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Simplesmente Química
Prof. Luiz Ferraz Netto [Léo]
luizferraz.netto@gmail.com
leobarretos@uol.com.br
Química 5- Calor de
reação (parte 2)
Quando comparamos o calor de
reação correspondente à queima de carbono com aquele da combustão de
hidrogênio, esta comparação está sendo feita de mol para mol. Um mol
de carbono que queima liberta quase 50% a mais de calor do que um
mol de hidrogênio que queima. No entanto, um mol de carbono pesa
doze gramas, enquanto um mol de hidrogênio pesa apenas 2 gramas.
Se comparássemos as duas substâncias grama a grama, verificaríamos
que um grama de carbono, ao queimar, forneceria 94,03/12, ou seja,
cerca de 7,8 quilocalorias, enquanto um grama de hidrogênio
forneceria um calor igual a 68,37/2, ou 34,2 quilocalorias.
Portanto, numa base de 'peso' (que é a base de comparação natural
para o leigo em química; para os mais leigos ainda, não existe nem a
distinção entre peso e massa), a combustão do hidrogênio forneceria
quase 4½ vezes mais energia do que aquela do carbono. Está aí um
exemplo de como é importante, quando se faz comparações, saber
exatamente o que é que se está comparando.
O carvão é quase carbono puro e o
hidrogênio, naturalmente, é hidrogênio. Existem, porém, combustíveis
importantes, com moléculas contendo mais do que um tipo de elemento.
As várias frações do petróleo — gasolina, querosene, óleo
combustível — têm moléculas que contêm tanto carbono como
hidrogênio. A madeira é constituída de moléculas contendo carbono,
hidrogênio — e também oxigênio. Tais moléculas, embora sejam mais
complexas, não introduzem novos princípios.
Como exemplo, consideremos o metano, um gás que constitui a maior
parte do “gás natural” usado muito em fogões e fornalhas à gás,
empregados para cozinhar alimentos e para aquecer casas. A molécula
de metano consiste de um átomo de carbono e de quatro átomos de
hidrogênio (CH4). A equação representativa da sua
combinação com oxigênio seria:
CH4 + 2O2
a
CO2 + 2H2O
DH
= - 210,8 kcal
Como se observa, forma-se dióxido de
carbono e água (observa, também, que a equação está balanceada).
Em base molar, o metano fornece mais
calor do que carbono ou hidrogênio, simplesmente. No entanto, o peso
molecular do metano é igual a 16 (que é a soma de 12, do carbono,
mais 4, dos quatro hidrogênios). Portanto, um grama de metano
fornece, ao queimar, 210,8/16, ou 13,2 quilocalorias. Isto é
mais do que o calor liberado pela combustão de um grama de
carbono, e menos do que aquele liberado quando se queima um
grama de hidrogênio. Aliás, isto é o que se esperaria de um material
constituído, em parte, de carbono e, em parte, de hidrogênio.
Um exemplo de uma molécula ainda mais
complicada é o caso do álcool etílico (aquela substância 'familiar'
contida na cerveja, no vinho e na caninha que alguns de nós
costumamos tomar ... às vezes), que consiste de dois átomos de
carbono, seis de hidrogênio, e um átomo de oxigênio (fórmula C2H6O).
A equação da combustão é a seguinte:
C2H6O + 3O2
a
2CO2 + 3H2O
DH
= - 327,6 kcal
O peso molecular do álcool etílico é 46
(24 para os dois carbonos, mais 6 para os seis hidrogênios, mais 16
para o oxigênio), de modo que um grama de álcool etílico, ao
queimar, fornece 327,6/46, ou 7,1 quilocalorias. Isto é bem
menos do que o calor liberado pela combustão de um grama de
hidrogênio ou de metano. É menos até mesmo do que o calor liberado
pela queima de um grama de carbono.
A razão para isto é que já existe um átomo de oxigênio na molécula
do álcool, de modo que podemos encarar esta molécula como já
parcialmente 'queimada', por assim dizer. Os átomos de carbono e
hidrogênio na molécula já estão combinados com um dos átomos de
oxigênio necessários, no total, para a formação de dióxido de
carbono e água.
As transformações químicas não precisam,
necessariamente, envolver oxigênio, para poderem libertar um calor
de reação (embora aquelas que envolviam oxigênio fossem as primeiras
a chamarem a atenção dos 'químicos'). De fato, qualquer
transformação química possui um certo calor de reação. Poderíamos,
por exemplo, escrever equações representativas da combinação de
hidrogênio e cloro, formando cloreto de hidrogênio, e da combinação
de sódio e cloro, com formação de cloreto de sódio. O
DH
associado com a primeira reação é - 22,06 quilocalorias (para a
formação de um mol de cloreto de hidrogênio a partir de meio mol de
hidrogênio e meio mol de cloro); o
DH
associado à segunda reação é -
98,3 quilocalorias (para a formação de um mol de cloreto de sódio a
partir de um mol de sódio e meio mol de cloro).
