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As águas
(Ciência das águas)
Prof. Luiz Ferraz
Netto [Léo]
leobarretos@uol.com.br
Introdução
Quimicamente, água é composto constituído de hidrogênio e
oxigênio, tendo a fórmula H2O. Sua composição percentual é a seguinte: 11,19% de hidrogênio e 88,81% de
oxigênio.
A água foi considerada uma
substância simples até 1781, quando H.
Cavendish a decompôs pela primeira vez; em 1783
A. L. Lavoisier determinou a
sua composição centesimal, e em 1805
J. L. Gay-Lussac a sintetizou a partir dos
elementos. A água é um composto enormemente difundido na natureza, nos
seus estados de agregação gasoso, líquido e sólido; cobre cerca de 73% da superfície terrestre. Ela executa um
ciclo
natural que emprega, a grosso modo, 400
trilhões de toneladas ao ano, 300 das
quais evaporam de todos os mares e
oceanos e o restante dos continentes, dos
lagos e dos rios. Toda esta água se condensa e volta a cair sobre a superfície
terrestre em forma líquida (chuva) ou
sólida (neve, granizo); nas terras emersas caem cerca de 100 trilhões de toneladas, uma parte da qual reevapora diretamente; parte corre para o mar, sob
forma de rios e torrentes; parte, após
embeber o terreno, é absorvida pelos vegetais, através dos quais reevapora e finalmente, vai formar rios ou lagos
subterrâneos, para depois voltar a emergir e constituir rios ou lagos
superficiais ou, então, voltar diretamente, sem reemergir, para o mar. Por
efeito do calor solar, a maior parte de água que chega à superfície terrestre
evapora novamente, recomeçando o ciclo. A restante alíquota combinando-se
quimicamente com outras substâncias, voltará ao ciclo quando outros fenômenos
geofísicos ou biológicos a libertarem.
Características
físico-químicas
À pressão de 760 mmHg, a água entra em ebulição (ferve) a 100°C e solidifica-se a 0°C (as
temperaturas de solidificação e ebulição à pressão de 760 mmHg foram
precisamente assumidas como 0 e 100 da escala termométrica de Celsius).
Aumentando a pressão, diminui a temperatura de solidificação e aumenta a de
ebulição. Na solidificação a água transforma-se em gelo, que se
cristaliza hexagonalmente.
Ao contrário do que se verifica para a maior parte das substâncias, a água
solidifica-se aumentando de volume, de sorte que o gelo flutua na água. Este
fenômeno é importante, uma vez que permite que a água, mesmo em regiões frias,
permaneça líquida sob a camada de gelo, que de certo modo funciona como isolante
térmico.
A massa específica da água (densidade), que se expressa em g/cm3, é 0,999868 a 0 °C,
1,00000 a 4 °C e 0,998230 a 20 °C; a massa específica do gelo a 0 °C é 0,9168 g/cm3.
A densidade do vapor de água (referente ao ar, tomada como igual a
1) a 0 °C é
0,624; a temperatura crítica é igual a 374 °C e a
pressão crítica é de 218,4 atm.
Os calores específicos, que se expressam em
cal/(g.°C), são: 0,505 para o gelo a 0 °C; 0,99976 para a água a 15 °C e 0,487
para o vapor de água a 100°C (calores específicos a pressão constante). O
calor
latente de evaporação da água, em cal/g, é de 595,4 a 0 °C e de 539,5 a 100 °C; o
calor latente de fusão do gelo é igual a 79,42 cal/g.
A tensão superficial da
água com relação ao ar corresponde a 0,0756 N/m, a 0 °C. O
coeficiente de
compressibilidade a 20 ºC é 4,6.10-5 atm-1; o
coeficiente de condutibilidade térmica
entre 10°C e 18°C é 0,61 (W/m2).ºC; o índice de refração para a luz
amarela do sódio é 1,33401 a 0 °C e 1,33194 a 30 °C.
