e depois da operação.” Lavoisier incluiu
especificamente os gases em sua definição de matéria. Devido à sua
confiança nesta importante lei, ele usou sua considerável fortuna na
obtenção das melhores balanças da Europa. Com elas, prosseguiu o
trabalho para remeter o flogístico a um merecido repouso.
Colocou em um frasco uma quantidade de
estanho pesada meticulosamente, fechando-o hermeticamente, de
maneira que nenhum ar adicional pudesse entrar durante a
experiência. Aqueceu então o frasco, até calcinar o estanho. Depois
disso, pesou novamente o frasco, verificando que o peso não se havia
modificado. Isto desmentiu a idéia avançada por Boyle e outros de
que partículas pesadas de fogo entravam pelo frasco, juntando-se aos
resíduos. Quando, mais tarde, ele abriu o frasco, observou que o ar
nele penetrou rapidamente. O frasco agora pesou mais do que
quando estivera fechado. Pesou então o resíduo de estanho e
verificou que ele tinha ganho em peso precisamente a mesma
quantidade que o frasco, depois da entrada do ar. Obviamente, o
estanho combinara-se com alguma coisa no ar durante a calcinação,
aumentando de peso correspondentemente.
Logo que Lavoisier soube da descoberta
de Priestley relativa ao “ar deflogistificado”, tornou-se clara para
ele a verdadeira explicação de sua experiência. A calcinação, como a
queima e a respiração, era meramente a união de uma substância com
uma parte do ar. Chamou a essa parte de “ar vital”, e mais tarde, de
oxigênio. O novo composto formado pela calcinação pesava mais que o
metal original, devido ao peso do oxigênio que se havia combinado
com ele. Isto era bastante simples. Nada de peso negativo, do
flogístico misterioso, nem também das partículas pesadas de fogo — e
as melhores balanças do mundo ali estavam para amparar suas
conclusões. Hoje descrevemos a calcinação ou oxidação do estanho com
a seguinte equação:
| Sn |
+ 02 |
= SnO2 |
|
estanho |
+
oxigênio |
=
óxido de estanho |
Lavoisier também mostrou
experimentalmente que o “ar fixo” é um composto de oxigênio e de
carbono. Aqueceu resíduos de mercúrio (o óxido vermelho de mercúrio)
junto com carvão vegetal, obtendo “ar fixo”. Ele sabia que teria
sido produzido o oxigênio, se não tivesse sido incluído o carbono;
assim sendo, o “ar fixo” devia ser um composto de oxigênio e de
carbono. Anteriormente, ele tinha queimado um diamante em um vaso de
vidro fechado, obtendo também “ar fixo”. Então, o diamante era muito
semelhante ao carbono. Ambos combinam-se com o oxigênio para formar
“ar fixo”.
| C |
+ 02 |
= CO2 |
diamante
ou carbono |
+
oxigênio |
=
dióxido de carbono |
Com a ajuda de suas balanças, Lavoisier
determinou que o dióxido de carbono contém 72,1 por cento de
oxigênio — uma boa aproximação para o dado correto, que é 72,7.
Lavoisier mostrou também que o fósforo e
o enxofre combinam-se com o oxigênio para produzir ácidos,
quando dissolvidos em água. Isto deu ao oxigênio o seu nome —
fazedor de ácidos. A idéia do oxigênio
como um gerador de ácidos teve que ser revista mais tarde, quando se
descobriu que os ácidos clorídricos e cianídrico não contêm
oxigênio. Percebam ... essa é a beleza e a força da Ciência!
Em 1783, Lavoisier confirmou a
descoberta de Cavendish sobre a natureza da água. Aqueceu oxigênio e
hidrogênio provenientes de tubos separados e produziu uma quantidade
de água pura. No mesmo ano, executou a experiência em ordem inversa,
e obteve o hidrogênio da água. Fez passar vapor de água sobre
pedaços de ferro quente e colheu o hidrogênio produzido pela reação.
O ferro retirou o oxigênio do vapor de água (H2O),
liberando uma quantidade de hidrogênio.
ferro + vapor de água
= óxido de ferro + hidrogênio
Por volta de 1785, a teoria do
flogístico estava em declínio, e a nova química ganhava aceitação,
sob a liderança de Lavoisier. A Ciência Química atingiu sua maior
expressão em seu clássico livro texto Traité Elémentaire de
Chemie, que apareceu por volta de 1789. Nele, Lavoisier
explicou os conhecimentos químicos com base em suas novas idéias.
Infelizmente, ele não viveu para
ver o triunfo final de seu novo movimento.
A publicação do livro coincidiu com a Revolução Francesa. Embora
tivesse assistido ao novo governo em seus primeiros dias, o Reinado
do Terror que se seguiu “não tinha necessidade de sábios”. Foi
julgado sob acusações forjadas e decapitado em 8 de maio de 1794 —
apenas um mês depois da saída de Priestley da Inglaterra. Perdendo
Lavoisier, a Ciência tinha perdido o maior químico da época.
Segue
*** Coisas do Átomo (parte 1) ***
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