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Coisas do Átomo
(Parte 1 -
Primeiras leis)
Prof. Luiz Ferraz Netto
leobarretos@uol.com.br
Introdução
Da mesma maneira que a
química moderna começou com Lavoisier,
a moderna teoria atômica — que se relaciona com toda a ciência da
Física — começou com Dalton. John Dalton
(1766-1844) foi um professor quacre (*)
de Manchester, Inglaterra. Seu feito excepcional foi a explicação de
fatos químicos conhecidos, tendo por base os átomos e as moléculas.
(*) Segundo o
Aurélio: quacre - do inglês quaker - Membro de uma seita
protestante (Sociedade de Amigos) fundada na Inglaterra, no séc.
XVII, e difundida principalmente nos E.U.A. Os quacres não
admitem sacramento algum, não prestam juramento perante a
justiça, não pegam em armas, nem aceitam hierarquia
eclesiástica.
O conceito de átomos e moléculas como as
menores partículas dos elementos e dos compostos não era nada novo.
Mas os átomos de Dalton diferiam daqueles dos tempos antigos.
Como um verdadeiro cientista, ele lhes atribuiu somente aquelas
propriedades específicas exigidas pelos fatos químicos. Não lhes
conferiu vagas propriedades que podiam ser adaptadas para satisfazer
a qualquer explicação desejada. Alguns dos símbolos atômicos de
Dalton são mostrados abaixo.
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Alguns
dos símbolos atômicos de Dalton para os
elementos químicos e seus compostos. |
Enquanto Dalton especulava com os átomos
por volta da passagem ao século XIX, lavrava uma grande controvérsia
acerca da natureza dos compostos. Berthollet,
químico francês, acreditava que a quantidade de cada elemento
existente em um composto não era necessariamente constante. As
proporções do hidrogênio e do oxigênio na água, por exemplo, podiam
variar ligeiramente, dependendo da quantidade de cada elemento que
estivesse disponível quando se formasse a água.
Os argumentos de Berthollet foram refutados por outro químico
francês, Joseph Louis Proust
(1755-1826). Utilizando métodos aperfeiçoados para a preparação dos
elementos químicos puros, ele mostrou em 1807 que um composto contém
sempre os mesmos elementos, combinados exatamente nas mesmas
proporções de peso. Este princípio tornou-se conhecido como a Lei
das proporções constantes.
Como a lei de Lavoisier (a
conservação do peso em uma reação), a lei de Proust constitui
um marco na história do conhecimento químico. Ambas as leis tendiam
a apoiar a teoria atômica que Dalton tinha descrito primeiramente em
1803. Ele ensinou que "as partículas básicas
(átomos) de todos os corpos homogêneos são perfeitamente iguais em
peso, aparência etc. Em outras palavras, cada partícula de
hidrogênio é igual a qualquer outra partícula de hidrogênio etc."
Devia esperar, portanto, que cada
molécula de um composto contivesse precisamente o mesmo número e a
mesma espécie de átomos que as suas vizinhas. E como os átomos do
mesmo elemento têm o mesmo peso, todas as moléculas que os contêm
devem ser idênticas para o mesmo composto. Similarmente, como os
átomos são inalteráveis e indestrutíveis, não pode haver perda de
peso em uma reação química.
Peso do Átomo
Dalton prosseguiu explicando
que “um grande objetivo deste trabalho é
mostrar a importância e a vantagem de determinar
os pesos
relativos das partículas básicas, tanto dos corpos simples, como
dos compostos (elementos e compostos)... “.
Dalton sabia que não havia esperança de pesar os átomos individuais
dos diferentes elementos, mas entreviu um meio de determinar seus
pesos relativos. Embora tivesse cometido muitos erros na
determinação desses pesos atômicos relativos, seu método era
basicamente correto. Para ilustrar, Dalton acreditava incorretamente
que uma unidade de peso de hidrogênio combina-se com sete unidades
de peso de oxigênio para formar água. Supondo que a molécula de água
contém um átomo de cada elemento, um átomo de oxigênio pesaria sete
vezes mais que um átomo de hidrogênio. Se o peso atômico do
hidrogênio fosse considerado como sendo a unidade, o peso relativo
do oxigênio seria sete.
