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Coisas do Átomo
(Parte 3 - O
profeta siberiano)
Prof. Luiz Ferraz Netto
leobarretos@uol.com.br
Introdução
No ano de 1869, um professor
de Química da Universidade de São Petersburgo fez uma impressionante
predição. Pelo menos mais três elementos químicos seriam adicionados
à lista dos sessenta e três já conhecidos. Ele os chamou de
eca-alumínio, eca-boro e eca-silício.
Dmitri Ivanovitch Mendeleiev
(1834-1907) não havia realizado nenhuma experiência relativa a esses
três elementos e nunca os tinha visto, antes de fazer uma predição
tão audaciosa relativa a sua descoberta.
Não conhecia nenhuma substância que os contivesse e não tinha a
menor idéia de onde poderiam ser encontrados.
Não obstante, esse jovem de Tobolsk,
Sibéria, teve a coragem de predizer suas propriedades químicas e
físicas. O eca-alumínio teria propriedades semelhantes às do
metal alumínio. Seu peso atômico seria sessenta e oito vezes o do
átomo de hidrogênio. Seria facilmente fusível e formaria produtos
chamados alumes, sendo volátil o seu cloreto. Então, em 1875, este
novo elemento foi descoberto. Partindo de um minério de zinco,
Lecoq de Boisbaudran isolou o
misterioso eca-alumínio. Repetidas experiências provaram que não
havia nenhum engano. O novo metal era na verdade o elemento cujas
propriedades tinham sido preditas com tanta precisão por Mendeleiev.
O descobridor chamou de gálio, em homenagem ao antigo nome de
sua terra natal, a França. [Não acredito bem nessa história de
homenagem à antiga terra natal, como citam os livros de História da
Ciência, sempre há um pouco de 'puxar a sardinha para a sua brasa'
... e 'le coq' (seu nome), em francês é o 'galo' ... de galo para
gália...]
Houve muitos que permaneceram céticos.
Talvez fosse apenas um palpite feliz. Não tinha o grande Lavoisier
dito que era impossível predizer a natureza e o número dos
elementos?
Mas vieram em seguida outras notícias
perturbadoras. Na Alemanha, Winkler
tinha descoberto outro elemento novo, que se assemelhava ao
eca-silício de Mendeleiev. Ele estava
procurando um elemento cinza escuro, com um peso atômico de cerca de
72, e uma densidade igual a 5,5 vezes a da água. Em 1886, partindo
da argirodita, minério de prata, ele isolou um metal exatamente com
as propriedades certas. Chamou-o de germânio, em homenagem à
sua terra natal. A tabela seguinte compara as propriedades preditas
e os compostos químicos do eca-silício com os que foram mais tarde
determinados para o germânio. A precisão das predições deixou
confusos os críticos de Mendeleiev. Afinal de contas, talvez o jovem
russo não fosse um charlatão.
| |
Preditas
eca-silício |
Medidas
Germânio |
| peso
atômico |
72 |
72,3 |
| peso
específico |
5,5 |
5,47 |
|
fórmula do óxido |
XO2 |
GeO2 |
| peso
específico do óxido |
4,7 |
4,7 |
|
fórmula do cloreto |
XCl4 |
GeCl4 |
| ponto
de ebulição do cloreto |
< 100
oC |
86
oC |
|
fórmula do fluoreto |
XF4 |
GeF4 |
|
fórmula do composto etílico |
X(C2H5)4 |
Ge(C2H5)4 |
| pto
de ebulição do composto etílico |
160
oC |
160
oC |
| peso
específico do composto etílico |
0,96 |
0,96 |
|
Nota: o X
representa o eca-silício) |
Dois anos mais tarde, o mundo da ciência
acabou por convencer-se completamente. De um laboratório da
Escandinávia vieram notícias de que Nilson
havia isolado o eca-bóro. Tinha encontrado indicações do
elemento no minério euxenita, e continuou trabalhando até ter diante
dele o novo elemento. Como seus dois predecessores, o novo metal,
que recebeu o nome de escândio, exibia todas as propriedades
que haviam sido preditas para ele. Os dados agora eram conclusivos,
e os químicos procuraram aprender os novos métodos de Mendeleiev.
