A
eletrólise
é um processo eletroquímico, caracterizado pela
ocorrência de reações de oxi-redução em uma
solução condutora quando se estabelece uma diferença de
potencial elétrico entre dois (ou mais) eletrodos
mergulhados nessa solução. Vale lembrar que a
denominação solução eletrolítica, empregada para
designar qualquer solução aquosa condutora de
eletricidade, deriva justamente desse processo.
Além de sua
larga aplicação industrial, a eletrólise se revela
bastante adequada e interessante para demonstrações em
feiras de ciências, pois não requer montagens
complicadas e pode ser observada visualmente (junto aos
eletrodos) enquanto ocorre.
O
entendimento da eletrólise só é possível se conhecermos
o comportamento de todas as substâncias envolvidas no
processo, pois cada substância se comporta de
determinada maneira quando em solução e, em especial,
quando uma corrente elétrica atravessa essa solução. Por
exemplo: você saberia dizer por que a água deve ser
acidulada, para a eletrólise, com algumas gotas de ácido
sulfúrico ou nítrico, e não com ácido clorídrico? Ao
final desta exposição, você será perfeitamente capaz de
responder a essa pergunta.
Voltemos às
condições do experimento, supondo que a cuba contenha
água pura. Como sabemos, a água pura não é condutora de
eletricidade, e portanto devemos adicionar a essa água
alguma substância de modo a obtermos uma solução
condutora. Vamos então acidular essa água
(adicionar ácido), conforme as instruções.
Ácidos, pela definição
de Lewis, são substâncias que, em solução aquosa,
liberam apenas um tipo de cátion, o H+.
Essa definição não traduz exatamente o que ocorre na
realidade, mas é suficiente para escrevermos as equações
simplificadas da eletrólise e assim desvendá-la.
Pois bem:
quando um ácido entra em solução aquosa, sofre
ionização, liberando nessa solução cátions H+
e, com o "desmonte" da molécula, ânions (os ânions que
lhe dão nome, que diferem, é claro, de um ácido para
outro). Tomemos o ácido nítrico, por exemplo:
Como se
observa, o ânion nitrato (que dá nome ao ácido nítrico),
com a ionização, separa-se do cátion H+.
Esses íons (cátions e ânions) possuem grande mobilidade,
e são eles os responsáveis pelo transporte de carga
elétrica através da solução quando a corrente começa a
circular.
A água, por
sua vez, também apresenta um comportamento um tanto
especial: está sempre se "descombinando" e se
recombinando, de modo que sempre há um pequeno número de
moléculas, em qualquer amostra de água, que se apresenta
decomposta da seguinte maneira:
Observemos
então a figura abaixo, supondo a fonte de baixa tensão
(6 volts de corrente contínua) já em funcionamento: os
cátions (íons positivos) são atraídos para o eletrodo
negativo (catodo), enquanto os ânions provenientes do
ácido (NO3-) e da própria água (OH-)
são atraídos para o eletrodo positivo (anodo).
Vamos
analisar o que acontece no eletrodo negativo. Carregado
de elétrons, por ação da fonte CC, o catodo começa a
transferir esses elétrons para os íons H+,
que passam então para a forma H0 (reação de
redução). Nessa forma, porém, o elemento
hidrogênio não é quimicamente estável, e assim, buscando
a estabilidade química, esses átomos começam a se
combinar entre si, formando moléculas de gás hidrogênio
(H2). É fácil ver as bolhas de gás se
formando junto ao eletrodo – e se acumulando na parte
mais alta do tubo de ensaio, já que este se encontra
emborcado sobre o eletrodo. A reação pode ser escrita,
de forma simplificada, da seguinte maneira:
O eletrodo
positivo, simultaneamente, começa então a absorver os
elétrons "em excesso" dos ânions próximos, fechando
assim o circuito – enquanto os elétrons circulam nos
condutores, são os íons que transportam as cargas
elétricas na solução, levando-as aos eletrodos. Como se
vê, a função da fonte CC é, na prática, retirar elétrons
dos ânions (oxidação) e entregá-los aos cátions
(redução). (Lembre-se: "oxidar-se é perder elétrons".)
