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CALOR de REAÇÃO
(Parte 03)
Prof. Luiz Ferraz Netto
leobarretos@uol.com.br
Lei de Hess
Outra importante generalização foi feita em 1840 por um físico
chamado Germain Henri Hess que
trabalhava em St. Petersburg, na Rússia. Com base nos seus estudos
sobre calores de reação, ele decidiu que, de um modo geral, quando
uma reação se dá em etapas, a soma dos calores de reação
correspondentes aos diversos estágios é igual ao calor de reação
obtido quando a reação é realizada completamente, em uma só etapa.
Isto recebeu o nome de lei de Hess;
esta lei é tão importante, que Hess pode ser considerado como sendo
o pai da Termoquímica (química do calor).
Como exemplo simples de sua aplicação
(mas não um dos exemplos observados, realmente, por Hess,
quando ele formulou a sua importante generalização), consideremos
outra vez a combustão do carbono. É possível que o carbono se
combine com um único átomo de oxigênio, formando 'monóxido de
carbono' (CO). Portanto, podemos escrever a seguinte equação:
C + ½O2
a
CO DH
= - 26,4 kcal
O monóxido de carbono ainda é
combustível; isto é, ele pode se combinar com mais oxigênio,
formando o 'dióxido de carbono', mais comum:
CO + ½O2
a
CO2
DH
= - 67,6 kcal
Se somarmos estas duas equações (como se
elas fossem equações algébricas), devemos também, pela lei de Hess,
somar os calores de reação.
C + ½O2 + CO + ½O2
a
CO + CO2
DH = (-26,4) +
(-67,6)
Continuando a trabalhar com técnicas
análogas àquelas empregadas na álgebra, podemos eliminar todo
símbolo que apareça nos dois membros da equação; neste caso,
eliminaremos o CO. Somando os dois meios moles de oxigênio, podemos
escrever um mol deste gás, e o resultado final será:
C + O2
a
CO2
DH
= - 94,0 kcal
que é exatamente o calor de reação que
observaríamos se queimássemos o carbono diretamente até dióxido de
carbono, logo de início.
Outra maneira (mais geral) de exprimir a
lei de Hess é a seguinte: "se passamos da substância A para a
substância B por meio de transformações químicas, não importa quais
sejam os detalhes destas transformações químicas, a variação final,
total, de energia será sempre a mesma."
(Aqui, temos outra vez a analogia com a energia mecânica, onde um
corpo que passa de uma posição a outra tem a sua energia potencial
alterada de uma quantidade fixa e determinada, não importa qual seja
o caminho percorrido nesta mudança de posição.)
Mea Culpa
Agora, embora tenha usado a combustão do carbono para explicar, da
maneira mais simples possível, a lei de Hess, o fato é que na
verdade eu fiz trapaça. Não é possível medir, diretamente, o calor
liberado pela combustão do carbono até monóxido de carbono, uma vez
que não é possível fazer com que o carbono e o oxigênio se combinem
de tal maneira que se forme exclusivamente monóxido de carbono.
Pode ser obtido, mas não desta maneira.
Todavia,
o termoquímico pode converter carbono em dióxido de carbono, medindo
um calor de reação de - 94,0 quilocalorias. Ele também pode queimar
monóxido de carbono até dióxido, medindo um calor de reação igual a
- 67,6 quilocalorias. Depois, admitindo como válida a lei de Hess,
ele pode subtrair o segundo calor de reação do primeiro, deduzindo
que o calor molar de reação envolvido na conversão de carbono em
monóxido de carbono vale - 26,4 quilocalorias, embora não seja
possível realizar esta reação e medir diretamente o calor (DH)
correspondente.
A lei de Hess é imensamente importante
simplesmente por que ela permite que toda sorte de calores de
reação, que nunca podem ser observados diretamente, sejam deduzidos
de outros calores de reação, os quais, por sua vez, podem ser
medidos diretamente.
Por exemplo, existe um hidrocarboneto
chamado etileno, que é um gás constituído de moléculas contendo dois
átomos de carbono e quatro de hidrogênio (C2H4).