Lei Periódica
Mendeleiev tinha chegado a esta antecipação fenomenal na Química por
uma cuidadosa verificação das propriedades de todos os elementos
conhecidos. Reuniu todos os dados referentes aos sessenta e três
elementos da época. Chegou a incluir até o flúor — que se sabia ser
um elemento, embora ainda não tivesse sido isolado. As informações
foram registradas em sessenta e três cartões, um para cada elemento
e em seguida cuidadosamente examinadas.
Ali estavam todos os elementos químicos,
cada um formado por uma espécie diferente do átomo daltoniano. Seus
pesos atômicos variavam de 1 para o hidrogênio, até 238 para o
urânio, o elemento mais pesado. Alguns, como o hidrogênio, oxigênio,
nitrogênio e cloro, são gases à temperatura ambiente. Outros são
líquidos como o mercúrio e o bromo. Outros ainda, são sólidos.
Alguns são moles, como o sódio e o potássio; outros, como a platina
e o irídio, são duros. Alguns são pesados como o urânio e o ósmio, e
outros flutuam na água, como o lítio. O ferro se corrói rapidamente
na atmosfera, mas o ouro nunca se mancha. O cobre é vermelho, o iodo
é cinzento e o fósforo é branco. Alguns elementos unem-se com um
átomo de oxigênio, outros com dois, e ainda outros, com três e até
quatro.
Nessa massa de dados diversos e
aparentemente não relacionados, Mendeleiev descobriu uma certa ordem
muito bonita. Observou que todos os elementos pareciam encaixar-se
naturalmente em um certo número de grupos, de acordo com suas
propriedades. Quando ele separou à sua frente esses grupos de
cartões, ficou clara, para ele, uma impressionante relação. Exceto
quanto ao hidrogênio, as propriedades dos elementos pareciam estar
relacionadas com seus pesos atômicos, de uma certa maneira que se
repetia periodicamente Para ilustrar, se colocarmos o hidrogênio em
uma classe isolada, podemos relacionar
da seguinte maneira os elementos mais
leves em cada uma das colunas de Mendeleiev:
| Lítio |
Berílio |
Boro |
Carbono |
Nitrogênio |
Oxigênio |
Flúor |
|
7 |
9,4 |
11 |
12 |
14 |
16 |
19 |
Os números que estão abaixo dos
elementos são os pesos atômicos, segundo os conhecia Mendeleiev.
Estes eram os elementos mais leves conhecidos (com exceção do
hidrogênio) e cada um parecia ser o cabeça de uma classe de
elementos que tinham propriedades semelhantes. O elemento que se
lhes seguia em peso era o sódio (23). O sódio parece-se muito com o
lítio, tanto em suas propriedades químicas como nas físicas. Assim,
Mendeleiev colocou-o abaixo do lítio, em sua tabela de elementos. Em
seguida, em seqüência normal, vinham o magnésio (24), o alumínio
(27,3), o silício (28), o fósforo (31), e o enxofre (32), cada um
colocando-se miraculosamente debaixo do elemento com o qual se
assemelhava. A fila seguinte começou com o potássio (39) e, ainda
uma vez, cada elemento parecia pertencer ao lugar em que era
colocado. Desta maneira, ele dispôs todos os elementos em forma tal
que contava a história de suas propriedades.
Quando a tabela foi completada, ele
observou quão bem ficavam os elementos nos lugares em que os
colocara. Os não-metais extremamente ativos — flúor, cloro, bromo e
iodo —todos se apresentavam no mesmo grupo, o de número sete. Os
metais ativos, lítio, sódio e potássio, estavam todos no primeiro
grupo. Mendeleiev tinha descoberto que as propriedades dos elementos
são repetidas periodicamente, quando eles são dispostos em ordem,
por peso atômico. Tinha descoberto uma nova e profunda regularidade
entre os elementos.
