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Coisas do Átomo
(Parte 5 -
dos isômeros aos insociáveis)

Prof. Luiz Ferraz Netto
leobarretos@uol.com.br 

Isômeros: Os gêmeos não idênticos da Química
Um dos primeiros compostos novos preparados por Wöhler quando estudava com Berzelius foi o cianeto de prata. Ao mesmo tempo, outro jovem químico alemão, Justus von Liebig (1803 -1873), trabalhava no laboratório de Gay-Lussac, em Paris. Liebig sempre se tinha interessado pelos fogos de artifício, e ocupava-se com o estudo dos produtos químicos explosivos conhecidos sob o nome de fulminatos. Durante suas pesquisas, Liebig preparou um composto novo e estranho que tinha a mesma composição atômica do cianeto de prata de Wöhler, embora suas propriedades físicas e químicas diferissem grandemente. Aquilo era algo que intrigava profundamente. Como poderiam dois compostos feitos das mesmas espécies de átomos, precisamente nas mesmas proporções, ter propriedades tão diferentes? Aparentemente, a velha regra, "uma composição, um composto", já não podia ser aceita como um artigo de hipótese razoável.

Os dois jovens cientistas entraram em contato e tornaram-se amigos por toda a vida. Quando Berzelius soube da descoberta, reconheceu sua tremenda importância, e cunhou o termo isômeros para designar os compostos químicos que têm a mesma composição, mas propriedades diferentes. Despertou-se grande interesse pelo isomerismo e logo foram descobertas muitas substâncias com dúzias de isômeros. Por exemplo, mais de uma centena de compostos podem ser produzidos pela combinação de nove átomos de carvão, dez de hidrogênio e três de oxigênio. O isomerismo dos compostos do carvão ajuda a explicar a enorme quantidade de compostos na química orgânica - número este que aumenta à razão de vários milhares por ano.

A arquitetura da Química
Dalton tinha concebido a molécula como uma certa quantidade de átomos ligados de maneira a formar um padrão molecular definido. A descoberta do isomerismo feita por Liebig levou ao reconhecimento de que as propriedades de um composto dependem do arranjo particular dos átomos em uma molécula, e não apenas de sua composição. Exatamente como os tijolos podem ser dispostos em vários padrões, assim também os átomos podem ligar-se de diferentes maneiras dentro da molécula. Cada estrutura diferente produz um composto com propriedades diferentes.

Nosso conhecimento de um isômero é completo apenas quando sabemos a estrutura interna ou constituição da molécula. Somente então pode ser estabelecido um método razoável de sintetizar um composto, ou de formá-lo, partindo de materiais mais simples. Um grande progresso neste sentido foi proporcionado em 1858 por Archibald Couper e Friedrich Kekulé. Eles mostraram que o isomerismo podia ser compreendido escrevendo-se fórmulas gráficas para os isômeros. A idéia deles foi representar a união de dois átomos como uma linha (ou ponto), de acordo com a valência do átomo. Podemos ilustrar o conceito escrevendo a fórmula gráfica para o composto hidrocarboneto, metano, CH4. O metano contém um átomo de carbono e quatro de hidrogênio (a).


(a)- metano

(b)- propano

(c)- butano

(d)- isobutano

O carbono tem a valência de quatro, e o hidrogênio, um. Podemos considerar um átomo de carbono como possuindo quatro lugares distintos que têm a tendência de unir-se com outros átomos. O hidrogênio, com a valência um, dispõe apenas de um desses lugares. Assim sendo, cada linha ou ligação representa uma valência igual a um. O átomo de carbono tem quatro ligações de valência associadas com ele, ao passo que cada átomo de hidrogênio tem uma.

Outro hidrocarboneto da mesma série do metano é o propano, C3H8, que pode ser representado graficamente como em (b), na ilustração acima.
Esta fórmula também pode ser escrita de maneira mais simples, CH3.CH2.CH3, conhecida como fórmula "estrutural" ou "constitucional". Cada ponto da fórmula representa uma ligação entre átomos adjacentes de carbono na molécula. O arranjo mostrado acima é o único possível para o hidrocarboneto propano.