Um mol desta substância, ao
queimar em oxigênio, fornecerá 340 quilocalorias. A equação
(enumerada, assim como as subseqüentes, para evitar confusão) é a
seguinte:
(1) C2H4 + 3O2
a
2CO2 + 2H2O
DH
= - 340 kcal
Já discutimos a combustão de carbono e
hidrogênio, mas escreveremos novamente estas equações, pois as
empregaremos bastante neste exemplo:
(2) C + O2
a
CO2
DH = - 94,0 kcal
(3) H2 + ½O2
a
H2O DH
= - 68,0 kcal
Tratemos, agora, estas equações
químicas, de acordo com as técnicas usadas em álgebra.
Na equação (3), podemos subtrair [½ 02]
de ambos os membros e simplificar o primeiro membro (muitos diriam:
levar o ½ 02 para o outro membro trocando de sinal ...
operação inexistente em álgebra!), o que não altera o sinal do calor
de reação; ficaremos com:
(4) H2
a
H2O - ½O2
DH
= - 68,0 kcal
A seguir, dobramos todas as quantidades
contidas na equação (4), o que também faz dobrar o valor do calor de
reação:
(5) 2H2
a
2H2O - O2
DH
= - 136,0 kcal
Repetimos este procedimento para a
equação (2); subtrair O2 em ambos os membros, simplificar
o primeiro membro e dobrar todos os valores, inclusive o calor de
reação:
(6) 2C
a
2CO2 - 2O2
DH
= - 188,0 kcal
No caso da equação (1), invertemos a
equação, sem qualquer alteração de sinal, e esta operação faz mudar
o sinal do calor de reação, de acordo com a generalização de
Lavoisier-Laplace:
(7) 2CO2 + 2H2O
a
C2H4 + 3O2
DH
= + 340 kcal
Agora, na equação (7), subtraímos 2C02
e 2H20 em ambos os membros, simplificamos o primeiro
membro, de maneira que o calor de reação continua sendo positivo, e
temos:
(8) zero
a
C2H4 + 3O2 - 2CO2 - 2H2O
DH
= + 340 kcal
(Escrevemos “zero” ao invés de 0, pois
não queremos que o zero seja confundido com o símbolo do oxigênio.)
O passo seguinte é somar, membro a
membro, as equações (5), (6) e (8), não esquecendo de somar, também,
os calores de reação. O resultado é o seguinte:
(9) 2H2 + 2C
a
2H2O - O2 + 2CO2 - 2O2
+ C2H4 + 3O2 - 2CO2 - 2H2O
DH
=(-136)+(-188)+(+340) kcal
Se você examinar o membro direito da
equação (9), verificará que tudo se cancela, exceto o C2H4,
de modo que a equação pode ser escrita, mais simplesmente:
(10) 2H2 + 2C
a
C2H4
DH
= + 15,2 kcal
Verificamos, desta maneira, o seguinte:
se fosse possível combinar dois moles de hidrogênio com dois moles
de carbono, obtendo um mol de etileno, seria preciso adicionar 15,2
quilocalorias de energia, para que a reação ocorresse. Ou, colocando
as coisas de outro modo, um mol de etileno contém
15,2 kcal a mais de energia química do
que o carbono e o hidrogênio que
o constituem. Ou, ainda em outras palavras, o “calor molar de
formação do etileno” vale +15,2
quilocalorias.
Concluindo
Na prática real, não podemos medir diretamente este calor de
formação, pois não é possível combinar carbono e hidrogênio desta
maneira, para ocorrer a formação de etileno em uma só etapa. Apesar
disto, os químicos confiam plenamente neste valor. Em primeiro
lugar, todo o conjunto de transformações algébricas é justificado
pelas leis da termodinâmica, que todos os químicos aceitam como
válidas. Em segundo lugar, sempre que este tipo de tratamento
algébrico possa ser verificado por meio de experiências práticas,
ele resulta como justificável e válido.
Por este motivo, os calores de formação
do etileno e de muitos outros compostos são calculados no papel, com
plena satisfação dos químicos, e o fato de que estes valores não
podem ser verificados diretamente pela experiência, e talvez nunca
possam ser, não preocupa ninguém.
No próximo trabalho trataremos do 'Sentido
das Reações'.
Esse trabalho: Calor de Reação, uma
introdução termoquímica, é uma divulgação científica e, portanto,
não dispensa uma leitura mais detalhada nos compêndios específicos.
Tentei seguir uma nomenclatura mais próxima da 'curricular' mas,
devo salientar, a entidade física "calor", muitas vezes referidas
com apóstrofes ou aspas, deixa claro minha relutância ao cita-la.
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