Mas ainda havia mais coisas a serem
aprendidas com a Tabela Periódica dos
Elementos, de Mendeleiev. Dispostos daquela maneira, os
elementos mostravam uma impressionante regularidade na maneira pela
qual se uniam ao oxigênio. Os elementos do Grupo 1 uniam-se com o
oxigênio na proporção de dois átomos para um. As fórmulas químicas
são Li20, Na2O, K2O, e assim por
diante. Todos os átomos do segundo grupo unem-se aos do oxigênio na
razão de um para um: BeO, MgO, CaO, ZnO etc. Os elementos do
terceiro grupo unem-se na proporção de dois átomos para três: B203,
Al203, In203 etc.
Similarmente, existem relações regulares para os outros grupos de
elementos. Tudo maravilhosamente simples. Sabendo-se as propriedades
de um elemento de um grupo, sabe-se, de maneira geral, as
propriedades de todos os outros elementos daquele grupo.
Procurando dispor os elementos
corretamente em seus grupos, Mendeleiev verificou que o ouro (199) e
a platina (198) deviam ser colocados em ordem inversa na tabela. Com
a audácia que o caracterizava, proclamou que os pesos geralmente
aceitos do ouro e da platina estavam errados. O ouro devia ser mais
pesado que a platina. Mais tarde foi justificado, quando os pesos
atômicos foram determinados com mais precisão:
ouro (197) e platina (195). O ouro é
mais pesado que a platina, exatamente como sustentou firmemente
Mendeleiev.
O mesmo problema surgiu quanto ao
telúrio e ao iodo — e mais uma vez Mendeleiev colocou os elementos
em ordem inversa, com o telúrio mais pesado aparecendo na tabela
antes do iodo mais leve. Os críticos repisaram aquela
inconsistência, porque repetidas determinações dos pesos atômicos
revelaram que o telúrio (127,6) era realmente mais pesado que
o iodo (126,9). Entretanto, as propriedades dos dois elementos
tornavam claro que eles estavam classificados em ordem inversa. Por
que aconteceria isso? Talvez o futuro explicasse o paradoxo. Afinal
de contas, a diferença dos pesos atômicos é muito pequena, apenas
cerca de 0,5 por cento.
A explicação tornou-se clara anos mais tarde, quando foram
adquiridos mais conhecimentos sobre a natureza dos átomos. Os pesos
atômicos são apenas quase perfeitos como um meio de ordenar os
elementos. O princípio da classificação tinha de ser procurado, não
no peso atômico em si, mas em alguma outra característica
estreitamente relacionada com ele. Como veremos, descobriu-se mais
tarde que as propriedades químicas dos elementos dependem do número
de 'componentes elétricos' (elétrons) do átomo. Tal número é
estreitamente relacionado com o peso atômico, mas outros fatores
podem afetar o peso de um átomo sem ter efeito sobre o número de
elétrons que ele contém. Aguardemos!
A prática corrente é atribuir a cada
elemento um número atômico, começando com o 1 para o hidrogênio e
continuando sucessivamente até o 92 para o urânio, que é o elemento
mais pesado que ocorre naturalmente. Esses números atômicos são
usados na tabela periódica que se segue, a qual foi atualizada,
incluindo os elementos descobertos após a época de Mendeleiev.
O grupo de elementos que vão do número
atômico 58 até o 71 está indicado abaixo da tabela, porque eles não
se relacionam com os elementos abaixo dos quais seriam normalmente
colocados. Juntamente com o lantânio, 57, eles de há muito são
chamados de metais de terras raras. Alguns deles não são realmente
raros. O cério, 58, ocorre mais abundantemente que o chumbo, o
estanho ou o mercúrio. O problema tem sido a dificuldade de sua
extração das substâncias naturais. Eles ocorrem como compostos
misturados com areia monazítica. Como são quimicamente muito
semelhantes, sua separação é demasiado dispendiosa para a maior
parte dos fins comerciais.
Valência e casamento
atômico
O grande feito de Mendeleiev
foi a Tabela Periódica, que classificou os elementos de maneira
lógica, em famílias perfeitamente reconhecíveis. Uma das
características de família que a tabela tornou óbvias foi a
chamada valência.
Era bem conhecido no tempo de Mendeleiev
que os átomos de diferentes elementos combinam-se em várias
proporções para formar compostos. Mas essas proporções são muito
específicas, e dependem dos elementos determinados que entram na
combinação.