A água pura, que é incolor em finas camadas apresenta-se azulada em camadas
superiores a 4 ou 5 m; esta coloração se deve à absorção da luz, mas pode variar
pela influência de partículas extremamente pequenas que podem encontrar-se
suspensas nela. A molécula da água tem uma estrutura em V;

A existência de moléculas simples só se admite na água em
estado de vapor. Nos outros estados admitiu-se, durante muito tempo, que
houvesse em equilíbrio moléculas de (H2O)2 biídrol e (H2O)3
triidrol; pesquisas
posteriores, no entanto, puseram em evidência a existência de grupos de
moléculas de maior complexidade com formas de associação particulares. Isto
justifica as constantes físicas e químico-físicas da água no estado sólido e
líquido, que de outra forma contrastariam com a existência de moléculas simples.
A água é uma substância neutra dotada de pequena atividade química; todavia, com
a sua presença facilita e torna possíveis numerosas reações químicas. Esta
propriedade deve ser atribuída ao seu alto poder ionizante, ou seja, à capacidade
de dissociar em íons as moléculas das substâncias, consequência do elevado valor
da sua constante dielétrica (na água, duas cargas
de sinais opostos atraem-se com uma força que é cerca de 1/80 daquela no ar). A
própria
água é fracamente dissociada nos seus
íons e isto explica os fenômenos de hidrólise que nela ocorrem. A água reage com os óxidos básicos para dar os hidróxidos:
CaO + H2O ==> Ca (OH)2
e com os anidridos para dar os ácidos:
SO3 + H20
==> H2S04
Ela se comporta como oxidante, a frio para os metais alcalinos ou
alcalino-terrosos e, a quente, para os metais de media eletropositividade,
formando os óxidos ou hidróxidos relativos e liberando oxigênio. Assim, por
exemplo:
Ca + 2 H2O
=(600-700 ºC)=> Ca (OH)2 + H2
3 Fe + 4H2O <==> Fe3O4 + 4 H2
A água possui a propriedade de dissolver numerosíssimos compostos químicos,
sendo, mesmo, o solvente por excelência (solvente universal).
Água quimicamente pura
Teoricamente, pode-se obter por síntese,
queimando o hidrogênio no oxigênio. Praticamente, prepara-se águas naturais, a
partir de soluções aquosas de substâncias sólidas, líquidas ou gasosas por
destilação, que se pode repetir mais vezes, em recipientes tendo paredes
particularmente inertes (cobre estanhado, platina, vidro de quartzo). Um método
para reconhecer a pureza da água consiste em medir a sua condutibilidade
elétrica; a água
quimicamente pura tem uma condutibilidade praticamente nula.
Água de absorção
É aquela que um corpo
poroso retém quando mergulhado, na água, mas que .é gradativamente eliminada com
uma prolongada exposição ao ar.
Água higroscópica. É a água que permanece
num corpo mesmo depois que este foi mantido em contato com a atmosfera livre por
um tempo suficientemente longo. Para eliminá-la, é necessário secá-lo a mais de
100°C ou manter o corpo num ambiente desidratante.
Água de cristalização. É a que está
presente em quantidade estequiométrica em substâncias que têm estrutura
cristalina, a cuja molécula está ligada em virtude das ligações secundárias. A
sua eliminação ocorre segundo um número de moléculas inteiro e simples, e não
gradativamente. A passagem do composto hidrato ao anidrido é, portanto, uma
reação química de decomposição, e não simplesmente um fenômeno físico.
Dissociação da água. A água à alta
temperatura dissocia-se em hidrogênio e oxigênio, originando um equilíbrio
químico entre H2O, H2 e O2. A dissociação térmica só ocorre por 2%
aproximadamente a 2 000 °C e para 13%, aproximadamente a 3 000 °C. De qualquer
forma, à alta temperatura e na presença de elementos que têm pelo oxigênio maior
afinidade do que o hidrogênio, a reação desloca-se para a direita, isto é,
facilitando a dissociação.
Água destilada
Água quimicamente pura, que se extrai da
condensação do vapor obtido artificialmente, por ebulição de águas naturais. O
ciclo completo (ebulição e condensação) executa-se mediante destiladores cujo condensador é constituído por
materiais inatacáveis (estanho, prata, quartzo), a fim de evitar que a água
produzida seja poluída pelas paredes do recipiente de coleta. Os destiladores de
laboratório têm uma produção horária que varia de 0,5 a 5 litros, enquanto os
industriais podem produzir até centenas de litros de água destilada por hora. Se
a água destilada é produzida a partir de águas não muito ricas em sais minerais,
e se oxidam previamente as substâncias orgânicas contidas na água de partida, o
produto obtido é suficientemente puro para justificar o alto dispêndio de
energia térmica necessária à destilação. Para purificar águas não apropriadas à
destilação, podem-se seguir outros métodos, como a desionização com resinas ou,
então, a osmose inversa.