Mas são possíveis dois arranjos atômicos para o butano, C4 H10: butano normal e isobutano, (c) e (d) na ilustração acima. O butano tem uma cadeia direta e o isobutano tem uma cadeia ramificada.
O número de isômeros possíveis aumenta rapidamente à medida que aumenta o número de átomos de carbono. Pode haver três pentanos (C5H12), cinco hexanas (C6H14), nove heptanas (C7H16) e dezoito octanos (C8H18).

Os compostos exemplificados acima são chamados de hidrocarbonetos saturados, porque os átomos de carbono unem-se por apenas uma ligação de valência. Compostos saturados não podem aceitar hidrogênio adicional. Nos compostos não saturados, um par de átomos de carbono pode ser unido por duas ou três ligações: CH2:CH.CH3 (propeno) e CH...CH [considere os 'três pontos' na vertical](acetileno).

A química orgânica utiliza estes conceitos estruturais para sintetizar os incontáveis produtos novos que tornaram nossa vida tão agradável. Eles nos deram os antibióticos, os anestésicos e muitas outras drogas maravilhosas; milhares de corantes sintéticos; incontáveis plásticos feitos pelo homem; novos e melhores combustíveis; as "fibras miraculosas", como o nylon, orlon e dacron; borracha sintética; melhores fertilizantes e inseticidas para o agricultor; novos detergentes; e uma quantidade de produtos indispensáveis que encontram aplicação em todas as fases da atividade humana.
Tudo isto se tornou possível devido à teimosa persistência de um homem que lutou contra o dogma estabelecido de seu tempo --- a crença universal de que a "força vital" colocara para sempre os corpos orgânicos além do alcance do homem.
A história da Ciência é uma repetição de histórias de grandes homens que tiveram a visão e a coragem de duvidar das crenças sustentadas universalmente. Entretanto, os preconceitos mais profundamente enraizados parecem ser os que mais provavelmente serão destruídas. Os grandes cientistas do passado realizaram seus trabalhos mais notáveis duvidando do óbvio, e rejeitando os ensinamentos dogmáticos da autoridade. Em algum ponto dos princípios aceitos pela ciência moderna há uma falácia, e algum dia um cientista talentoso a exporá. E uma vez mais o conhecimento da natureza recentemente adquirido pelo homem explodirá em um chuveiro de benefícios para toda a Humanidade.

Átomos de 'eletricidade'
A idéia de átomos de eletricidade, ou "elétrons" , como diríamos, desenvolveu-se muito lentamente. O primeiro passo para a descoberta do elétron foi dado em 1833 pelo grande Michael Faraday (1791-1867) que começou sua carreira científica como lavador de garrafas no laboratório de Sir Humphrey Davy. Nesse mesmo laboratório Davy usara uma corrente elétrica da pilha voltaica para isolar tantos metais novos.

Uma das contribuições importantes de Faraday foi a descoberta de que a 'eletricidade' parece existir em múltiplos de pequenas quantidades definidas. A quantidade de 'eletricidade' nesses elétrons ou, quantidade de carga elétrica, para usar o termo moderno, é sempre fixa --- nunca mais nem menos que uma quantidade especificada. Faraday fez tal dedução em decorrência de experiências cuidadosas nas quais uma corrente elétrica foi passada através de vários corpos químicos dissolvidos em água --- a eletrólise das soluções aquosas.

Faraday começou com um aparelho semelhante ao abaixo ilustrado, e descobriu que algumas soluções permitem o percurso de corrente elétrica através delas, enquanto que outras não o fazem.