O hidrogênio e o cloro, por exemplo, podem combinar-se somente átomo
por átomo; um átomo de hidrogênio nunca se combina com mais nem com
menos de um átomo de cloro. Assim sendo, escrevemos a fórmula
química do cloreto de hidrogênio como HCl.
Por outro lado, um átomo do metal cálcio pode combinar-se com dois
átomos de cloro, para formar o cloreto de cálcio (CaCl,). Os átomos
de cálcio têm duas vezes a capacidade de combinação dos átomos de
hidrogênio.
Um átomo de alumínio pode combinar-se com três átomos de cloro para
formar AlCl3, mostrando que a capacidade de combinação do
alumínio é três vezes superior à do hidrogênio.
Um átomo de carbono pode combinar-se com quatro átomos de cloro para
formar, CCl4, tetracloreto de carbono. Assim sendo, o
carbono tem quatro vezes a capacidade de combinação do hidrogênio.
Os átomos de cada elemento têm uma certa capacidade de combinação
definida — característica esta que é chamada de valência.
Valência vem do nome latino valentia, significando vigor. Por
implicação, um átomo de carbono tem o “vigor” de quatro átomos de
hidrogênio, porque sua capacidade de combinação, ou valência, é
quatro vezes maior.
A valência do hidrogênio é tomada como
sendo um, porque um átomo de hidrogênio nunca se combina com mais
que um átomo de qualquer outro elemento. Por isso mesmo, constitui
um padrão conveniente, por meio do qual pode ser medida a valência
dos outros elementos. O hidrogênio combina-se com o oxigênio na
proporção de dois átomos para um, por exemplo, produzindo a água, H20.
A valência do oxigênio deve então ser dois, porque um átomo de
oxigênio combina-se com dois de hidrogênio. Similarmente, a valência
do cloro é um, porque a fórmula do cloreto de hidrogênio é HCl.
Diz-se que o cloro é univalente, e que o oxigênio é bivalente. O
nitrogênio, que pode combinar-se com o hidrogênio na razão de três
para um, como na amônia (NH3),
é dito trivalente. O carbono, que pode combinar um de seus átomos
com quatro de hidrogênio (CH4) é classificado como
quadrivalente, e assim por diante.
A valência de um elemento pode ser
considerada como o número de átomos de hidrogênio que podem ser
substituídos por um átomo do elemento. O óxido de cálcio tem a
fórmula CaO, e o óxido de hidrogênio, ou água, tem a fórmula H20.
Portanto, o cálcio tem uma valência de dois, porque um átomo de
cálcio toma o lugar de dois átomos de hidrogênio, quando seus óxidos
são comparados. A valência pode também ser considerada como o número
de átomos de hidrogênio que se combinam com dois átomos do elemento.
Esta regra é baseada no fato de que o oxigênio tem a valência dois.
Os metais sódio e potássio, cujos óxidos são Na2O e K2O,
têm a valência um, porque um átomo de oxigênio combina-se com dois
átomos de qualquer um dos dois elementos. Os óxidos de cálcio, de
bário e de estrôncio (CaO, BaO, SrO), mostram que estes metais têm a
valência dois.
Certos elementos podem ter mais de uma
valência. Os óxidos de nitrogênio e de fósforo (N205
e P205), que formam com a água os ácidos
nítrico e fosfórico, dizem-nos que o nitrogênio e o fósforo têm uma
valência de cinco nesses compostos. Os mesmos elementos combinam-se
com hidrogênio (NH3 e PH3) para formar amônia
e fosfina, mas com uma valência de apenas três, em vez de cinco.
Quando um elemento como o nitrogênio exibe duas valências
diferentes, os dois números usualmente somam oito, como no exemplo
acima (sabia disso?).
A idéia de valência foi estabelecida
claramente pela primeira vez por Sir Edward
Frankland em 1852. Baseava-se, naqueles dias, na maneira pela
qual pareciam comportar-se os elementos. Somente durante o século XX
foi encontrada uma base teórica que pudesse levar à compreensão da
valência. Sabemos agora que ela se relaciona com a repartição de
elétrons pelos átomos dos diferentes elementos.
Segue: Coisas do átomo (Parte 4)
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