|
Simplesmente Química
Prof. Luiz Ferraz Netto [Léo]
luizferraz.netto@gmail.com
leobarretos@uol.com.br
Química 8- Os sentidos
das reações (parte 2)
Constante de equilíbrio
Por mais de cinqüenta anos, a hipótese de Berthollet sobre a
influência da massa no sentido das reações não conseguiu ser aceita,
embora um químico após o outro se preocupasse com o assunto.
Finalmente, em 1863, os químicos noruegueses
Cato Maximilian Guldberg e Peter Waage
estudaram o caso a fundo e acabaram por anunciar aquilo que hoje
conhecemos com o nome de lei da ação das massas
(Infelizmente, eles publicaram o seu trabalho em norueguês, o que
ocasionou um atraso de quinze anos, até que os grandes químicos
alemães e franceses tomassem conhecimento dele.).
Para mostrar o mais claramente possível
o significado desta lei, consideremos uma reação reversível geral,
na qual não seja necessário especificar exatamente quais as
substâncias envolvidas. Uma reação desta espécie pode ser escrita
assim:
A + B
D
C + D
Se considerarmos que a reação esteja
indo da esquerda para a direita, então A e B estarão reagindo para
formar C e D. Para fazer isto, porém, estas duas substâncias, por
assim dizer, devem se encontrar. Quanto maior a quantidade presente
destas duas substâncias, mais facilmente elas poderão encontrar-se
dentro da massa da reação, e mais rapidamente ocorrerá a combinação.
Aliás, não é tanto a quantidade total que influi, mas principalmente
a quantidade presente num dado volume; quantidade por volume é
chamada de concentração.
(Como analogia, imaginemos o seguinte: uma jovem com desejos de
casar poderá encontrar mais moços adequados no
estado de Mato Grosso do que na cidade
de Campinas --- sem piadas! ---, mas em Mato Grosso estes moços
estarão muito mais espalhados. A concentração é maior em
Campinas, e portanto as oportunidades matrimoniais serão maiores.)
Dobrando a concentração de A, duplica-se
o número de encontros de A com B, e portanto a velocidade da
combinação. O mesmo vale se dobrarmos a concentração de B.
Duplicando-se as concentrações de A e B, simultaneamente, então as
oportunidades de encontro e, conseqüentemente, a velocidade de
combinação, são dobradas duas vezes, ou seja, multiplicadas por
quatro. Assim, a velocidade de combinação é
proporcional (a)
à concentração de A multiplicada pela concentração de B.
Costuma-se exprimir a concentração de qualquer substância,
encerrando o símbolo desta substância em colchetes; então, podemos
escrever o que acabamos de dizer, em símbolos, da seguinte maneira:
velocidade da
reação para a direita:
a
[A] [B]
Ora, como sabemos, toda vez que uma
quantidade x é diretamente proporcional a uma outra quantidade, y,
esta proporcionalidade pode ser transformada numa igualdade, se y
for multiplicado por um valor fixo, geralmente representado por k, e
chamado de 'constante de proporcionalidade'. Em outras palavras, se
x a
y, então x = ky.
Aplicando isto ao caso da reação para a direita:
velocidade de
reação para a direita = k [A] [B]
O valor real de k, para alguma reação
particular, deve ser determinado pela experiência. Agora, porém, não
precisamos do valor verdadeiro. É suficiente sabermos que, mantidas
as condições, k é um valor fixo.
Se agora concentramos nossas atenções
sobre a reação para a esquerda, verificamos que isto envolve a
combinação de C e D, formando A e B. De acordo com a mesma linha de
raciocínio como no caso anterior, esta velocidade de reação para a
esquerda depende das concentrações de C e D, e podemos dizer que:
velocidade da
reação para a esquerda = k’ [C] [D]
onde k’ representa outra constante de
proporcionalidade, presumivelmente de valor diferente do que a
primeira, e por esta razão caracterizada pelo sinal (').