Água oxigenada
Composto químico também denominado
peróxido de hidrogênio, constituído, como a água, somente por
hidrogênio e oxigênio. Sua fórmula é H202, com estrutura molecular
não linear, apresentando dimensões e ângulos particulares.
É um
líquido denso (densidade a 0 °C = 1,471 g/cm3) levemente
azulado,
que ferve a 150,2 °C e congela a —0,43 °C; é miscível com água comum em
todas as proporções. No estado puro, a água oxigenada está sujeita à
decomposição explosiva, especialmente quando as paredes do
recipiente que a contém não são muito lisas e se estão presentes
impurezas metálicas. Normalmente, é usada em solução aquosa e a
reação de decomposição
2H2O2
==> 2H2O + O2↑ ... (1)
é
extremamente lenta, tanto que as soluções comerciais de água
oxigenada, contendo de 30 a 35% em peso de H2O2 se conservam
geralmente por alguns meses.
A preparação industrial da água oxigenada
baseia-se hoje na reação entre uma substância orgânica, 2-etilantraquinol
e o oxigênio que é reduzido a número de oxidação — 1, dando H2O2:
A reação ocorre em solução de benzeno; oportunas
extrações e destilações levam, depois, à preparação da solução
aquosa comercial a 30% em peso. O processo acima mencionado
suplantou quase totalmente, nos últimos anos, o método de preparação
baseado na hidrólise do peroxidissulfato de amônio.
A água oxigenada apresenta acentuadas
propriedades oxidantes e, em solução aquosa, tem também um fraco
caráter ácido; ela se dissocia, mesmo em proporção mínima, segundo a
reação de equilíbrio :
H2O2 + H20
<==> H30+ + H02
- ... (3)
A concentração das soluções aquosas de água oxigenada é
frequentemente expressa com base no volume de oxigênio (medido a 0 °C
e 760 mmHg), que se obtém do volume unitário de solução segundo a
reação de decomposição (1); portanto, fala-se comumente de água
oxigenada a 12 ou 30 volumes, segundo cada volume de solução
origine, por decomposição, respectivamente 12 ou 30 volumes de
oxigênio.
Tais soluções encontram numerosos empregos, todos baseados no poder
oxidante da água oxigenada, que tem a vantagem, com relação aos
demais oxidantes, de não deixar vestígio da sua presença em solução,
porque, oxidando-se, se reduz a água. A água oxigenada é usada como
desinfetante, no embranquecimento de grande número de materiais como
lã, seda, algodão, peles, gorduras, etc., assim como para a
preparação do chamado perborato (NaBO2
. H2O2 . 3H20), usado
como alvejante e como aditivo para detergentes.
A água oxigenada à alta concentração (70 a 90%) é
amiúde usada nos foguetes como combustível líquido. Neste caso, além
da dificuldade de obtê-la em
fortes concentrações, existe ainda a de conservá-la e transportá-la.
Ela, com efeito, corrói os reservatórios, com consequente
dissociação e desenvolvimento de calor que produz a explosão.
Resolve-se tal problema com o uso de estabilizantes (fósforo ou
oxiquinolina), de metais inoxidáveis ou puríssimos, melhor ainda se
cobertos de substâncias cerosas ou de cloreto de polivinil. A água
oxigenada, usada como combustível desde 1936, em contato com um
oportuno catalisador (por exemplo, o permanganato de cálcio),
decompõe-se em vapor aquoso superaquecido e oxigênio livre, com
forte desenvolvimento de calor, segundo a reação química:
2H2O2 ==> 2H2O
+ O2
Se esta reação é realizada numa câmara de decomposição que se
comunica com um efusor, gera-se um jato de oxigênio e vapor à alta
temperatura e grande velocidade de efluxão, capaz de produzir um
notável impulso propulsor. Em outros termos, a água oxigenada, mesmo
sem intervenção de um combustível, está em condições de produzir um
impulso e, portanto, pode ser considerada um monopropulsor. Todavia,
o oxigênio livre que se forma na decomposição pode ser empregado
para queimar um combustível como álcool, hidrazina, benzina, etc.
