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Coisas do Átomo
(Parte 4 -
Catalizador - o ajudante do Químico)
Prof. Luiz Ferraz Netto
leobarretos@uol.com.br
Introdução
Desde a descoberta do monóxido de carbono (CO), sabia-se que se pode
fazer o gás unir-se com o oxigênio para formar o gás dióxido de
carbono (CO2). Esta reação provoca a chama azul que vemos sobre as
jazidas de carvão. Entretanto, quase no final do século dezoito,
soube-se que, para que a reação tenha lugar, é necessária a presença
de uma certa quantidade de água. Essa quantidade é mínima, mas sua
presença acelera acentuadamente a reação. As medidas provam que a
água não entra na reação. Após a
reação, há exatamente a mesma quantidade de água que havia no
início, mas sua presença, de algum modo, facilita a reação.
Nas primeiras décadas do século
dezenove, muitas reações similares foram noticiadas, todas tendo uma
característica em comum — a razão de trocas químicas foi grandemente
aumentada pela presença de certas outras substâncias em quantidades
extremamente reduzidas. Berzelius
sugeriu em 1838 que tais substâncias aceleram uma reação química
“acordando as afinidades adormecidas das substâncias” induzindo-as,
dessa maneira, a combinar-se. Ele introduziu o termo catálise
para esta classe de reação. A substância que provoca a catálise é
chamada de catalisador ou de 'agente catalítico'.
Exatamente como funcionam tais catalisadores, é coisa que ainda está
muito longe de ser completamente compreendida. De todo modo, eles se
transformaram em uma parte indispensável da moderna indústria
química. Centenas deles são usados para acelerar ou retardar
importantes reações, ou para aumentar o rendimento de processos que
de outra maneira seriam comercialmente impraticáveis. Eles podem ser
chamados, de modo hilário, de párocos
químicos, pois unem os elementos
em matrimônio, não se envolvendo eles próprios, entretanto.
A quantidade de um catalisador
necessária para certas reações é incrivelmente pequena. Quando o
sulfito de sódio (Na2SO3) é dissolvido em
água, o oxigênio do ar oxida-o lentamente, transformado-o em sulfato
de sódio (Na2SO4). Mas se for adicionada uma
pequenina quantidade de cobre, o processo de oxidação é nitidamente
acelerado. O efeito do cobre no processo pode ser percebido até
mesmo se a água usada para a solução de sulfito de sódio tiver
permanecido em um recipiente de cobre por alguns momentos. De fato,
o catalisador é tão eficiente que uma concentração de 0,031 kg (uma
'onça') de sulfato de cobre em 2271 milhões de litros (600 milhões
de 'galões') de água contém cobre
suficiente para acelerar a reação! A catálise é um exemplo supremo
da infinita importância do microscopicamente pequeno.
Os agentes catalíticos têm sido
indispensáveis desde o principio da indústria química. Uma de suas
aplicações mais importantes tem sido na fabricação do ácido
sulfúrico (H2S04). O ácido sulfúrico é o 'pau
para toda obra' de nossa civilização moderna. É utilizado na
fabricação de fertilizantes, no refino do petróleo, na limpeza dos
metais antes da galvanização, nas baterias elétricas, na manufatura
do raiom, corantes e explosivos e em incontáveis outros produtos. A
quantidade de ácido sulfúrico utilizada por uma nação é sempre um
bom 'barômetro' do seu padrão de vida.
A manufatura do ácido sulfúrico começa
com o gás de dióxido de enxofre (S02), que pode ser
obtido de muitas maneiras:
queimando enxofre a céu aberto, aquecendo o sulfeto de ferro (FeS2),
ou como um subproduto da fundição de vários minérios. O dióxido de
enxofre (SO2) precisa então ser oxidado para formar o
trióxido de enxofre (S03), que se combina com a água para
dar ácido sulfúrico (H2SO4).
SO3
+ H2O ==> H2SO4
trióxido de enxofre + água ==> ácido sulfúrico
A principal dificuldade encontrada na
fabricação de ácido sulfúrico tem sido sempre a oxidação do dióxido
de enxofre para formar o trióxido. A reação entre o dióxido de
enxofre e o oxigênio processa-se muito lentamente nas temperaturas
ordinárias. Quando a temperatura dos gases é elevada, a reação é
realmente acelerada, mas surge outro problema. O aumento da
temperatura faz grande parte do trióxido de enxofre reverter a
dióxido de enxofre e oxigênio. A reação é reversível, e a
temperatura elevada favorece a decomposição do trióxido de enxofre,
a substância desejada. Infelizmente, a temperatura que produz o
trióxido de enxofre a uma velocidade satisfatória resulta em uma
quantidade desse composto demasiadamente pequena para garantir o
sucesso comercial do processo.
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Processo
da câmara para preparação
do ácido sulfúrico. |
A dificuldade foi superada em 1666,
indubitavelmente devido a um acidente, por
Nicolas le Fèvre e Nicolas Lémery.
Eles prepararam o ácido calcinando o enxofre em presença de um pouco
de salitre, nitrato de potássio (KNO3). O processo foi
usado em larga escala primeiramente por Ward, em 1740, em uma
fábrica situada em Richmond, perto de Londres.
Conforme se ilustra acima, Ward usou grandes câmaras de vidro de até
66 'galões' de capacidade, tendo gargalos que se projetavam
horizontalmente. O fundo continha uma pequena quantidade de água. No
gargalo havia uma peça de louça, sobre a qual foi colocado um prato
de ferro aquecido ao rubro, contendo enxofre e nitrato de potássio.
O gargalo da câmara foi então fechado com um tampão de madeira.
Quando o enxofre ficou completamente calcinado, a operação foi
repetida até que o ácido do fundo
da câmara tivesse a concentração desejada.