Ora, no equilíbrio as reações têm a
mesma velocidade em ambos os sentidos (esta condição de equilíbrio
dinâmico foi esclarecida primeiramente pelo químico inglês
Alexander William Williamson, em 1850);
então, no equilíbrio, vale o seguinte:
k [A] [B] = k’ [C] [D]
e, manipulando isto de acordo com as
regras algébricas normais:
([C][D]) / ([A][B]) = k / k'
Uma vez que tanto k quanto k’ são
constantes a divisão de uma pela outra fornecerá ainda uma
constante, que chamaremos de K. Portanto:
([C][D]) / ([A][B]) = K
onde K é chamado de constante de
equilíbrio. Este valor determina as condições de concentração
que deverão reinar no equilíbrio.
Suponhamos, por exemplo, que uma
quantidade adicional de C seja acrescentada à mistura em equilíbrio.
Neste caso, o produto [C] [D], que é o numerador da fração, aumenta.
Para que K mantenha seu valor fixo, o denominador [A] [B] também
deve aumentar. A única maneira possível de acontecer isto é que uma
quantidade de C e D combinem para dar A e B. Isto significa que [C]
[D] diminuirá um pouco, enquanto [A] [B] aumentará, até que a fração
tenha, novamente, o valor de K; neste ponto, o equilíbrio é
novamente atingido. O mesmo
aconteceria se adicionássemos uma quantidade de D, ao invés de C.
Você mesmo pode verificar o que
aconteceria se acrescentássemos quantidades adicionais de A ou de B
(ou de ambos), ou se retirássemos estas substâncias da mistura de
reação, ou se retirássemos C ou D, de ambos.
Para resumir, e para dar-lhe a resposta,
o efeito da lei da ação das massas é afirmar que, na reação
reversível:
A+B
D
C+D
a reação é forçada para a esquerda
quando se adiciona C ou D, ou quando se retira A ou B.
(Em 1901, o químico americano
Gilbert Newton Lewis modificou a lei da
ação das massas, mostrando que não era a concentração das
substâncias que determinava o decurso de uma reação reversível, mas
uma quantidade denominada de atividade destas substâncias.
Esta atividade estava relacionada com a concentração, e muitas vezes
era quase igual a ela, particularmente quando o valor da
concentração era baixo. Este refinamento não deve nos preocupar
muito, embora seja adequado conhecer a sua existência.)
Princípio de Le
Châtelier
Em 1888, esta resposta das reações reversíveis à alterações da
concentração passou a fazer parte de uma generalização mais ampla,
quando o químico francês Henry Louis Le
Châtelier afirmava: "em todo sistema em equilíbrio, qualquer
alteração das condições resulta num deslocamento do equilíbrio no
sentido em que este deslocamento tende a anular, parcialmente, a
alteração que lhe deu origem."
Esta generalização é conhecida com o nome de princípio de Le
Châtelier.
Em outras palavras, quando se adiciona A
ou B à reação reversível que estivemos considerando mais acima, o
equilíbrio se desloca de maneira a consumir uma parte desta
quantidade acrescentada de A ou B. Ou, mais amplamente, quando se
aquece um sistema em equilíbrio, o equilíbrio se deslocará de forma
a absorver uma parte do calor fornecido; ou seja, o equilíbrio se
desloca para o lado endotérmico. De
maneira semelhante, quando uma mistura
de equilíbrio é resfriado, o deslocamento se dá para o lado da
reação exotérmica.
(Com base apenas neste fato, podemos prever que, se aquecermos o
sistema de hidrogênio, iodo e iodeto de hidrogênio discutido mais
acima, o sentido da reação será deslocado para o lado da formação de
quantidades maiores de iodeto de hidrogênio, enquanto um
resfriamento ocasionará um deslocamento no sentido oposto.)
Por outro lado, um aumento de pressão deslocará o equilíbrio no
sentido em que houver uma diminuição de volume.