Desta forma, o impulso específico aumenta sensivelmente, enquanto a
água oxigenada deixa de funcionar como monopropulsor e se transforma
no líquido
oxidante de um sistema bipropulsor.
Como monopropulsor, a água oxigenada encontra muitas aplicações
sobretudo nos sistemas de controle de equilíbrio longitudinal sobre
os três eixos de rotação dos mísseis e das cápsulas espaciais; é,
porém, usada muito largamente como oxidante nos sistemas
bipropulsores.
Água pesada
Água formada por moléculas nas quais o
hidrogênio é substituído pelo seu isótopo pesado
(deutério);
a sua fórmula é D2O. A água pesada é empregada
como moderador em alguns reatores nucleares, pois possui notável
poder de freamento e uma relação de moderação excepcionalmente
elevada.
Em igualdade de condições, o uso da água pesada como
moderador
permite atingir uma probabilidade de evitar a ressonância e uma
utilização térmica mais elevadas do que as que se obtêm com o
emprego da grafita. Até há pouco tempo, a disponibilidade de água
pesada era bem limitada; atualmente, após o desenvolvimento de
instalações de produção notavelmente melhoradas, a água pesada é
produzida em quantidade suficiente para satisfazer a demanda.
Produção da água pesada
Todas as águas naturais contêm cerca de uma parte sobre 6 500,
isto é, cerca de 0,015%, de óxido de deutério; a água pesada
obtém-se concentrando o óxido de deutério até um grau
preestabelecido. Essa concentração pode efetuar-se seguindo diversos
métodos; os que oferecem boas possibilidades de aplicação em larga
escala são: o método eletrolítico, o
método de destilação
e o das trocas isotópicas.
Método eletrolítico.
Na eletrólise da água, o hidrogênio gasoso libertado do cátodo
apresenta uma relação hidrogênio-deutério mais elevada que a
relativa
à água de partida. A água que fica na célula eletrolítica resulta,
portanto, particularmente enriquecida de deutério. A célula
eletrolítica, construída em aço, pode servir como recipiente e como
cátodo.
Mediante eletrólise prolongada, é possível obter água pesada a uma
pureza próxima de 100%. Como são necessárias enormes quantidades de
energia elétrica para atingir esse grau de concentração, é possível
usar este método somente quando se tem à disposição energia elétrica
por baixo preço.
Método de destilação.
Baseia-se numa pequena diferença existente entre as tensões de vapor
da água normal e da pesada. Destilando, pois, a água, a primeira
fração que evapora contém isótopo mais leve numa porcentagem
ligeiramente mais rica no isótopo mais pesado.
É possível, portanto, efetuar a concentração da água pesada mediante
a destilação fracionada da água natural.
Dada a pequena diferença
das tensões de vapor, as colunas de destilação devem ter um grande
número de estágios. Um maior rendimento de separação obtém-se
destilando em pressões inferiores à atmosférica. A despeito da
complexidade dos aparelhamentos exigidos, este método permite obter
razoáveis quantidades de água pesada em elevado grau de pureza com
uma concentração de D2O de cerca de 90%.
Método das trocas
isotópicas. Explora pequenas diferenças de
reatividade existentes entre os dois isótopos. Embora os isótopos
possuam propriedades químicas idênticas, as diversas formas
isotópicas de um elemento ou de um composto têm, amiúde, velocidades
de reação levemente diferentes; decorre daí que a constante de
equilíbrio (K) de uma reação de troca isotópica (constante
que é igual à relação das velocidades específicas das reações
diretas e inversas) é diferente de 1. Isto torna possível uma
parcial separação dos isótopos.
Foram estudadas diversas reações de troca hidrogênio-deutério para a
produção de água pesada. Uma delas é a reação entre água e
hidrogênio gasoso. O método de troca hidrogênio-água exige, contudo,
grandes volumes de hidrogênio gasoso e pode, portanto, ser
economicamente utilizado só se ligado a outro processo que empregue
como reagente grandes quantidades de hidrogênio: por exemplo, a
fabricação de amoníaco por via sintética de hidrogênio e nitrogênio.
O hidrogênio alimenta, num primeiro tempo, a base de enriquecimento
em deutério, onde uma parte deste isótopo é separada mediante troca
com o mais
leve; o gás passa, a seguir, para a síntese do amoníaco, para o qual
a leve mudança de composição não tem nenhuma importância.