Aparelho de Faraday para o estudo
da eletrólise

 As substâncias cujas soluções conduzem a 'eletricidade' são chamadas de "eletrolíticas", e as que não o fazem são chamadas de "não eletrolíticas".
Faraday experimentou muitas soluções eletrolíticas, descobrindo que elas se decompõem de uma ou de outra maneira por ação da corrente elétrica. Quando tentou o sulfato de cobre, por exemplo, o cobre metálico foi depositado no elétrodo negativo da solução. Em todas essas experiências, verificou que

o peso do metal depositado é proporcional à quantidade de 'eletricidade' que passa pela solução.

Faraday deu então um passo à frente. Passou precisamente a mesma intensidade de corrente através de várias soluções diferentes e descobriu uma relação entre o número de átomos liberados pela corrente e a valência daqueles átomos.
Para ilustrar, imaginemos que a mesma quantidade de 'eletricidade' é passada através de três soluções: ácido clorídrico (HCl), sulfato de cobre (CuSO4), e cloreto de ferro (FeCI3). Se limitarmos nossa atenção ao elétrodo negativo em cada solução, três elementos são liberados: hidrogênio, cobre e ferro. O hidrogênio, sendo um gás, borbulha pela solução até a superfície, onde pode ser coletado e pesado. Os metais, cobre e ferro, coletam-se nos terminais negativos e também podem ser pesados. Se dividirmos esses três pesos pelos pesos atômicos relativos do hidrogênio, cobre e ferro, obteremos o número relativo de átomos de cada elemento liberados pela mesma quantidade de 'eletricidade'. Suponhamos que são liberados x átomos de hidrogênio. Verificamos também que (1/2). x átomos de cobre e (1/3). x átomos de ferro foram produzidos.
Os números relativos de átomos desses três elementos estão na proporção 1 : 1/2 : 1/3.

Sabemos agora que esses números estão relacionados com a valência do hidrogênio (1), cobre (2), e ferro (3), nos compostos originais HCl, CuSO4, e FeCI3. Estes resultados sugerem que cada espécie de átomo é capaz de conduzir apenas uma quantidade definida de 'eletricidade', igual a um múltiplo da carga existente em um elétron. A menor unidade de 'eletricidade' está associada com o átomo de hidrogênio. O átomo de cobre pode conduzir exatamente duas vezes aquela quantidade, e o átomo de ferro pode conduzir três vezes a mesma quantidade.

A lei de Faraday aponta claramente para a existência de uma quantidade mínima de 'eletricidade' --- de um átomo elementar de carga. Ela também sugere que as ligações de valência que mantêm juntos os átomos são de natureza elétrica.
Desta maneira, a Química estava fazendo grandes progressos sob a influência da Ciência da 'Eletricidade'.

Muitas teorias elétricas foram aventadas nos anos subseqüentes para explicar essas observações. Faraday concebeu compostos divididos em "fragmentos" pela corrente elétrica. Chamou-os de íons (que quer dizer "errantes" em grego), porque eles "passeiam" com uma carga elétrica para um elétrodo ou para o outro, na solução. Outros elaboraram teorias diferentes, mas nenhuma conseguiu aceitação universal. A explicação moderna foi aventada em 1887 por um jovem estudante sueco de Química chamado Svante Arrhenius (1859-1927). Longe de ser imediatamente aceita, a teoria iônica de Arrhenius provocou uma violenta controvérsia, que dividiu o mundo da Química. Mais tarde, Arrhenius recebeu o "Prêmio Nobel de Química de 1903" pelas suas pesquisas. Esta é a maior honra que um químico pode conquistar.

Íons versus Átomos
Em 17 de maio de 1883, Svante estava dando os retoques finais em sua dissertação para obtenção do título de doutor na Universidade de Upsala, a mesma universidade de Berzelius. Já tinha realizado centenas de experiências com eletrólitos e estava analisando cuidadosamente os resultados e escrevendo seu relatório. Então, subitamente, uma nova idéia perpassou em sua mente, e ele não conseguiu dormir naquela noite até ter examinado todo o problema. A nova doutrina que resultou daí ateou uma chama que incendiou todo o mundo da Química.