De fato, é possível encarar o princípio
de Le Châtelier como uma lei de aplicação universal, que funciona
até mesmo para o comportamento humano. O homem médio geralmente
procura manter uma espécie de equilíbrio entre os seus rendimentos e
as suas despesas, de modo tal que nem as suas economias nem as suas
dívidas se acumulem excepcionalmente. Se este homem receber um
aumento de salário, ou se algum tio lhe deixar uma herança, seu
padrão de vida geralmente se eleva, compensando parcialmente o
aumento de rendimentos. Se, por outro lado, seu ordenado diminuir,
ou se ele perder o emprego, começará a economizar, reduzindo as suas
despesas, e assim compensará parcialmente a diminuição de
rendimentos.
Depois que a lei da ação das massas
havia sido aceita, ainda era preciso ligá-la às leis da
termodinâmica, para que se pudesse mostrar, bem claramente, que a
energia química também seguia as mesmas regras válidas para as
outras formas de energia.
Já em 1869, um químico alemão chamado
August Friedrich Horstmann aplicou as
noções da termodinâmica à decomposição de um composto denominado de
cloreto de amônio, e durante as duas décadas seguintes diversos
outros químicos se preocuparam com o problema.
O trabalho mais importante foi realizado
por um químico teórico americano,
Josiah Willard Gibbs. Em 1876 e 1878,
trabalhando em Yale, Gibbs publicou
trabalhos na revista "Transactions of the Connecticut Academy of
Sciences", nos quais as leis da termodinâmica eram aplicadas,
detalhadamente, às reações químicas. Mostrou ele que a lei da ação
das massas era uma conseqüência inevitável das leis da
termodinâmica. O tratamento do assunto era, na realidade, tão
completo, que o campo da energia química passou a ser não
simplesmente chamado de Termoquímica, mas podia ser considerado uma
Termodinâmica Química.
Infelizmente para Gibbs, porém, a
corrente da ciência teórica fluía mais fortemente na Europa, por
estes dias, e os cientistas americanos eram pouco considerados. Uma
vez que as revistas científicas americanas não eram lidas
assiduamente, o trabalho de Gibbs passou desapercebido dos sábios
europeus por mais de vinte anos.
Finalmente, por volta de 1890, o próprio Le Châtelier traduziu os
trabalhos de Gibbs para o francês, enquanto que o físico-químico
alemão
Wilhelm Ostwald os traduzia para o alemão. Então finalmente
Gibbs recebeu a atenção que lhe era devida.
Por esta altura dos acontecimentos, Helmholtz
(conhecido da primeira lei da termodinâmica), e o químico
holandês Jacobus
Hendricus van’t Hoff haviam estabelecido, independentemente,
os princípios da termodinâmica química; mas Gibbs reconhecidamente
tivera o mérito de chegar primeiro a este ponto. Em 1901, Gibbs
recebeu oficialmente o reconhecimento de seus méritos nos meios
científicos europeus, na forma da medalha Copley da “Royal Society
of London”; aliás, esta honraria veio em cima da hora, pois o
cientista americano faleceu em 1903.
Indo atrás
do trabalho útil
Essencialmente, o tratamento de Gibbs envolvia o fato de que, em
qualquer reação química espontânea, a entropia deve aumentar,
assim como acontece com toda transformação energética. Uma vez que a
energia total envolvida não podia variar, e o aumento de entropia
era um modo de medir energia que
não podia ser convertida em trabalho útil, então a quantidade de
energia que podia ser convertida em trabalho útil tinha que
diminuir.
A quantidade de energia disponível para
a conversão em trabalho útil no decurso de uma reação química, é
diferente de acordo com as condições em que se dá a reação: a volume
constante ou a pressão constante. Conforme explicamos no trabalho
anterior (calor de reação), sistemas a pressão constante
assemelham-se mais à realidade; a quantidade de energia disponível
para a conversão em trabalho útil no decurso de uma reação química a
pressão constante chama-se de função de Gibbs, em honra a
este cientista.