Uma variação do método das trocas isotópicas é
constituída pelo método a duas temperaturas, que explora a diferença
existente entre as constantes de equilíbrio em duas temperaturas
diferentes. Finalmente, um sistema que permite produzir água pesada
por um custo inferior ao de todos os outros, é o sistema que se
baseia na separação do deutério do hidrogênio, mediante uma
destilação fracionada do hidrogênio líquido a baixíssimas
temperaturas.
Água potável
Água que pode servir para a
alimentação do homem. São potáveis as águas naturais contendo,
dissolvidas, limitadas quantidades de sais e isentas de
bactérias patogênicas. A medida da potabilidade da água é portanto,
dada simultaneamente pela análise química e pela bacteriológica.
Para ser potável, a água deve ser límpida, incolor, inodora e
agradável ao paladar, e bem gaseificada. Deve possuir uma
temperatura bem baixa, que oscile entre 6 e 12 °C; além disso, deve
conter uma quantidade de sais minerais oscilante dentro de limites
definidos. A água destilada não é, portanto, adequada como água
potável.
O julgamento sobre a potabilidade de uma água depende,
portanto, principalmente da análise bacteriológica. A presença de
substâncias orgânicas não é prejudicial, quando faltam ácido nitroso
e amoníaco, contanto que a sua quantidade não supere certos limites;
a presença de ácido nítrico indica, porém, que as substâncias
orgânicas sofreram um processo evolutivo e portanto, não são mais
prejudiciais. Se, porém, além do ácido nítrico estão presentes
vestígios de substâncias orgânicas animais, a água deve ser
considerada não potável, uma vez que o processo de destruição não
foi completado.
Para verificar o estado higiênico de uma água no
lugar de onde se deseja retirá-la, deve-se proceder a quatro ordens
de pesquisas:
1) sobre as condições da localidade e do terreno;
2)
sobre os caracteres físicos e organoléticos;
3) sobre a composição
química;
4) sobre o conteúdo em micróbios e parasitas.
O estudo do terreno e da localidade é, às vezes,
o mais complexo, porque está limitado às imediatas proximidades,
apenas quando se trata de um poço, mas assume vasto alcance e estende-se
a toda uma bacia imbrífera quando se trata de grandes instalações
hidráulicas destinadas à alimentação de aquedutos.
O estudo dos
caracteres físicos e organoléticos refere-se às observações da
temperatura, da condutibilidade elétrica, da capacidade, da turvação
(bruscas variações destas características na nascente indicam a
penetração de águas superficiais na rede hidráulica) e, ainda, do
sabor e do cheiro.
O estudo dos caracteres químicos tem objetivo duplo: estabelecer se
a composição mineral da água é tal que corresponda aos requisitos de
potabilidade e
pesquisar se na água existem substâncias que indiquem índices de
poluição orgânica.
A composição química da água está em relação íntima com a
constituição dos terrenos atravessados e com os processos biológicos
que neles se desenrolam.
Deve-se, portanto, tratar de determinar:
a) reação: que inicialmente deve ser ligeiramente ácida por
efeito do ácido carbônico livre e a seguir, ligeiramente alcalina
pela perda do primeiro, por efeito dos bicarbonatos alcalinos e
alcalino-terrosos nela contidos,
b) Resíduo fixo: contido entre 100 e 500 mg
por litro.
c) Dureza: a dureza total não deve superar os 35 graus
franceses (1 grau francês equivale a 1 g de CaCO3 em 100
litros de água)
e a permanente não deve ser superior aos 12 graus franceses, devendo
ser causada no mínimo por 3/4 de sais de cálcio e por 1/4 dos de
magnésio.
d) Sulfatas: em modesta quantidade, entre os 10 e os 100 mg
por litro,
e) Ferro: torna desagradável o sabor, mas não é tóxico,
f) Flúor: é necessário nas doses de
1 a 1,2 mg por litro, um
excesso pode ser nocivo,
g) Chumbo: não deve estar presente nem mesmo em vestígios.
Procede-se, depois, a busca dos elementos referentes à contaminação
da água.