Sua nova e impressionante idéia era simplesmente esta. Quando um sal sólido, como o sal de mesa comum (cloreto de sódio) é dissolvido em água, ocorre uma mudança fundamental. A mudança --- embora invisível --- altera enormemente as propriedades da substância. Tanto a água como o cloreto de sódio são não-condutores de 'eletricidade', mas uma solução de cloreto de sódio em água é boa condutora de 'eletricidade'. Arrhenius disse que as moléculas de cloreto de sódio separam-se ou "dissociam-se" em partículas que Faraday chamou de "íons". Ele declarou ainda, que esses íons não eram causados pela corrente elétrica, mas estavam presentes na solução antes mesmo de ser passada a corrente. Somente esses íons tomam parte nas reações químicas.

Esta opinião pouco ortodoxa quase custou a Arrhenius seu grau de doutor. Exceto uns poucos amigos íntimos, todo o mundo científico rejeitou suas idéias revolucionárias. Ele argumentou que os dois íons da molécula de cloreto de sódio eram completamente separados --- livres para flutuarem independentemente em todas as direções, dentro da solução. Nenhuma molécula de NaCl estava presente; somente íons de sódio e de cloro existiam na solução.

Se as moléculas se dissociam, perguntaram os céticos, por que a solução permanece clara e branca? Onde estaria a cor amarelo-esverdeada do venenoso átomo de cloro? Arrhenius replicou que o íon de cloro é diferente do átomo de cloro, porque o primeiro contém uma carga elétrica. O átomo não tem carga elétrica, e é eletricamente neutro. A dissociação tinha dividido a molécula de NaCl em íons, em vez de átomos. Hoje em dia, designamos o íon de cloro da seguinte maneira: Cl-, com um sinal menos sobrescrito para mostrar que contém uma unidade de carga negativa. Similarmente, o íon de sódio é escrito como Na+, porque contém uma carga positiva. O número de unidades de carga elétrica em um determinado íon é igual à sua valência no composto de que procede.

Radicais químicos
A maior parte dos íons positivos consiste de apenas um elemento metálico: Li+ (lítio), Ca++ (cálcio), Al+++ (alumínio). Ainda aqui, a carga de cada íon corresponde à valência do elemento correspondente. Algumas vezes, um elemento tem mais de uma valência. O ferro, por exemplo, pode existir como íon férrico (Fe+++) ou íon ferroso (Fe++). A terminação "ico" representa a valência maior.

Íons negativos freqüentemente consistem de um não-metal, seja isolado, como para o Cl- (cloro), O-- (oxigênio), ou S--- (enxofre), ou em combinação com outros elementos, NO3-(nitrato), SO4-- (sulfato), CO3-- (carbonato), ClO3- (clorato) ou OH- (hidróxido). Embora poucos íons positivos consistam de mais de um elemento, o íon de amônio, NH4+, é muito comum. Grupos de elementos como estes, que podem ser transferidos de um composto para outro como uma unidade, são usualmente chamados de radicais.

Através da teoria iônica, os campos da Eletricidade e da Química tornaram-se estreitamente relacionados. As forças que mantêm os átomos juntos pareciam, mais do que nunca, ser de natureza elétrica. Quando um eletrólito é dissolvido em água, ele se dissocia em íons de carga elétrica igual mas oposta. Essas partículas conduzem 'eletricidade' através da solução durante a eletrólise.
A teoria também explica por que o hidrogênio e o cloro são liberados quando é passada uma corrente por uma solução de HCl. Os íons H+ são atraídos para o terminal negativo, onde sua carga é neutralizada. Isto transforma o íon H+ em um átomo de hidrogênio. Dois átomos de hidrogênio juntam-se para formar uma molécula H2 de hidrogênio gasoso, que escapa da solução. Mudanças análogas ocorrem com os íons Cl- no terminal positivo. Se um dos íons de uma solução for um metal como o cobre ou a prata, ele é depositado no elétrodo negativo. Poderosas transformações similares ocorrem cada vez que um ácido inorgânico, álcali ou sal é submetido à eletrólise.

