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OS SENTIDOS DAS
REAÇÕES
(Parte 01)
Prof. Luiz Ferraz Netto
leobarretos@uol.com.br
Introdução
A lei de Hess é uma expressão da
primeira lei da termodinâmica, aplicada às reações químicas;
e agora é preciso que avancemos mais. Agora precisamos tentar
descobrir de que maneira, exatamente, a segunda lei da
termodinâmica se aplica às reações químicas.
Fazendo uma
comparação
Nós já sabemos que, no caso da energia mecânica, a segunda lei
requer que os objetos se movam espontaneamente de uma posição de
energia potencial elevada (potencial gravitacional elevado,
poderíamos dizer), para uma posição de baixa energia potencial, e
não vice-versa, de modo que a água, abandonada a si mesma, descerá
pelo morro, e não o contrário. No caso da energia térmica, a segunda
lei exige que o calor se desloque espontaneamente de uma posição de
temperatura elevada (ou de “potencial calórico” elevado) para uma
posição de temperatura mais baixa, e não o contrário, de modo que o
calor passará de corpos mais quentes para corpos mais frios, e não o
oposto. Portanto, por analogia, pareceria que as reações químicas
deveriam ocorrer de tal modo que as substâncias passassem de uma
posição de “potencial químico”
elevado para uma posição de potencial químico mais baixo, e não o
contrário.
A pergunta que surge é a seguinte:
que seria potencial químico, e como seria
possível medi-lo?
Algumas
hipóteses
Berthelot, um cientista que realizou muitas medidas de
calores de reações, achou que a resposta residia nestas mesmas
medidas. Sentiu ele que as reações que resultavam em um decréscimo
de energia química eram espontâneas, e eram acompanhadas do
desprendimento de calor associado a toda diminuição de energia
química; em outras palavras, as reações espontâneas seriam aquelas
cujo DH
fosse negativo. Por outro lado, uma reação na qual a energia química
aumentasse, de modo que houvesse uma absorção de calor do meio
ambiente, (em outras palavras, uma reação com
DH
positivo), não se daria espontaneamente.
Berthelot chamou as reações cujo
DH
fosse negativo, e que, portanto, libertavam calor para o ambiente,
de exotérmicas (do grego “calor para fora”). Reações nas
quais o DH
fosse positivo, que absorviam calor do ambiente, seriam
endotérmicas (“calor para dentro”). Em resumo, o que Berthelot
dizia era que apenas as reações exotérmicas eram espontâneas.
Existem muitos exemplos que parecem
indicar que esta generalização seria válida. Uma mistura de
hidrogênio e oxigênio, por exemplo, quando submetida a uma faísca,
combinar-se-á rapidamente, mesmo explosivamente, formando água; esta
é uma reação exotérmica. Por outro lado, a água poderá ficar para
sempre por ali onde se formou, sem apresentar tendência perceptível
de se decompor em hidrogênio e oxigênio --- este é um processo que,
caso ocorresse, seria endotérmico. Na verdade, quando se aquece a
água suficientemente (passando pelos estados de vapor e de gás), ela
começa a se decompor, mas isto é a mesma coisa que acontece com a
água que sobe o morro, quando impulsionada por uma bomba.
Uma importante
diferença
Naturalmente, você poderá objetar que uma mistura de hidrogênio e
oxigênio também poderá ficar por ali para sempre, sem exibir
tendência alguma de se combinar, a não ser que ela, também, seja
submetida a uma certa dose de calor (estímulo). Há uma diferença,
porém. A mistura de hidrogênio e oxigênio, uma vez 'excitada' por
uma pequena quantidade de calor, na forma de uma faísca, continuará
reagindo sem mais interferência, por tempo indefinido. Por outro
lado, se por adição de calor intenso, ou por recurso de uma corrente
elétrica, começarmos a produzir a decomposição da água em hidrogênio
e oxigênio, com a retirada da fonte deste calor ou desta corrente
elétrica, após um período de aplicação por mais longo que seja, fará
com que esta decomposição cesse imediatamente.
Portanto, em resumo:
a união exotérmica de hidrogênio e oxigênio
pode ser “obrigada” a ocorrer espontaneamente, mas o mesmo não é
possível com a decomposição endotérmica da água.
As indesejáveis
exceções
Infelizmente para Berthelot, porém, este caso é o caso de uma
generalização que não é suficientemente geral. Toda sorte de reações
exotérmicas de fato ocorrem espontaneamente, e muitas reações
endotérmicas de fato não se dão espontaneamente. No entanto, existem
algumas reações que são endotérmicas e assim mesmo ocorrem
espontaneamente. Os melhores exemplos disto são encontrados na
dissolução de certas substâncias em água. Quando se junta nitrato de
amônio à água, este composto se dissolve espontaneamente, e no
entanto o DH
envolvido no processo é positivo. Há um ganho de energia química, e
a água perde energia térmica, tornando-se gelada ao tato. Não
importa quantos exemplos sigam a generalização de Berthelot,
esta uma exceção é suficiente para invalidá-la.