Quando uma água é contaminada, nela penetram substâncias orgânicas
que sofrem o processo de putrefação e o seu nitrogênio proteico é
transformado em nitrogênio amoniacal. O nitrogênio amoniacal, por
ação das bactérias nitrificantes, é transformado em nitroso e,
finalmente, em ácido nítrico. Os elementos que se devem pesquisar
são portanto: substâncias orgânicas, amoníaco, ácido nitroso e ácido
nítrico; além disso, devem ser pesquisados: cloro, ácido fosfórico,
hidrogênio sulfurado e gases dissolvidos.
Substâncias orgânicas: estão presentes
também em boas águas potáveis de origem profunda e são encontradas
em quantidade elevada nas águas superficiais. Evidenciam-se com o
método de Kubel e Tiemann, que consiste em oxidá-las a quente com
uma solução titulada de permanganato de potássio e em observar a
seguir a quantidade de permanganato que foi consumida, recorrendo a
uma solução, também titulada, de ácido oxálico. Deve-se, porém,
fazer distinção entre as substâncias orgânicas de origem animal e as
de origem vegetal, pois as primeiras são muito mais prejudiciais que
as segundas. A distinção se faz com o mesmo método da oxidação,
levando-se em conta que as substâncias orgânicas animais consomem
mais oxigênio em ambiente alcalino e as vegetais em ambiente ácido.
O limite tolerável de substâncias orgânicas para uma água potável é
representado por um consumo de oxigênio de 2,5 mg por litro.
Amoníaco e ácido nitroso:
encontram-se salificados como sais amoniacais e nitratos e são a
expressão da decomposição de substâncias orgânicas de origem animal;
portanto, não devem ser tolerados nem mesmo em vestígios. O amoníaco
é revelado com o reativo de Nessler, e o ácido nitroso com o reativo
de Griess.
Ácido nítrico: é
encontrado sob forma de nitratos e está sempre presente, em pequenos
vestígios, nas águas potáveis, já que representa uma completa
mineralização das substâncias orgânicas.
Cloro: em pequenas quantidades
encontra-se sempre nas águas potáveis, no estado de cloretos; o
limite tolerável é de 35 mg por litro.
Hidrogênio sulfurado e ácido fosfórico:
encontram-se em algumas águas minerais potáveis; nos casos em que
aparecem em águas naturais não minerais, são índices de fortíssima
putrefação em andamento.
Gases dissolvidos: nas boas águas
potáveis, os gases que se devem encontrar dissolvidos são o
oxigênio, o nitrogênio e o anidrido carbônico, nas seguintes
proporções: oxigênio, 3 a 8 cm3/L (16%); nitrogênio, 7 a
17 cm3/L (34%); anidrido carbônico, 10 a 25 cm3/L
(50%). Nos processos de fermentação ou putrefação, diminui o
oxigênio e aumenta notavelmente o anidrido carbônico.
O estudo da potabilidade de uma água é completado pela análise
biológica: esta tem por objetivo revelar a presença de eventuais
parasitas ou microorganismos patogênicos e, mais ainda, estabelecer,
através do exame da flora, se a água está contaminada ou se se
encontra em condições de vir a sê-lo. Considera-se que uma água é
suspeita de poluição quando a sua flora, além de ser abundante, é
composta, na sua maior parte, de microrganismos viventes nas camadas
superficiais do terreno, e por micróbios fecais. As águas potáveis
são recolhidas nos aquedutos por meio de tubulações de cimento ou
ferro. São proibidas as tubulações de chumbo, uma vez que poderiam
determinar a formação de sais nocivos.
Potabilização.
Quando uma água demonstra ser inadequada ao uso potável, pode-se
proceder à sua correção artificial. Para tanto, pode-se modificar os
defeitos organoléticos e físicos, retirando cheiros e sabores
desagradáveis, colorações e turvamente; pode-se também melhorar os
caracteres químicos mediante operações de adoçamento (para as águas
duras), de desferrização, de correção da acidez e de correção do
conteúdo.
A operação mais importante é, porém, a
depuração biológica artificial, que se efetua com
meios mecânicos (sedimentação e filtração),
químicos (cloração, ozonização, catadinização)
e físicos (aquecimento e irradiação
ultravioleta).
Sedimentação: processo por si só
insuficiente, mas que pode servir como tratamento preventivo da
filtração; efetua-se em tanques onde a água é estagnada de 12 a 24
horas. Com a sedimentação, precipitam-se as partículas mais
grosseiras em suspensão.