A eletrólise é hoje usada extensivamente para incrustar metais caros em objetos feitos de metais mais baratos. É também usada para incrustar metais resistentes à corrosão como o cromo, cádmio e o níquel, em objetos feitos de metais resistentes como o aço, que de outra maneira se enferrujariam excessivamente.

A eletrólise é também responsável pela grande indústria de alumínio. Desde 1825, Wöhler tinha isolado alguns pedaços de alumínio no laboratório, mas o processo era demasiado dispendioso para aplicação comercial. O minério comum de alumínio, a bauxita, tem a fórmula Al2O3, que é semelhante ao óxido de ferro Fe2O3, ou hematita. Há séculos que os químicos sabiam que o carbono é capaz de remover o oxigênio da hematita, para produzir ferro metálico. Entretanto, o carbono não pode separar o alumínio do seu companheiro químico, o oxigênio. O alumínio tem atração muito mais forte pelo oxigênio que o carbono. Falando de outra maneira, o alumínio é um agente redutor mais poderoso que o carbono.

Se o óxido de alumínio fosse solúvel na água, teria sido possível separar o metal passando a corrente pela solução. Infelizmente, a bauxita não se dissolve na água. Mas mesmo esta dificuldade pode ser vencida se o composto puder ser fundido a uma temperatura razoavelmente baixa. Como as soluções aquosas, os compostos fundidos também podem conduzir 'eletricidade'. Lamentavelmente, a bauxita funde-se a uma temperatura muito elevada --- demasiado elevada para ser comercialmente praticável.
O impasse foi contornado em 1886 pelo jovem químico Charles Martín Hall, que teve uma idéia original. Talvez ele pudesse encontrar na natureza um mineral que dissolvesse o óxido de alumínio a uma temperatura razoavelmente baixa. Trabalhando no barracão de madeira de seu pai, ele tentou um mineral após outro. Logo ele surgiu com uma rocha branca e de aspecto vítreo da Groelândia, chamada criolita. Ela se funde facilmente e, quando a bauxita foi lançada sobre ela, rapidamente se dissolveu. Com grande excitação, Hall passou uma corrente elétrica pela solução quente e viu alumínio branco e metálico depositar-se no elétrodo negativo!
Usando seu novo processo, Hall organizou uma companhia para fabricação de alumínio, que foi chamada de Aluminum Company of America. Esta é, ainda hoje, o maior produtor de alumínio do mundo. Utilizando o processo de Hall, os produtores fazem milhões de toneladas de alumínio todos os anos, vendendo-o a poucos pence a libra.

Na tabela periódica existem muitos metais cuja extração do minério é ainda custosa e ineficiente. Talvez um lampejo de gênio na mente de algum jovem químico possa logo liberar um ou mais deles para o serviço do homem. As rochas comuns que nos cercam contêm riquezas que podem ser reveladas por um cientista que tenha a idéia certa.

Linhas estranhas no espectro da luz
Ao lado da 'eletricidade', o estudo da luz encontrou finalmente o caminho da Química. Em 1802, W. H. Wollaston (1766 -1828) observou faixas escuras no espectro da luz solar --- luz esta que tinha passado por um prisma. Ele presumiu que tais faixas fossem os limites das cores naturais. Em 1814, o fabricante bávaro de instrumentos, Joseph Fraunhofer (1787 -1826) construiu um poderoso instrumento ótico novo, chamado espectroscópio, e fez cuidadosas observações com ele. Conforme ilustramos abaixo, um feixe de luz é formado por meio de uma estreita ranhura e uma lente. Essa estreita faixa de luz é passada por um prisma e vista através de um pequeno telescópio. A luz é refratada pelo prisma, sendo cada cor infletida em grau diferente.


