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Simplesmente Química
Prof. Luiz Ferraz Netto [Léo]
luizferraz.netto@gmail.com
leobarretos@uol.com.br
Química 4- Calor de
reação (parte 1)
Não é possível medir-se a energia
química diretamente, mas é fácil medir energia quando ela se
transfere sob a forma de calor. Suponhamos, portanto, que se permita
que uma reação particular ocorra num recipiente fechado, após ter
sido iniciada, digamos, por meio de um brusco aquecimento mediante o
uso de um resistor (efeito Joule). Este recipiente fechado estaria
circundado por uma determinada quantidade de água, a qual é agitada
constantemente. O sistema todo — recipiente onde ocorre a reação
mais envoltório de água — estaria isolado do ambiente externo, para
tornar mínimas as perdas de calor, ou os ganhos de calor, deste
ambiente externo.
Suponhamos que a mistura de reação que
foi colocada no recipiente seja uma mistura de hidrogênio e
oxigênio. A combinação dá-se violentamente, assim que se aciona a
ignição, e o resultado é a formação de água. A energia química
representada pelas ligações químicas presentes nas moléculas de
hidrogênio e oxigênio é maior do que aquela contida nas ligações
existentes na molécula de água. Portanto, quando passamos de uma
mistura de hidrogênio e oxigênio para água, perdemos uma certa
quantidade de energia química. Mas esta perda de energia química é
exatamente equilibrada por um ganho equivalente de energia térmica.
Como resultado do aparecimento desta
energia térmica no interior do recipiente, a temperatura da água que
envolve este sobe a um nível maior. A agitação garante que este
nível maior de temperatura seja atingido o mais rapidamente
possível, e que todas as partes da água atinjam a mesma temperatura.
A isolação térmica do conjunto garante que toda elevação na
temperatura da água seja mesmo proveniente da energia liberada no
interior do recipiente, por ocasião da reação, e não de alguma
energia extra proveniente do ambiente externo.
Medindo-se a elevação da temperatura no
volume conhecido de água, determina-se a quantidade de energia
transferida durante a reação. A essa quantidade de energia
transferida (dessa forma) dá-se o nome de Calor de Reação;
isto, automaticamente, mede a variação de energia química
ocorrida no sistema. Na verdade, a energia desenvolvida pela reação
pode não se manifestar inteiramente na forma de calor sensível
(responsável pela variação de temperatura). Na combustão, geralmente
ocorre a formação de uma quantidade considerável de luz (outra
manifestação da energia térmica produzida), além do calor sensível.
Dentro do recipiente fechado, porém, qualquer luz formada é
rapidamente absorvida pelas paredes, sendo re-convertida em energia
térmica, sob a forma de calor. (No caso pouco provável de que uma
reação envolva um ganho de energia química, ele deverá ser
equilibrado pelo desaparecimento de uma quantidade equivalente de
calor sensível (*), e
conseqüente queda da temperatura da água circundante.)
(*)
- Lembramos que: calor sensível = calor trocado em virtude de
diferenças de temperatura; calor latente = calor trocado (recebido
ou fornecido) sob temperatura constante, às custas de mudanças de
estado de agregação. A 'espécie' calor é uma só, seus efeitos podem
ser diferentes (variação de temperatura ou mudança de estado).
Um recipiente deste tipo é um
calorímetro (medida do calor, em
latim), e os estudos relativos a este tipo de dispositivo são
chamados de Calorimetria. Uma vez que
as reações que ocorrem no interior da câmara de um calorímetro
geralmente são tão rápidas que chegam a ser explosivas, esta câmara
recebe o nome de bomba, e o dispositivo todo é chamado de
calorímetro de bomba.
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Um
calorímetro de bomba |
A técnica calorimétrica moderna
originou-se das experiências do químico dinamarquês
JuliusThomsen, e do químico francês
Pierre Eugène Marcelin Berthelot que
realizaram centenas de determinações calorimétricas na segunda
metade do século dezenove.
Medindo o calor de reação envolvido na
conversão de uma mistura de hidrogênio em água, não se determina
verdadeiramente a quantidade de energia química presente na mistura
dos dois gases ou na água. Mede-se apenas a variação de
energia química quando se dá a transformação, a diferença
entre os níveis de energia química da mistura de hidrogênio e
oxigênio, de um lado, e da água, do outro lado. Na verdade, esta
variação ou diferença é a única coisa que interessa ao
químico, pois, pela segunda lei da termodinâmica, qualquer trabalho
a ser extraído de uma reação química depende única e exclusivamente
da diferença entre os níveis de energia química, assim como o
trabalho que pode ser obtido de uma máquina térmica depende da
diferença entre os níveis de energia térmica (ou seja, da diferença
de temperatura).
