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Motor
Sônico
O ar como massa
vibrante
Prof.
Luiz Ferraz Netto
leobarretos@uol.com.br
Introdução
Esse é um modelo didático de um motor propelido pelos jatos de ar lançados
pelos gargalos de um conjunto de ressoadores de Helmholtz, quando excitados
por uma fonte sonora externa de freqüência apropriada. Vários outros
fatores/ensaios associados à onda e ao ar confinado, como massa vibrante,
podem ser realizados, dependendo do grau de estudo abordado.
Constatação
do fenômeno
Abaixo ilustramos um arranjo experimental muito simples, mas de capital
importância ao estudioso da Acústica. Ele é constituído por um alto
falante excitado por um oscilador conveniente (gerador de sinais de áudio
+ amplificador), um ressoador de Helmholtz e uma vela comum. A vela é
colocada na boca do ressoador e é então ligado o oscilador. A posição
da fonte excitadora (alto falante, no caso) é qualquer (atrás, na frente
ou ao lado do ressoador).
Partindo-se
da freqüência mínima vai-se elevando a mesma e, ao mesmo tempo,
observa-se o comportamento da chama da vela. Na freqüência de 330Hz (se r
= 0,02 m, R = 0,05 m e L = 0,05 m) a chama da vela inclina-se para o lado
do alto-falante, isto é, afasta-se do gargalo do ressoador. Isto porque há
oscilação ou vibração do ar contido no interior do mesmo, sendo tal ar
impelido pelo tubo que forma a garganta do ressoador, cuja freqüência
natural é de 330 Hz.
Justificativa
Quando o ar é impelido para o interior do ressoador, esse ar é retirado
de toda a região que circunda a boca do gargalo e o movimento é altamente
rotacional (regime turbilhonar); durante o processo inverso, o ar é
expelido, mas sob a forma de jato (regime lamelar), e não em movimento
aleatório, como durante a sua entrada. Tal fato obriga a chama da vela a
inclinar-se. A razão da modificação do regime do movimento para impelir
e expelir o ar, pode ser explicada acusticamente por uma variação da
impedância durante os processos. Durante a insuflação de ar, o meio vê
a impedância da boca e, no processo inverso, o tubo vê a impedância do
meio.
O
mesmo efeito é que nos permite respirar em ambiente sem movimento de ar,
sem que inspiremos o ar viciado que lançamos
na atmosfera. Durante a inspiração, insuflamos ar que se encontra
distribuído no entorno do nariz, e expiramos o ar em forma de jato numa
direção bem determinada. Tal ar não é mais inspirado, a não ser uma
fração diminuta.
Uma
aplicação
Quando tratamos do barco
Pop-Pop, mostramos que esse é justamente o princípio que impulsiona o
barco; a água é 'aspirada' do entorno do tubo e 'expirada' em jato. A única
diferença com o experimento atual é que a excitação no caso do barco é
'interna' (produção do vapor) e no caso do ressoador é 'externa' (massa
de ar ressonante por excitação externa).
O
motor sônico
Ainda pelo mesmo princípio, funciona nosso motor
sônico. Ele poderia ser denominado, também, roda
sônica ou torniquete acústico.
Ilustramos abaixo nosso motor sônico, formado por quatro ressoadores,
dispostos como um 'torniquete'.
Quando
a freqüência de ressonância dos ressoadores, supondo as quatro iguais,
é levada ao espaço ocupado pela roda a mesma se põe a girar. Isso se
consegue ajustando-se a freqüência do gerador de sinais (o que, sem dúvida,
vai depender das dimensões dos ressoadores). Com as dimensões dadas acima
(r = 0,02 m, R = 0,05 m e L = 0,05 m) a ressonância deve ocorrer ao redor
do 330 Hz. Mais à frente mostraremos porque não é exatamente '330
Hz".
O recomendável é que se façam ressoadores de vidro e uma estrutura
(torniquete) apoiada em mancais de vidro, todavia, tais requintes
dificilmente poderão ser conseguidos pelos alunos do ensino médio. Assim
sendo, sugere-se bolas de plástico fino e rígido com gargalo de mesmo
material. O torniquete pode ser feito com varetas de PVC e o mancal pode
ser um simples gargalo de ampola para injeção (facilmente obtido na
'sucata de farmácias' --- cuidado!) apoiado em um alfinete, como eixo. O
gerador de sinais de áudio e amplificador (mono, 10 W) é de fácil obtenção,
mesmo como empréstimo. Osciladores de áudio, usando o conhecido "NE-555"
podem ser experimentados.
Comentário
Não é possível que a ressonância observada seja proveniente de uma
ressonância de quarto de comprimento de onda ou de onda estacionária no
ressoador porque, na montagem acima, a excitação tem (l/4
)330Hz = 0,25 m, muito maior do que as dimensões do ressoador.
Assim sendo, a ressonância é proveniente do ar que, na garganta do
ressoador, funciona como uma massa e no corpo do mesmo, como uma rigidez.
Expliquemos melhor de onde veio esse 0,25 m:
Vsom
= l.f
, ou, 340 = l
x 330, então l
= 340/330 = 1,03 m e l/4
= 1,03/4 = 0,25 m.
O
ressoador de Helmholtz e a correção de Rayleigh
Com os valores correspondentes aos ressoadores do motor sônico (r = 0,02
m, R = 0,05 m e L = 0,05 m), a fórmula de Helmholtz
(os interessados devem consultar a teoria correspondente, a partir do
'cogumelo acústico') dará, para a freqüência de ressonância, o valor
367 Hz. Este valor não coincide com a freqüência de 330 Hz, determinada
experimentalmente para a ressonância daquele ressoador.
O motivo da discrepância, é o efeito de jato durante as pulsações. Uma
parte do ar no entorno da boca do ressoador também vibra, o que se traduz
por um aumento virtual no comprimento do tubo que forma o gargalo do
ressoador. Lord Rayleigh, estudou o problema
com detalhe e concluiu que o ar no entorno da boca do ressoador, dá ao
gargalo um "comprimento acústico” que não coincide com o
comprimento geométrico do tubo. O comprimento acústico é então, igual
ao comprimento geométrico mais uma correção que depende do raio do
gargalo.
Para um gargalo curto, (L ~ R) o comprimento acústico é LA
= L + p.r/2
. Para L >> R será LA = L
e, no caso de ser L = 0 deve-se introduzir somente a correção dos
extremos, e então, LA = p.r/2.
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