O espectrocópio

O observador vê tantas linhas quantas são as cores (ou comprimentos de onda) existentes na fonte de luz. A luz branca comum dá uma quantidade infinita de linhas, que se juntam ou sobrepõem para formar um espectro contínuo. Mas quando Fraunhofer observou a luz solar através de seu espectroscópio, descobriu muitas linhas escuras no espectro, como se certas cores estivessem faltando. Essas linhas mantinham sempre a mesma posição no espectro --- cada uma correspondendo a um determinado comprimento de onda que, de alguma maneira, tinha desaparecido da luz solar. ele constatou as mesmas linhas escuras em todas as formas de luz solar, direta ou refletida pelas nuvens, pela Lua ou pelos planetas. Entretanto, estranhamente, os espectros das estrelas tinham distribuições diferentes de linhas.

Em 1859, Gustav Kirchoff (1824 -1887), trabalhando com Robert Bunsen (1811 -1899), mostrou que há uma conexão entre essas linhas e certas espécies de matéria. Kirchoff vaporizou vários elementos em uma chama não-luminosa, e descobriu que cada elemento produz uma série característica de linhas brilhantes, quando vista através de um espectroscópio. Enquanto um sólido incandescente produz um espectro contínuo de todas as cores, um elemento vaporizado produz apenas uma série de linhas brilhantes discretas. A localização de tais linhas brilhantes no espectro - seu padrão de cor - é diferente para cada elemento. Estava ali, então, um modo novo e maravilhoso de detectar a presença de um elemento pelas linhas brilhantes reveladoras que ele emite. Como essas linhas são emitidas por substâncias vaporizadas, são chamadas "espectros de linha brilhante" ou "de emissão".
Kirchoff mostrou também que as linhas brilhantes relacionavam-se com as linhas escuras observadas por Wollaston e Fraunhofer no espectro solar. Ele descobriu que os elementos, em sua forma gasosa, são capazes de absorver os mesmos comprimentos de onda (cores) que são capazes de emitir, e somente esses. Quando a luz solar passa através da atmosfera do Sol, os elementos gasosos daquela atmosfera absorvem certos e determinados comprimentos de onda. Isto acarreta linhas escuras correspondentes no espectroscópio, em contraste com o fundo brilhante do espectro contínuo. Por exemplo, o sódio produz duas linhas amarelas bastante próximas, quando é vaporizado em uma chama. Mas se a luz incandescente (que contém todos os comprimentos de onda) passar através de vapor de sódio, a luz correspondente às duas linhas amarelas é absorvida e não pode atingir o espectroscópio. O espectro resultante é chamado de "espectro de linha escura" ou "de absorção". Com a descoberta dos espectros de linha escura e de linha brilhante, tornou-se possível analisar quimicamente a atmosfera do Sol e das estrelas, bem como as substâncias da Terra.

Os elementos insociáveis
A análise espectral da luz do Sol mostrou que a cromosfera, um envoltório de gás incandescente em torno do Sol, consiste principalmente de hidrogênio, cálcio e algo que dá uma linha espectral amarela não observada anteriormente na Terra. Joseph Lockyer (1836 -1920) concluiu em 1868 que a linha era causada por um elemento novo, que ele chamou de helium, palavra grega que significa "sol". Não obstante, o hélio não foi aceito imediatamente como um novo elemento. Mendeléev nem mesmo o incluiu em sua tabela, porque ele não se ajustava a nenhuma coluna. Mais tarde, Hillebrand descreveu um gás expelido pela cleveíte. William Ramsay (1852 -1916) obteve uma amostra do gás do mesmo mineral, vaporizou-a e detectou a linha espectral do hélio de Lockyer. Tinha descoberto um novo elemento, que não se combina com qualquer outro elemento para formar um composto; um elemento que não se enquadra em nenhum lugar da tabela periódica de Mendeléev. Aquele era o primeiro de uma série de estranhos novos elementos, jamais sonhados em toda a história, elemento esse que foi primeiramente detectado pela análise espectroscópica do Sol.