Filtração: pode ser
executada: a) em vasta escala, mediante filtros constituídos por
diversas camadas formadas de pedras de dimensões cada vez menores,
até chegar à areia fina, na qual se deposita uma película
constituída de lodo, substâncias coloidais e microorganismos que
formarão, no seu conjunto, uma verdadeira camada filtrante; b) em
pequena escala, mediante diafragmas porosos constituídos de caolim
(velas de Chamberland) ou de farinha
fóssil (velas de Berkefeld); o
rendimento destes diafragmas, por si modesto, pode ser aumentado,
formando baterias de filtros.
Cloração:
esterilização das água com compostos capazes de pôr em liberdade
cloro ativo. Dentre os compostos mais usados para esse fim lembramos
os hipocloritos de cálcio e de sódio. A ação esterilizadora do cloro
e dos hipocloritos se deve ao seu enérgico poder oxidante para com
os germes patogênicos e as substâncias orgânicas.
Ozonização: método
de esterilização que conquistou grande importância, já que o
ozônio tem forte poder microbicida, com
a vantagem de não alterar os caracteres organoléticos da água. A
ozonização efetua-se levando a água em contato com o ozônio em
torres especiais.
Catadinização
(processo Catadin): esterilização mediante soluções coloidais de
prata em doses extremamente pequenas, do mesmo tamanho das que se
libertam sob a ação de uma corrente contínua entre dois elétrodos de
prata.
Esterilização mediante
calor: a ebulição da água produz a destruição dos germes
patogênicos; mas, para que ela seja completa, é necessário que a
ebulição seja prolongada.
Depuração por meio de raios
ultravioleta: obtém-se uma esterilização completa, após dez
minutos, mesmo para as águas ricas em bactérias. Os raios
ultravioleta (UV) destroem também as toxinas e não alteram a
composição da água,
Água de percolação
Movimento lento da água através
dos interstícios de um corpo poroso. Representa um dos poucos exemplos de
hidráulica prática em que se verifica o regime laminar ou de Poiseuille. Tem
aplicação no projeto de filtros, no estudo de poços freáticos e artesianos e nas
galerias filtrantes. Se a água é posta em contato com um corpo não impermeável,
como a areia, pode atravessá-lo, comportando-se como se percorresse uma série de
tubos de pequenas dimensões, em cujo interior se move sem turbulência. A
velocidade de percolação é definida por u = Q/A sendo
u a velocidade, Q a quantidade de água que flui na unidade de tempo, e
A a área de uma seção
do meio filtrante perpendicular à direção do movimento da água.
Observando-se
que na medida da área de passagem de Q está compreendida a parte ocupada pelas
partículas sólidas do corpo filtrante, nota-se que a velocidade de percolação (u) é
bem inferior à efetiva velocidade com que a água se move nos pequenos canais do
corpo poroso: todavia, para a solução dos problemas técnicos, interessa conhecer
o valor de u tal como foi definido. A velocidade de percolação depende da
carga piezométrica J e das características do corpo filtrante, que são
deduzidas experimentalmente e definidas mediante um coeficiente K,
denominado coeficiente da
permeabilidade (lei de Darcy-Ritter): u = KJ.
Igualando as duas expressões da velocidade,
obtém-se a fórmula do alcance através de um meio filtrante:
Q = KJA
Os valores médios de K praticamente
calculados são os seguintes:
Areia muito fina K = 0,00001 m/s; Areia fina K = 0,00005
m/s; Areia média K = 0,0004 m/s; Areia grossa K = 0,001
m/s;
Saibro miúdo K = 0,005 a 0,01 m/s.
A presença de impurezas, principalmente da argila, no corpo
filtrante, modifica notavelmente os valores de K, enquanto a
queda piezométrica assume diferentes expressões segundo as diversas
realizações de sistemas filtrantes:
(a) no caso de filtros a pressão,
a carga piezométrica
é retilínea e se expressa por J = h/l onde h é a diferença de nível e
l o comprimento
do filtro.
A fórmula do alcance torna-se, portanto:
Q = hKA/l
(b) para filtros laterais
de superfície livre,
a carga piezométrica tem procedimento parabólico; para modestos
desníveis h1 - h2 entre as duas superfícies líquidas, tem-se:
Q = [(h12 - h22)/
2lh2).K.A2
sendo A2 a seção da
extremidade.