Na física e na matemática, uma
variação de qualquer quantidade costuma ser representada, muitas
vezes, pela letra grega “delta” (D),
colocada antes do símbolo representativo da grandeza em questão.
Delta, que equivale ao nosso “D”, simboliza “diferença”.
Assim, se representamos a energia pelo símbolo E, uma
diferença de energia seria simbolizada como
DE,
o que se lê “delta E”. No caso da reação de hidrogênio com oxigênio,
produzindo água, de poderia representar a energia química perdida no
processo, ou a energia térmica ganha. Neste caso, estes dois tipos
de energia são numericamente iguais.
No entanto, as medidas dos calores de
reação podem ser realizadas de dois modos diferentes. As
substâncias que irão sofrer a reação química podem ser mantidas a
volume constante, como, por exemplo, nos calorímetros. A bomba do
calorímetro não altera o seu volume no decurso da reação. Se a
quantidade de gás presente (as experiências calorimétricas
geralmente lidam com gases ou vapores) aumenta em conseqüência da
reação, o volume assim mesmo terá que permanecer o mesmo: a pressão
aumenta. Se a quantidade de gás diminui, o volume precisando ficar
constante, a pressão terá que diminuir. O símbolo,
DE,
refere-se especificamente à variação de energia considerada nestas
condições de volume constante e pressão variável. (Às vezes, usa-se
o símbolo DU,
mas continuaremos com a representação
DE.)
Por outro lado, pode-se imaginar uma
reação que seja realizada num vaso fechado, de maneira estanque, por
meio de um pistão sem atrito, que poderá subir e descer livremente.
Num dispositivo destes, a pressão não poderá mudar, pois ela sempre
terá que equilibrar o peso do pistão, o qual naturalmente não se
altera. Se a pressão tender a aumentar, o pistão se elevará o
suficiente para permitir que o volume aumente, e que a pressão volte
novamente ao valor de equilíbrio. Quando a pressão cai, o pistão
desce, diminuindo o volume, e fazendo a pressão aumentar até o ponto
de equilíbrio, novamente. Em tais condições, independentemente da
maneira como variam as quantidades de gás no decurso da reação, a
pressão permanece constante, e apenas o volume varia. A reação se dá
sob pressão constante e volume variável.
Ora, um mol de qualquer gás tende sempre
o ocupar um volume fixo (que, aliás, é igual a 22,7 litros), quando
a pressão é a pressão atmosférica normal, pois existe sempre um
determinado número de moléculas de gás por litro de volume, a uma
dada pressão, não importa qual seja o tamanho ou a complexidade
destas moléculas. Na reação de hidrogênio e oxigênio:
2H2 + O2
a
2H2O
temos dois moles de hidrogênio reagindo
com um mol de oxigênio, com a formação de 2 moles de água
(naturalmente, à temperatura em que é realizada a reação, esta água
está no estado gasoso — na forma de vapor). A mistura gasosa
original contém um total de três moles de gás, a água formada só tem
dois moles. Portanto, o volume diminui de um terço. (A massa não
varia; o que acontece é que, depois da reação, três átomos estão
contidos em uma só molécula: na água os átomos estão arranjados de
forma mais compacta do que na mistura original, onde cada molécula
continha apenas dois átomos.)
Numa câmara de pistão, esta diminuição
de volume seria representada por uma descida do pistão, e a pressão
ficaria constante. Na bomba de um calorímetro, onde o volume não
pode diminuir, a pressão é que diminuiria de uma terça parte. Talvez
isto fique mais claro com a ilustração a seguir:
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Combinação de hidrogênio e oxigênio, a pressão constante
e a volume constante. |
A variação de energia que se mede não é
a mesma nestes dois casos. Ela é maior quando medida a pressão
constante do que quando medida a volume constante. O símbolo para
uma variação de energia medida a pressão constante é
DH,
onde H representa o “conteúdo calorífico” (de “heat”, calor em
inglês); costuma-se, às vezes, chamar esta grandeza de “entalpia”.
Assim, para uma reação dada,
DH é maior do que
DE.
A relação entre eles pode ser expressa matematicamente, e é possível
calcular um destes valores a partir do outro, sem muita complicação.
Na natureza, as reações geralmente se
dão sob pressão constante; a pressão reinante, no caso, será aquela
do ar atmosférico, que se mantém praticamente constante no local da
experimentação. Por este motivo,
DH
é a grandeza mais útil para o químico, dentre as duas, e quando se
obtém um valor de DE,
por calorimetria, costuma-se convertê-lo, por cálculo, num valor
correspondente de DH.