Em 1892, Lorde Rayleigh (1842 -1919) observou que o nitrogênio do ar é mais denso que o nitrogênio dos compostos químicos. Talvez o gás atmosférico que resta quando são extraídos do ar o oxigênio e o dióxido de carbono não seja nitrogênio puro. Talvez esse gás seja uma mistura de nitrogênio com um ou mais gases até então não descobertos. Lorde Rayleigh e Ramzay planejaram uma série de investigações para isolar o gás desconhecido. Fizeram passar o nitrogênio do ar sobre magnésio quente, que se combina com o nitrogênio para formar nitrito de magnésio, Mg2N2. Quando todo o nitrogênio já se esgotara, ainda restava uma pequena quantidade de gás. Esse gás, que não combinava com qualquer elemento conhecido, foi chamado de argônio, da palavra grega argos: inerte ou inativo. O argônio era cerca de dez vezes mais pesado que o hélio.

Depois da descoberta do hélio e do argônio, Ramsay concluiu que devia existir uma família inteiramente nova de elementos. Predisse, e mais tarde descobriu (juntamente com Travers), três novos gases: neônio, criptônio e xenônio. Todos os três foram obtidos do ar líquido em quantidades extremamente pequenas. Em 1909, Ramsay e Gray descobriram um sexto gás da família, o rádon radioativo, que é emitido pelo rádio. Como os outros gases inertes, o rádon (radônio) revelou-se quimicamente inativo.

Os seis gases chamados nobres - jamais sonhados, mesmo por Mendeléev - constituíam um novo e estranho grupo de elementos. Mais tarde, foi chamado de grupo zero da tabela periódica. Esses elementos insociáveis recusavam-se a unir com os metais sódio e potássio, que são extremamente ativos. Mesmo o flúor, o mais violento dos não-metais, não podia induzi-los a formar compostos. Além de serem ermitões químicos, esses elementos do grupo zero são incolores e inodoros. Não admira que sua presença tivesse escapado a qualquer observação durante tanto tempo.

A despeito de sua inércia aparente, os elementos do grupo zero estão desempenhando trabalho importante. Vários deles são usados nos sinais elétricos; o hélio provê um substituto seguro e efetivo para o hidrogênio utilizado nos balões; e o argônio é usado nos bulbos das lâmpadas elétricas, para aumentar sua duração.

Desde a publicação da Tabela Periódica dos Elementos de Mendeléev, vinte e três novos elementos foram descobertos, elevando o total para oitenta e seis. A teoria atômica de Dalton foi comprovada no laboratório e levou a um conhecimento novo e profundo da própria substância do mundo. Materiais novos e maravilhosos surgiram dos tubos de ensaio, modificando completamente o modo de vida antigo. A Química assumiu seu lugar de direito, ao lado da Física, da Astronomia e das matemáticas, como uma atividade dinâmica e frutífera do espírito científico. Mas ainda havia muitas perguntas não respondidas. O átomo supostamente imutável apresentava provas inconfundíveis de modificação, transformando-se a si mesmo de átomo para íon. Como podiam as propriedades do cloro modificar-se tão drasticamente entre os dois estados? Como a 'eletricidade' desempenha seu papel nesse mistério? Por que a 'eletricidade' se propaga em íons e não em átomos?
Perguntas desta espécie deixavam perplexos os grandes espíritos da época. Sua solução levou eventualmente à grande explosão do conhecimento científico que o mundo está agora (e sempre) presenciando. Mas antes de discutirmos as relações entre a 'eletricidade' e a matéria, é importante retomar o fio de nossa história, que havia sido interrompido com a derrubada do flogístico. O elemento fogo já não era um elemento; mas ainda exigia uma explicação, pois a vida e toda atividade humana somente se processam com sua ajuda.
Voltemos, portanto, ao estudo desta quantidade importante e 'misteriosa', o calor.

Nota: Era 1962, Meil Bartlett, da Universidade da Colúmbia Britânica, produziu um composto de xenônio, platina e flúor. A química dos gases nobres inclui agora muitos compostos, e promete ainda lançar nova luz sobre a natureza da ligação química.

*** Segue Gelo, água e vapor postos a trabalhar ***
 

 


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