Mas, para dizer a verdade, a
insuficiência da generalização de Berthelot é iluminada não apenas
por algumas exceções. Existem objeções mais sutis contra esta lei, e
isto nos leva ao conceito de equilíbrio químico.
Num só sentido e nos
dois sentidos
Nas reações de maior interesse para o termoquímico, que são as
reações de combustão, o sentido da reação parece ser de “mão única”.
Isto é, o carbono e o oxigênio combinar-se-ão completamente,
formando dióxido de carbono; o hidrogênio e o oxigênio se combinarão
completamente, formando água; compostos com moléculas constituídas
de carbono e hidrogênio reagirão completamente com oxigênio,
formando dióxido de carbono e água. Além disto, em caso algum a água
se decomporá de maneira perceptível em hidrogênio e oxigênio, ou o
dióxido de carbono em carbono e oxigênio; nem haverá uma combinação
da água com dióxido de carbono, para formar etileno ou algum outro
hidrocarboneto. Estas reações de “mao única” são denominadas de
irreversíveis.
A situação, porém, não é a mesma no caso
de muitas outras reações químicas. Um exemplo do que queremos dizer
é encontrado no caso da reação de iodo com hidrogênio. O iodo, a
temperatura ambiente, é um sólido de uma cor acinzentada, tipo
ardósia; um pequeno aquecimento, porém, produzirá vapores violetas,
e à temperaturas acima de 184oC, o iodo existirá apenas
na forma de vapor. No estado gasoso, o iodo é constituído de
moléculas contendo dois átomos de iodo cada uma (I2).
Se, então, iodo e hidrogênio são
misturados a uma temperatura de, digamos, 445oC, eles se
combinam, formando-se iodeto de hidrogênio, HI:
H2 + I2
a
2HI
No entanto, nem todo o hidrogênio se
combina com o iodo. Não importa quanto tempo passe, uma parte do
hidrogênio e do iodo permanecem sem se combinarem.
Se porém, por outro lado, uma amostra de
iodeto de hidrogênio puro for obtida de outra maneira, e aquecida a
445oC, ela se decomporá,
formando uma mistura de hidrogênio e iodo:
2HI
a
H2 + I2
Aqui, novamente, acontece o seguinte:
por mais tempo que se espere, nem todo o iodeto de hidrogênio será
decomposto. Na realidade, tanto faz você partir de uma mistura de
hidrogênio e iodo, ou de uma amostra de iodeto de hidrogênio, a
situação final será precisamente a mesma. Cerca de 80% do iodo e do
hidrogênio se combinam, formando HI; aproximadamente 20% não se
combinam. Uma reação deste tipo, que pode se processar em ambos os
sentidos, é uma reação reversível.
Chegando ao
equilíbrio
Num sentido: Aparentemente, o
que acontece é o seguinte. Hidrogênio e iodo, misturados a uma
temperatura elevada, combinam-se rapidamente, formando iodeto de
hidrogênio. O iodeto de hidrogênio formado, nesta temperatura, tende
a se decompor, mas tanto hidrogênio e iodo estão reagindo, no
início, e existe tão pouco iodeto de hidrogênio para ser decomposto,
que o efeito combinatório prepondera, e o iodeto de hidrogênio se
acumula.
Conforme o iodeto de hidrogênio se
acumula, porém, mais e mais das moléculas acumuladas serão
decompostas. Ao mesmo tempo, a mistura de hidrogênio e iodo ainda
não combinados vai acabando, e a velocidade de formação do iodeto de
hidrogênio diminui. Conforme diminui a velocidade de formação do
iodeto de hidrogênio, e aumenta a velocidade de decomposição deste
composto, deve haver um ponto em que as duas
se equilibram. Este ponto, nas condições da experiência, é
atingido quando 80% de hidrogênio e do iodo estiverem combinados.
Nada mais parece acontecer, neste ponto, não por que não esteja mais
acontecendo nada, realmente, mas por que dois efeitos contrários
estão ocorrendo simultaneamente [ponto de equilíbrio: 80% de HI e
20% de H2 + I2].
No sentido
inverso: Suponha, agora, que se inicie a experiência com
iodeto de hidrogênio puro (siga a esquematização a seguir).