Sua conclusão estava errada, naturalmente, por duas razões: (1) a
água contém dois átomos de hidrogênio para cada um de oxigênio; e
(2) as proporções de peso dos dois elementos na água estão na razão
de 8:1. Se considerarmos o peso do hidrogênio como sendo um, então o
oxigênio tem um peso relativo de dezesseis.
Dalton descobriu outra lei importante,
que sustentou grandemente sua teoria atômica. Proust tinha mostrado
anteriormente que o mesmo par de elementos combina-se algumas vezes
em proporções diferentes para formar compostos inteiramente
diferentes. Descobriu, por exemplo, que o estanho e o oxigênio
combinam-se em cada uma das seguintes proporções de peso:
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Estanho |
|
Oxigênio |
| 88,1% |
|
11,9%
- óxido estanoso |
| 78,7% |
|
21,3%
- óxido estânico |
Proust não conseguiu descobrir qualquer
relação entre as duas composições, porque expressou os pesos
relativos dos dois compostos em porcentagens do peso total. Dalton
expressou a composição de cada composto de maneira diferente —
escrevendo os dois pesos de oxigênio que se combinam com o mesmo
peso de estanho. Por exemplo:
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Estanho |
|
Oxigênio |
| 100
gramas |
|
13,5
gramas - óxido estanoso |
| 100
gramas |
|
27,0
gramas - óxido estânico |
Escrevendo desta maneira, é claro que os
dois pesos do oxigênio estão na proporção de 1:2. A lei das
proporções múltiplas de
Dalton diz-nos que quando o mesmo peso de um
elemento combina-se com diferentes pesos de outro elemento para
formar mais de um composto, os diferentes pesos estão na proporção
de pequenos números inteiros, dois, três, quatro etc.
Dalton naturalmente concluiu que o óxido estanoso (SnO) contém um
átomo de cada elemento, enquanto que o óxido estânico (Sn02)
contém um átomo de estanho para dois de oxigênio. A lei encaixava-se
lindamente tanto com sua teoria atômica como com a lei das
proporções constantes de Proust.
Lei de combinação por
volume
Na virada do século, os
cientistas sabiam que dois volumes de hidrogênio e um volume de
oxigênio podem ser “centelhados” ou explodidos para produzir água,
sem nenhum desprendimento de gás, como ilustramos:
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A lei da
combinação por volume, aplicada ao
hidrogênio e ao oxigênio. |
Este era o exemplo típico de uma lei
geral que começava a tomar forma. A lei química dos volumes,
de autoria de Gay-Lussac, estabelece
que os volumes dos gases (supondo-se as mesmas
pressão e temperatura) que se combinam em uma reação química
relacionam-se na proporção dos pequenos números inteiros.
Gay-Lussac testou a lei com as experiências mais extensivas e exatas
jamais feitas com as reações dos gases. Em 1808, a lei tinha sido
verificada para a amônia (NH3), ácido clorídrico (HCl),
óxido nitroso (NO), óxido nítrico (NO2) e dióxido de
enxofre (SO2).
Ele
descobriu que quando os gases se combinam, seus volumes relativos
sempre apresentam uma relação entre si correspondente a um número
inteiro, o mesmo acontecendo relativamente ao volume do composto
resultante, se este for um gás. Por exemplo, um volume de oxigênio
combina-se com dois volumes de hidrogênio para formar dois volumes
de vapor de água; um volume de nitrogênio combina-se com três
volumes de hidrogênio para formar dois volumes de gás de amônia, e
assim por diante.
Gay-Lussac
deu então um passo demasiado à frente, concluindo que iguais volumes
de gases contêm o mesmo número de átomos. Dalton mostrou que tal não
pode ser verdade. Tomemos o óxido nitroso (NO) por exemplo — que é
um composto de nitrogênio e de oxigênio. Gay-Lussac teria escrito da
seguinte maneira a fórmula da reação:
N + O = NO
(1 átomo de nitrogênio + 1 átomo de
oxigênio = 1 molécula de óxido nitroso)
A consideração da natureza de um gás
poderá ajudar-nos a compreender as implicações desta equação. Um gás
é uma substância que consiste de partículas extremamente pequenas de
matéria, separadas por grandes espaços vazios. As distâncias de
separação são muito maiores que as dimensões das partículas. Assim,
o volume de um gás depende somente de dois fatores: o número de
partículas e sua distância de separação. Ele não depende das
dimensões das partículas, uma vez que elas são meramente pontos,
para todos os fins práticos.