Também surge a pergunta:
para que quantidade de material devemos
calcular o valor de
DH?
Obviamente, quando se queima dez gramas de hidrogênio em oxigênio,
haverá uma liberação de energia térmica dez vezes maior do que se
apenas um grama de hidrogênio fosse queimado. Além disto, como
poderemos comparar o calor desenvolvido quando se queima hidrogênio
com aquele produzido na combustão de carbono? Se compararmos a
combustão de um grama de hidrogênio com aquela de um grama de
carbono, haveria a seguinte situação: um grama de hidrogênio
conteria doze átomos de hidrogênio para cada átomo de carbono
contido em um grama de carbono.
Os químicos decidiram que os resultados
mais úteis são obtidos quando se determina o calor de reação
em base molar; ou seja, quando se compara o calor de reação
de um mol de hidrogênio, que queima em oxigênio, com aquele de um
mol de carbono, também queimado em oxigênio. Os pesos, neste caso,
poderão ser diferentes, mas o número de moléculas envolvidas é o
mesmo nos dois casos, e isto é o que importa.
Portanto,
DH
geralmente representa o calor molar de reação a pressão constante.
Ou seja: a variação de 'conteúdo calorífico' envolvida quando um mol
da substância que nos interessa no momento toma parte numa reação.
Para passarmos ao terreno dos casos
reais, consideremos mais uma vez a combinação do carbono com
oxigênio:
C + O2
a
CO2
O calor molar de reação envolvido é
DH
= 94,03 quilocalorias. Para que a reação fique completa,
convém incluir esta quantidade na equação, pois a combinação de
carbono e oxigênio produz não apenas dióxido de carbono, mas também
energia, na forma de 'calor' e luz. Portanto, poderíamos escrever a
equação assim:
C + O2
a
CO2 + 94,43 kcal
Isto pode ser lido assim: um mol de
carbono mais um mol de oxigênio dão um mol de dióxido de carbono
mais 94,03 quilocalorias; ou (a mesma coisa em outras palavras): 12
gramas de carbono mais 32 gramas de oxigênio fornecem 44 gramas de
dióxido de carbono mais 94,03 quilocalorias.
Mais comumente, o calor de reação não é
incluído na equação propriamente dita, mas indicado do lado, como
entidade separada:
C + O2
a
CO2
DH
= - 94,43 kcal
Note-se que o
DH
é dado como uma quantidade negativa. É preciso discutir um
pouco esta peculiaridade. Quando o carbono e o oxigênio se combinam,
a energia química do sistema diminui, mas a energia térmica aumenta.
Se você se concentra apenas na energia química, considerará a
variação de energia como sendo uma grandeza negativa;
concentrando-se no patrimônio da energia térmica do sistema, porém,
você será obrigado a admitir que a variação de energia é positiva. O
número (quantidade) é o mesmo nos dois casos, e não importa usar o
sinal positivo ou negativo, contanto que você mantenha o mesmo
sinal, não mudando de um para o outro. Por algum tempo, alguns
químicos usaram o sinal positivo para uma reação que libertava calor
(exotérmica), como é o caso da combustão, enquanto outros usavam
sinal negativo. Isto, naturalmente, criou confusão; agora, a
convenção geral é usar o sinal negativo neste caso [a reação libera
calor às custas (-) da energia química do sistema].
Um modo 'algébrico' de se ver isso poderá ser:
DH
= Hfinal - Hinicial . Na exotérmica, Hinicial
> Hfinal, de modo que
DH
< 0; na endotérmica, o inverso.
A seguir, consideremos a queima do
hidrogênio. Ela pode ser expressa de duas maneiras, ambas envolvendo
equações balanceadas:
2H2 + O2
a
2H2O
H2 + (1/2)O2
a
H2O
Os químicos geralmente estão
interessados no calor desenvolvido pela combustão de um mol de
hidrogênio; portanto, empregam a segunda equação, que justamente
contém apenas um mol de hidrogênio. (Para quase todos os outros
propósitos, exceto o cálculo do calor de reação, a primeira
equação é preferível.)
Muito bem, então; de acordo com as
medidas calorimétricas, podemos escrever:
H2 + (1/2)O2
a
H2O DH
= - 68,37 kcal
(Este é o calor de reação quando se
permite que a água formada se resfrie e condense, libertando o calor
latente de vaporização. Se a água for mantida no estado de vapor, o
calor latente de vaporização não pode ser adicionado ao total, e
DH
vale apenas - 57,8 quilocalorias. Tais refinamentos, porém, embora
muito importantes para os químicos, não precisam nos causar dor de
cabeça.)
Segue:
Química 5- Calor de reação
(parte 2)
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