AGUARRÁS
Denominação comercial de dois líquidos de origem diferente, usados
como solventes: a aguarrás vegetal (ou
essência de terebintina), que é constituída principalmente de
terebintina e se obtém da destilação das
resinas de algumas coníferas, e a aguarrás
mineral, que
provém da destilação fracionada do petróleo e se recolhe entre 150 e
200 °C. A aguarrás vegetal constitui importante matéria-prima para a
produção da cânfora sintética.
ÁGUA-RÉGIA
Mistura de ácido clorídrico e ácido nítrico concentrados na relação
volumétrica de 3:1. As suas capacidades oxidantes são tais, que
levam em solução
metais nobres como o ouro e a prata. Elas derivam da presença
simultânea de íons NO3 e de cloro elementar, ambos fortes oxidantes
em solução ácida. A oxidação dos metais nobres é também facilitada
pela tendência que têm os íons Cl- de formar
conjuntos com os íons metálicos.
ÁGUAS DE ESGOTO
São as águas derivadas de descargas higiênicas. Elas são dirigidas
para a rede de esgotos urbanos ou, então, retiradas por uma bomba
elétrica (denominada de espurgo ou livre vazão) e impelidas para uma
fossa séptica (ou
fossa negra), onde o terreno,
através de; especiais processos de drenagem, as absorve
gradativamente. São águas de esgoto também as que, nas fábricas e
nas indústrias, são libertas após terem sido usadas no ciclo de
trabalho. Como estas águas contêm frequentemente, em solução ou em
suspensão, substâncias orgânicas e inorgânicas, antes da emissão nos
esgotos ou nos rios que as recolhem, são submetidas a um processo de
depuração, a fim de evitar danos aos peixes e à vegetação.
Resumo dos principais tipos
- Água potável: destinada
ao consumo humano por apresentar as condições ideais para a saúde.
Pode ser tratada ou retirada de fontes naturais, desde que seja
pura.
- Água salobra: é
uma água de aparência turva. Possui grandes quantidades de sal ou
outra substância dissolvida. Não pode ser consumida pelo ser humano.
É muito encontrada em regiões de mangue (áreas alagadas próximas ao
litoral).
- Água doce: é a
água que encontramos em rios, lagos, riachos, etc. Possui baixa
quantidade de minerais e algumas impurezas (caso esteja
contaminada). É uma água de cor marrom, pois possui também grande
quantidade de terra dissolvida. Para ser consumida precisa passar
por processo de tratamento específico. Quando está limpa, costuma
abrigar grandes quantidades de peixes. O Brasil é um país rico em
água doce graças a grande quantidade de rios.
- Água salgada: é
a conhecida água do mar. Possui grande quantidade de sais,
principalmente o famoso sal de cozinha (cloreto de sódio). Não pode
ser consumida pelo ser humano.
- Água contaminada: geralmente
presente em rios e lagos que recebem esgotos ou resíduos
industriais. Não pode ser consumida, pois apresenta microrganismos
que transmitem doenças ou produtos químicos que prejudicam a saúde
humana. Geralmente encontramos baixa existência de vida animal neste
tipo de água.
- Água destilada: água
com altas concentrações de hidrogênio e oxigênio. É produzida de
forma artificial em indústrias pelo processo de destilação. Na
natureza, ela se forma durante o processo de chuva. É uma água muito
usada em baterias de automóveis ou como reagente industrial. Não
pode ser consumida.
- Água mineral: água
que possui grande quantidade de minerais oriundos da natureza.
Algumas destas águas possuem propriedades terapêuticas. Alguns tipos
de águas minerais são próprias para o consumo, tanto que são
engarrafadas e vendidas por empresas.
- Água poluída: é
um tipo de água misturada com algum poluente. Neste caso, a água
perde seu cheiro e cor natural, ficando imprópria para o consumo.
Referências bibliográficas:
- Enciclopédia Tecnológica Planetarium - volume 1
- Enciclopédia Meridiano Fischer - Geofísica (Julius Bartels, Gustav
Angenheister)
- Traité de Physique Biologique (D'Arsonval, Chauveau, Gariel, Marey)
- Tome deuxiéme
Léo/18/11/2011
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