Gay-lussac estava ciente dessas idéias. Concluiu que um litro de
óxido nitroso devia conter a mesma quantidade de partículas que um
litro de nitrogênio ou de oxigênio — mesmo que uma molécula de óxido
nitroso seja maior que um átomo, tanto do oxigênio, como do
nitrogênio. Ele acreditou, portanto, que um volume (digamos, um
litro) de nitrogênio devia combinar-se com um volume de oxigênio
para produzir um volume de óxido nitroso. Entretanto, quando a
experiência foi realizada, obteve dois volumes de óxido nitroso;
exatamente duas vezes mais do que ele contava. Era como se uma
partícula de nitrogênio e uma de oxigênio se tivessem combinado para
produzir duas partículas de óxido nitroso. Se iguais volumes de
gases elementares contêm números iguais de átomos, um volume de
nitrogênio mais um de oxigênio deviam combinar-se para fazer apenas
um volume de óxido nitroso, em vez de dois.
Esta dificuldade foi explicada em 1811
pelo italiano Amedeo Avogadro
(1776-1856). Ele sugeriu que os átomos de alguns gases, mas não de
todos, andam aos pares. Em outras palavras, podia haver moléculas de
elementos gasosos, exatamente como dos compostos. A reação para
formação do óxido nitroso podia ser, então, escrita assim:
N2 + O2 = 2 NO (1
molécula de nitrogênio + 1 molécula de oxigênio = 2 moléculas de
óxido nitroso, ou 1 volume de nitrogênio + 1 volume
de oxigênio = 2 volumes de óxido
nitroso.)
O subscrito 2
do oxigênio e do nitrogênio indica que cada molécula de cada
elemento contém dois átomos. A lei de Avogadro diz-nos que
iguais volumes de gases (a pressão e
temperatura iguais) contêm o mesmo número de moléculas. A
despeito da verdade e da importância da lei de Avogadro, ela
despertou acérrimas controvérsias na época, e não foi geralmente
aceita até ser revivida uns cinqüenta anos mais tarde.
Peso atômico relativo
Durante a segunda década do
século dezenove, Jons Berzelius
(1779-1848) executou o trabalho que o tornou o líder reconhecido da
Química. Crente ardoroso da teoria atômica, decidiu determinar os
pesos atômicos relativos de todos os elementos conhecidos. Para
garantir a precisão, purificava todos os elementos que usava, não
uma ou duas vezes, mas dezenas de vezes. As dificuldades sob as
quais trabalhou este grande químico sueco foram tremendas.
Seu “laboratório” consistia de dois quartos de sua casa, que não
eram equipados nem com água corrente, nem com gás. Ele não dispunha
de forno nem de capela, e sua pia tinha um pote debaixo dela, para
recolher os líquidos, quando era retirado o bujão. Sempre que
precisava de um cadinho de prata, tinha que pedir emprestado o único
existente na Suécia. Fabricou com suas próprias mãos a maior parte
dos outros equipamentos de que precisava. Tornou-se um perito
soprador de vidro, por exemplo, com a única finalidade de construir
seus próprios aparelhos.
A despeito dessas desvantagens,
Berzelius purificou e analisou composto após composto, até
determinar a composição de mais de duas mil substâncias químicas.
Após anos de paciente labuta, publicou os pesos atômicos dos
quarenta elementos químicos diferentes conhecidos pelo mundo
científico da época. Sua tabela de pesos atômicos permanece
até hoje como um monumento à sua meticulosidade, perícia e
perseverança. Mais tarde, seu trabalho assumiu importância ainda
maior, quando um grande químico russo,
Mendeleiev, observou certas irregularidades entre os
elementos.
Segue:
Coisas
do átomo (Parte 2)
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