Por volta de 1920, Lewis introduziu,
para este conceito, o termo energia livre, e este nome se
impôs. No entanto, o resultado desta duplicidade de nomes é um
símbolo duplo. A energia livre às vezes é simbolizada como F;
energia livre (DF),
e a variação de entropia (DS).
Outras vezes como G (função de Gibbs,
DG).
Uma vez que o nome comum é 'energia livre', demos preferência ao
símbolo F ("free"), que é aquele que usamos nestas divulgações.
Gibbs mostrou o seguinte: "em
qualquer reação a uma dada temperatura (T), existe sempre uma
relação simples entre a variação da entalpia (DH),
a variação de energia livre (DF),
e a variação de entropia (DS).
Esta relação é:
DH =
DF
+ T.DS
"
Não é
incomum a seguinte notação, onde DG
indica a energia livre de
Gibbs (que é a notação comum, mesmo no Ensino Médio) :
DG =
DH
- T.DS
Ora, em termodinâmica, a temperatura
sempre é dada na escala absoluta, de modo que não aparecem
temperaturas menores do que zero. Portanto, o valor de T sempre é
positivo. Da segunda lei da termodinâmica, sabemos que, em qualquer
reação espontânea, a entropia sempre deve crescer, o que faz com que
o incremento de entropia, DS,
também seja sempre positivo. Uma vez que o produto de dois
fatores positivos sempre dá um resultado
também positivo, podemos finalizar, dizendo que o termo T.DS
é sempre positivo.
Por outro lado, de acordo com o
raciocínio de Gibbs, a energia livre sempre diminui em qualquer
reação química espontânea, de forma que a variação de energia livre
(DF)
sempre deve ser negativa.
Portanto, como você pode ver, o valor de
DH
é a soma de dois números, sendo um positivo e o outro negativo. No
entanto, embora a termodinâmica nos garante que um dos termos da
soma deve ser positivo e o outro negativo, ela nada nos diz acerca
do valor exato de cada um dos termos. Se o valor negativo de
DF
for maior do que o termo positivo de T.DS
(o que acontece com bastante freqüência), a soma dos dois,
DH,
é negativa, e a reação é exotérmica. Se o termo positivo T.DS
resulta sendo maior, ( que acontece algumas vezes), então a soma dos
dois é positiva, e a reação é endotérmica.
Em ambos os casos, porém, tanto para a
reação exotérmica como para a endotérmica, a entropia cresce e a
energia livre diminui, e a reação é espontânea.
O que se deve observar, pois, não é se
há liberação ou absorção de calor; é preciso concentrar a atenção
sobre a energia livre. A reação sempre irá no sentido da energia
livre decrescente, assim como o calor passa do corpo mais quente
para o mais frio, e um corpo pesado rola para o fundo do vale.
Gibbs continuou mais adiante, mostrando
que a quantidade de energia livre presente em qualquer substância
química variava um pouco com a concentração desta substância. Assim,
era possível alterar a natureza da variação de energia livre,
deslocando as concentrações das substâncias, de maneira tal que este
valor se tornasse negativo quando a reação se processasse num certo
sentido, enquanto que, anteriormente, ele fora negativo para a
reação oposta. Isto explicava porque uma reação reversível podia ser
deslocada em um sentido ou no
outro, pela adição ou remoção dos componentes do sistema em questão.
Era como o caso de uma esfera em repouso
sobre um plano liso, perfeitamente horizontal, (equilíbrio), que
podia ser inclinado levemente, para um lado ou para o outro. Era
possível fazer a bola rolar num sentido ou no outro.
Gibbs desenvolveu uma expressão que
combinava a energia livre e a concentração, chamando-a de
potencial químico. Aqui, finalmente, encontramos o que estivemos
procurando nesta parte final do trabalho. De acordo com a definição
de Gibbs, toda reação se dá de maneira a diminuir o seu potencial
químico.
Copyright © Luiz Ferraz
Netto - 2000-2011 ® - Web Máster: Todos os Direitos Reservados
|