Por outro lado, um tipo de composto
chamado de ácido (caracterizado por um
certo conjunto de propriedades típicas) reage com outro tipo de
composto, cujo nome é base (com um
conjunto de propriedades características geralmente opostas àquelas
do ácido), e o resultado é a formação de compostos que não
apresentam nem um nem outro conjunto de propriedades mencionado. Tal
reação é chamada de neutralização. O exemplo típico de
neutralização é a reação de cloreto de hidrogênio (HCl) que, em
solução, é um ácido (ácido clorídrico), com hidróxido de sódio
(NaOH), que, em solução, é uma base, formando-se cloreto de sódio
(NaCl) e água (H2O). A reação é a seguinte:
HCl + NaOH
a
NaCl + H2O
DH = - 137,4 kcal
Mesmo uma transformação que geralmente
não seja considerada uma transformação química, como é o caso da
dissolução de uma substância em água, envolve um calor de reação.
Isto é lógico, pois depois que uma substância está dissolvida, as
forças que mantinham as moléculas deste composto umas presas às
outras, na forma sólida, são substituídas por outras forças, que
mantêm estas moléculas presas as moléculas de água. Isto tem que
envolver alguma variação de energia química.
Assim, quando se dissolve carbonato de sódio ('soda barrilha' ou
'soda de limpeza') em água, o
DH do processo
(que, neste caso, recebe o nome de calor molar de dissolução)
vale cerca de - 5,64 quilocalorias.
Mas isto vale para a dissolução de um
mol de carbonato de sódio. A fórmula desta substância é Na2CO3,
e seu peso molecular é igual a 106 (46 para os dois átomos de sódio,
12 para o carbono, e 48 para os três oxigênios), de maneira que a
dissolução de um grama de carbonato de sódio libertaria 5,64/106,
ou 0,053 quilocalorias. Isto equivale a 53 calorias, ou
seja, uma quantidade de calor menor do que aquela liberada pela
solidificação de um grama de água a 0oC (que é de 80
cal/g); portanto, não admira que não percebamos nitidamente a
formação de calor, quando dissolvemos carbonato de sódio.
Variações de energia química devem
obedecer às leis da termodinâmica. Assumimos isto como verdadeiro
quando dissemos, na introdução desse trabalho, que uma variação de
energia química deve ser 'equilibrada' por uma variação em sentido
contrário, de energia térmica. Do contrário, a primeira lei não
seria observada. No entanto, há mais que falar sobre este assunto.
A primeira generalização sobre a energia
química foi feita por Lavoisier,
juntamente com outro cientista francês Pierre
Simon de Laplace, que, em 1780, com base em medidas
comparativamente grosseiras (em comparação com padrões posteriores),
decidiu que o calor absorvido na decomposição de um composto em seus
elementos era igual ao calor liberado pela formação deste composto,
a partir dos seus elementos.
Um exemplo mostrará o significado disto.
Já dissemos anteriormente que a combinação de hidrogênio e oxigênio
libera 68,37 quilocalorias por mol de hidrogênio queimado ou (o que
é a mesma coisa, observando a equação) por mol de água formada:
H2 + ½O2
a
H2O DH
= - 68,37 kcal
Portanto, de acordo com a generalização
de Lavoisier-Laplace, a decomposição de
um mol de água em hidrogênio e oxigênio (transformação esta que pode
ser representada simplesmente invertendo a equação acima) exige o
fornecimento de 68,37 quilocalorias de energia:
H2O
a
H2 + ½O2
DH
= + 68,37 kcal
Agora, o
DH
é positivo, pois a água, no decurso da reação, ganha energia química
às custas de um 'consumo de calor' ou (mais freqüentemente) energia
elétrica, que devem ser adicionados a água para que a reação ocorra.
Podemos fazer uma analogia entre
energia química e energia mecânica --- sempre tomando-se
os devidos cuidados com as analogias!.
No caso da energia mecânica, idealmente, a energia cinética de um
objeto que se move para cima (no campo gravitacional) é convertida
inteiramente em energia potencial no ponto máximo da elevação, e
depois re-convertida outra vez na energia cinética original, no
ponto final da queda subseqüente.
Da mesma maneira, a energia não-química fornecida à água (elétrica,
por exemplo) é convertida em energia química pela sua decomposição
na mistura de hidrogênio e oxigênio, e esta é re-convertida em
energia não-química (térmica = calor + luz), quando o hidrogênio e o
oxigênio se combinam novamente, formando outra vez água.
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Energia
mecânica e energia química. |
(O balanceamento, naturalmente, só é
perfeito em condições ideais. No caso da energia mecânica, a
ausência de fricção, resistência do ar e uniformidade do campo
gravitacional são indispensáveis para haver estas condições ideais.
No caso da energia química, é preciso que não haja perdas de calor.
Na prática real, quando a água é decomposta por meio de uma corrente
elétrica, uma parte da energia elétrica sempre é perdida como calor;
quando se usa energia térmica para decompor a água, uma parte sempre
é perdida para o meio ambiente. Em cada um dos casos, introduz-se
mais energia no início, do que se obtém no fim, mas isto apenas
mostra o ganho de entropia e demonstra que, no que se refere
à energia química, a segunda lei da termodinâmica é observada tanto
quanto a primeira.)
Segue:
Química 5- Calor de reação
(parte 2)
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