Analisemos
agora a reação ocorrida no anodo. Para que possamos
entendê-la, porém, faz-se necessário um esclarecimento:
os ânions apresentam uma ordem de prioridade para
entregarem seus elétrons ao anodo (ordem de descarga) e,
no caso, o ânion OH- (hidroxila) tem
prioridade sobre o NO3- (radical
nitrato). Essa ordem de prioridade para descarga de
ânions foi estabelecida experimentalmente (realizando-se
centenas de eletrólises em solução aquosa, em
laboratório), chegando-se à seguinte seqüência:
Resumindo:
afora as exceções mostradas no quadro acima, ânions
não-oxigenados descarregam-se antes da hidroxila, e
oxigenados, depois. E é graças à prioridade da hidroxila
sobre o radical nitrato (ânion oxigenado), nas condições
do experimento, que será possível a obtenção do gás
oxigênio (O2), no anodo, segundo a seguinte
reação (oxidação):
Convém
ilustrar melhor a "quebra" da hidroxila:
Perceba que não faz diferença
escrevermos O0 (elemento oxigênio) ou ½ O2
(gás oxigênio), pois o que se deseja, quando se escreve
uma equação química, é apenas exprimir
proporcionalidade, significando, nesse caso, que são
necessários 2 moles de átomos do elemento oxigênio (O0)
para formar 1 mol de moléculas de oxigênio gasoso O2
;logo, são necessários 4 moles de íons hidroxila para a
formação de 1 mol de moléculas de gás oxigênio (para
visualizar melhor essa proporcionalidade, basta
multiplicar ambos os membros da equação do anodo por 2).
Além disso, cabe destacar que a formação do elemento
oxigênio (O0) é uma etapa intermediária da
formação do gás oxigênio (O2), e por isso,
usualmente, é omitida quando escrevemos a reação do
anodo, na qual são apresentados apenas os produtos
finais.
Aproveito a oportunidade para
apresentar uma montagem acessível, utilizando duas
garrafas de vidro ou plástico (de boca larga), uma cuba
plástica, fios de cobre encapado comum, dois eletrodos
de platina (ou duas 'bijoterias' banhadas a outro),
bateria de 6V, interruptor e solução ácida:
De
posse desse conhecimento, podemos então responder ao
desafio formulado na descrição do experimento:
por que não seria adequado
utilizarmos o ácido clorídrico, em solução aquosa, para
eletrolisar a água?
A resposta é
simples: ao sofrer ionização, o ácido clorídrico (HCl)
liberaria na solução cátions H+ (o que está
de acordo com o objetivo de obter gás hidrogênio, no
catodo) mas, em contrapartida, liberaria também ânions
cloreto (Cl-). Ora, sendo o cloreto um ânion
não-oxigenado, este se descarregaria antes da
hidroxila, e teríamos a formação de gás cloro (Cl2)
no anodo. Esse processo seria útil se quiséssemos mesmo
obter cloro gasoso, mas fica claro que, acidulando-se a
água com ácido clorídrico, só seria possível eletrolisar
(decompor) o ácido – e não a água, como se deseja para o
experimento proposto.
A formação
do Cl2 no ânodo, em lugar do O2,
não possibilitará a combustão do hidrogênio durante a
faísca, pois o Cl2 não é comburente.
Finalizando,
sugerimos a você que faça uma pesquisa sobre a
eletrólise, principalmente no que se refere à preparação
da solução eletrolítica com um sal (que também torna a
água pura condutora) no lugar do ácido – diferente,
portanto, do que já descrevemos. Você descobrirá que tal
preparação atende a outros objetivos, pois em uma
solução salina encontram-se outros cátions (diferentes
do H+) e, assim como no caso dos ânions (que
se descarregam antes ou depois da hidroxila), existe
também uma ordem de prioridade para a descarga dos
cátions (no caso, antes ou depois do H+).
Procure relacionar essa ordem de descarga com os
objetivos de cada eletrólise, pois além do gás
hidrogênio (cuja obtenção já descrevemos), também é
possível obter metais com alto grau de pureza no catodo,
dependendo da preparação da solução eletrolítica (você é
capaz de imaginar a importância econômica de um processo
que permite isolar e/ou purificar metais nobres?).