Imediatamente, uma parte dele começa a se decompor. Em conseqüência,
vai havendo um acúmulo de hidrogênio e iodo, o que conduz a uma
tendência destes dois se combinarem novamente; esta
tendência aumenta conforme se acumulam
os dois gases. Além disto, conforme a decomposição vai diminuindo o
numero de moléculas de iodeto de hidrogênio presentes, a velocidade
com a qual as restantes se decompõem tem que diminuir. Outra vez,
atinge-se um ponto de equilíbrio, e a experiência mostra que este é
o mesmo ponto de equilíbrio como no caso anterior.
Setas à esquerda
indicam que
a
velocidade de
decomposição aumenta. |
H2
+ I2 - 100% ==========>
HI - 0%
H2
+ I2 - 80% ========>
<== HI - 20%
H2
+ I2 - 60% =======>
<=== HI - 40%
H2
+ I2 - 40% ======>
<==== HI - 60%
[Balanço
das velocidades]
H2 + I2 - 20% ====>
<==== HI - 80%
[equilíbrio químico
H2 + I2 - 0%
<== HI - 100% |
Setas à direita
indicam que a
velocidade de
combinação
diminui. |
|
A relação
entre a velocidade de reação e o equilíbrio químico. |
O equilíbrio
Quando duas reações opostas ocorrem com a mesma velocidade, de modo
que não há mais variação resultante, diz-se que foi atingida uma
situação de equilíbrio químico. A palavra “equilíbrio” evoca
a imagem de uma balança, que se mantém horizontal sob a ação de
forças equilibradas. Isto, na realidade, é um “equilíbrio estático”.
O equilíbrio químico, porém, não é estático. Duas reações opostas
estão ocorrendo, ambas com grande velocidade; mas acontece que uma
anula o efeito da outra. Isto é um equilíbrio
dinâmico.
Para indicar uma situação de equilíbrio
químico, costuma-se escrever uma equação representativa da reação de
hidrogênio com iodo, da seguinte maneira, com duas flechas opostas,
indicando que a reação se dá nos dois sentidos:
H2 + I2
D
2HI
Qualquer outra reação de equilíbrio pode
ser escrita da mesma maneira.
O ponto crucial é o seguinte: qualquer
reação possui, sob certas condições fixas, um valor determinado de
DH.
A reação inversa, submetida às mesmas condições, terá este mesmo
DH,
com o sinal trocado, de acordo com a generalização de
Lavoisier-Laplace e, o que é mais importante, de acordo com os
requisitos da primeira lei da termodinâmica. Portanto, em toda e
qualquer reação reversível, sendo uma das reações exotérmicas, a
outra deverá ser endotérmica.
No caso do hidrogênio, iodo e iodeto de hidrogênio a decomposição do
último nos dois primeiros é exotérmica, com um
DH
de - 6,0 quilocalorias; e, a combinação de iodo e hidrogênio será
endotérmica, com um DH
de + 6,0 quilocalorias.
Se a sugestão de Berthelot, de que
apenas reações exotérmicas seriam espontâneas, fosse verdadeira,
então o iodeto de hidrogênio, abandonado a si mesmo, apenas se
decomporia, mas nunca se recomporia. Isto, porém, não está de acordo
com o que se observa na realidade experimental. O iodeto de
hidrogênio de fato se recompõe no exemplo citado, ele até tende mais
a se formar do que a se decompor.
Se Berthelot tivesse razão, não haveria
reações reversíveis; todas as reações só se dariam em um sentido.
Uma vez que isto obviamente não é verdadeiro, a sugestão de
Berthelot foi objeto de severas críticas, sendo relegada ao
esquecimento quase imediatamente depois de aparecer. Na realidade,
nos admiramos de o próprio Berthelot não ter percebido isto,
evitando assim fazer a sua generalização; mas, sempre é fácil ser
sabido depois de alguma coisa já estar consumada. Berthelot,
todavia, propôs uma hipótese ... nós não! Ponto para Berthelot.
Ainda em busca
do potencial químico
Isto nos deixa, ainda, à procura do nosso potencial químico. Bem, um
fator que parece ter alguma influência sobre o sentido em que se dá
uma reação reversível é a quantidade presente de cada material. Se
houver um excesso suficiente de iodo e hidrogênio, a transformação
total se desloca no sentido da combinação. Se houver um excesso
suficiente de iodeto de hidrogênio, o resultado final da
transformação estará deslocado para o sentido da decomposição.
Importante: Se o equilíbrio já tiver
sido atingido, ele pode ser perturbado, e a reação pode ser forçada
a continuar, em um sentido ou outro, pelo expediente simples de
adicionar mais iodeto de hidrogênio, ou uma mistura de hidrogênio e
iodo.
O primeiro que notou claramente este
fato foi o francês Claude Louis Berthollet
em 1803. (Este não deve ser confundido com o
Berthelot mencionado mais acima, que viveu meio século mais
tarde.)
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Segue
Parte 02 ***
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