Sabemos hoje que o “processo da câmara”, como é chamado, faz uso de
catalisadores fornecidos pelo nitrato de potássio. O calor do prato
aquecido ao rubro decompõe o nitrato de potássio, produzindo os
catalisadores, óxido nítrico (NO) e dióxido de nitrogênio (NO2).
Além desses gases, a câmara também contém dióxido de enxofre (S02),
produzido pelo enxofre calcinado. O dióxido de enxofre reage com o
dióxido de nitrogê nio para produzir trióxido de enxofre e óxido
nítrico.
SO2 + NO2
==> SO3 + NO
dióxido de enxofre + dióxido de nitrogênio ==> trióxido de enxofre +
óxido nítrico
O óxido nítrico (NO) combina-se então
com o oxigênio na câmara, para formar o dióxido de nitrogênio uma
vez mais. O trióxido de enxofre (SO3) combina-se com a
água na câmara para produzir ácido sulfúrico.
Os catalisadores NO e NO2 não são gastos durante o
processo. Meramente provêm uma série de reações intermediárias que
ocorrem com facilidade, em lugar de uma única reação direta, que
somente ocorre com dificuldade.
Um método mais atualizado de converter
dióxido de enxofre em trióxido utiliza um catalisador diferente,
seja a platina ou certos compostos do metal vanádio. A uma
temperatura de cerca de 450oC (cerca de 840oF),
a oxidação do dióxido de enxofre para transformá-lo em trióxido
realiza-se rapidamente na presença do catalisador, produzindo quase
100 por cento de ácido sulfúrico quando combinado com água.
O conhecimento da catálise é também
responsável pelo enorme uso que se faz dos substitutos da manteiga.
Os óleos e as gorduras vegetais e
animais são, essencialmente, compostos de glicerina e de ácidos tais
como o oléico e o esteárico. Alguns desses compostos são gorduras
sólidas, enquanto outros são óleos líquidos. O composto de glicerina
do ácido esteárico, por exemplo, é um dos principais componentes do
sebo do boi, enquanto que o do ácido oléico é um líquido encontrado
no óleo de azeitonas. A única diferença entre os dois ácidos é a
quantidade de hidrogênio que contêm. O ácido oléico (que produz
óleo) difere do ácido esteárico (que produz gordura sólida) somente
porque contém menos hidrogênio. O primeiro é chamado de composto
“não saturado”, enquanto que o segundo é chamado de “saturado”.
A catálise acomoda nossa preferência
pelas gorduras sólidas facilitando a reação química que acrescenta
hidrogênio ao ácido oléico, produzindo desta maneira ácido esteárico
saturado. O catalisador que realiza a tarefa é o níquel em lâminas
finas. Em presença desse metal, vários óleos líquidos combinam-se
com hidrogênio gasoso e são convertidos em gorduras sólidas
—processo que é chamado de “hidrogenação”.
Há uma reação catalítica simples que
pode ser realizada por qualquer um em sua própria casa. Primeiro,
tente pôr fogo em um punhado de açúcar com a chama de um fósforo. O
açúcar se carbonizará mas não pegará fogo. Agora friccione o açúcar
juntamente com cinza de cigarro e tente novamente. A cinza age como
catalisador, o açúcar pega fogo muito facilmente e queima-se
vivamente. Por meio de centenas de maneiras semelhantes, os
catalisadores ajudam nossos químicos na manufatura de incontáveis
produtos essenciais ao nosso modo de vida moderno.
Morte do Espírito
Vital
O carbono, com o qual estamos
familiarizados em suas três formas físicas — carvão, grafite e
diamante — é o mais prolífico dos elementos. Seus compostos são tão
numerosos — contados por centenas de milhares — que seu estudo
desenvolveu-se em um ramo separado da Química — a química orgânica.
O nome origina-se de urna época antiga e menos científica, quando os
químicos faziam uma aguda distinção entre os compostos derivados dos
organismos vivos e os do mundo mineral inanimado. Acreditavam que os
compostos do carbono, que vêm das plantas e dos animais, somente
podiam ser sintetizados com a ajuda de uma forma especial de energia
inerente à célula viva — a chamada força vital. Ainda hoje os
místicos deliciam-se com essa concepção.
Em 1828, um jovem cientista alemão,
Friedrich Wöhler (1800 -1882),
sintetizou os primeiros compostos orgânicos fora de um
organismo vivo. A substância, uréia (NH2.CO.NH2),
tinha sido descoberta na urina em 1773, por
Rouelle. Logo que teve certeza do que estava fazendo, Wöhler
escreveu a seu mestre Berzelius: “Devo
dizer-lhe que posso preparar a uréia sem necessidade do rim de um
animal, seja ele homem ou cão.”
O mundo químico ficou surpreso com a notícia. Talvez aquele
magnífico feito novo pudesse levar à síntese dos açúcares, das
proteínas, ou da própria substância da vida.
Mas umas poucas vozes ainda fizeram
ouvir um débil protesto. Afinal de contas, Wöhler tinha partido da
amônia (NH3), que originalmente era de procedência
animal. Ela podia ter conservado suficiente “fôrça vital” para que
pudesse dar origem à uréia. Embora a discussão prosseguisse, o
protesto logo se perdeu na grande excitação da descoberta. Sabemos
hoje que a amônia pode ser produzida sinteticamente, partindo do
nitrogênio e do hidrogênio, que são inanimados. O grande feito de
Wöhler tinha eliminado os últimos vestígios de mágica da teoria da
Química. A síntese da uréia baniu finalmente os espíritos
alquimistas da Ciência. A antiga ilusão de forças misteriosas
persiste hoje apenas na astrologia e outras espécies de tolices
supersticiosas.
Segue: Coisas do átomo (Parte
5)
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