|
||||||||
Motores elétricos
Prof.
Luiz Ferraz Netto
leobarretos@uol.com.br
Introdução
A rotação inerente aos motores elétricos é
a base do funcionamento de muitos eletrodomésticos. Por vezes, esse
movimento de rotação é óbvio, como nos ventiladores ou batedeiras de
bolos, mas freqüentemente permanece um tanto disfarçado, como nos
agitadores das máquinas de lavar roupas ou nos 'vidros elétricos' das
janelas de certos automóveis.
Motores elétricos são encontrados nas mais variadas formas e tamanhos,
cada qual apropriado á sua tarefa. Não importa quanto torque ou potência
um motor deva desenvolver, com certeza, você encontrará no mercado aquele
que lhe é mais satisfatório.
![]() |
Alguns motores operam com corrente contínua (CC / DC) e podem ser alimentados quer por pilhas/baterias quer por fontes de alimentação adequadas, outros requerem corrente alternada (CA / AC) e podem ser alimentados diretamente pela rede elétrica domiciliar. Há até mesmo motores que trabalham, indiferentemente, com esses dois tipos de correntes.
Princípio
de funcionamento
Aqui pretendemos examinar os componentes básicos dos motores elétricos;
ver 'o que faz um motor girar' e como os
motores diferem um dos outros. Para fazer isso iremos nos aproveitar de
conceitos já conhecidos sobre os ímãs, forças magnéticas entre ímãs,
ação dos campos magnéticos sobre as correntes etc., e, quando se fizer
necessário, revisaremos algumas dessas importantes relações que existem
entre eletricidade e magnetismo.
Nota: Nessa primeira parte, mais
elementar, usaremos apenas o conceito de "repulsão/atração
entre pólos magnéticos"; numa segunda parte, mais avançada,
usaremos do conceito da "ação dos campos magnéticos
sobre as correntes".
Enquanto não avançamos no assunto, vá pensando: Como as forças magnéticas podem fazer algo girar? Se as forças magnéticas são as causas do 'por que o motor gira', por que não podemos fazer um motor construído exclusivamente com ímãs permanentes? O que é que determina 'para que lado' o motor vai girar?
O
que faz girar o rotor do motor elétrico?
O rotor do motor precisa de um
torque para iniciar o seu giro. Este torque (momento) normalmente é
produzido por forças magnéticas desenvolvidas entre os pólos magnéticos
do rotor e aqueles do estator. Forças de atração ou de repulsão,
desenvolvidas entre estator e rotor, 'puxam' ou 'empurram' os pólos móveis
do rotor, produzindo torques, que fazem o rotor girar mais e mais
rapidamente, até que os atritos ou cargas ligadas ao eixo reduzam o torque
resultante ao valor 'zero'. Após esse ponto, o rotor passa a girar com
velocidade angular constante. Tanto o rotor como o estator do motor devem
ser 'magnéticos', pois são essas forças entre pólos que produzem o
torque necessário para fazer o rotor girar.
Todavia, mesmo que ímãs permanentes sejam freqüentemente usados,
principalmente em pequenos motores, pelo menos alguns dos 'ímãs' de um
motor devem ser 'eletroímãs'.
Um motor não pode funcionar se for construído
exclusivamente com ímãs permanentes!
Isso é fácil de perceber pois, não só não haverá o torque
inicial para 'disparar' o movimento, se eles já estiverem em suas posições
de equilíbrio, como apenas oscilarão, em torno dessa posição, se
receberem um 'empurrão' externo inicial. Muitos 'inventores de motos contínuos'
não percebem isso e se envolvem em 'desenhos' de "motores magnéticos"
os quais, obviamente, não saem da fase de 'desenho'. Quando saem, tais
protótipos só dá alguns giros devido à energia inicial do 'empurrão' e
assumem suas posições de equilíbrio. Outros alardeiam:--- ... mas, os
japoneses construíram uma motocicleta com motor puramente magnético! Até
o Youtube mostra isso! E tal motocicleta nunca aparece para ser examinada
por um grupo de físicos ou engenheiros!
É condição necessária que algum 'pólo' altere sua polaridade para garantir a rotação do rotor. Vamos entender melhor isso, através da ilustração abaixo.
|
|
Um motor simples consiste de uma bobina que gira entre dois ímãs permanentes. (a) Os pólos magnéticos da bobina (representados como ímã) são atraídos pelos pólos opostos dos ímãs fixos. (b) A bobina gira para levar esses pólos magnéticos o mais perto possível um do outro mas, (c) ao chegar nessa posição o sentido da corrente é invertido e (d) agora os pólos que se defrontam se repelem, continuando a impulsionar o rotor.
Acima
esquematizamos um motor simples onde o estator é constituído por ímãs
permanentes e o rotor é uma bobina de fio de cobre esmaltado por onde
circula uma corrente elétrica. Uma vez que as correntes elétricas
produzem campo magnéticos essa bobina se comporta
como um ímã permanente, com seus pólos N (norte) e S (sul) como
mostrados na figura.
Comecemos a descrição pela situação ilustrada em (a) onde a
bobina apresenta-se horizontal. Como os pólos opostos se atraem, a bobina
experimenta um torque que age no sentido de girar a bobina 'para a
esquerda'. A bobina sofre aceleração angular e continua seu giro para a
esquerda, como se ilustra em (b). Esse torque continua até que os pólos
da bobina alcance os pólos opostos dos ímãs fixos (estator). Nessa situação
(c) -- a bobina girou de 90o -- não há torque algum,
uma vez que os braços de alavanca são nulos (a direção das forças
passa pelo centro de rotação); o rotor está em equilíbrio estável (força
resultante nula e torque resultante nulo). Esse é o instante adequado para
inverter o sentido da corrente na bobina. Agora os pólos de mesmo nome estão
muito próximos e a força de repulsão é intensa. Como a bobina já
apresenta um momento angular 'para a esquerda', ela continua girando 'para
a esquerda' (algo como uma 'inércia de rotação') e o novo torque (agora
propiciado por forças de repulsão), como em (d), colabora para a
manutenção e aceleração do movimento de rotação.
Mas, mesmo após a bobina ter sido girada de 180o -- não
ilustrada na figura --, o movimento continua, a bobina chega na 'vertical'
-- giro de 270o --, o torque novamente se anula, a corrente
novamente inverte seu sentido, novo torque e a bobina chega novamente á
situação (a) -- giro de 360o --. E o ciclo se repete.
Essas atrações e repulsões bem coordenadas é que fazem o rotor girar,
embora o modo como tais torques sejam obtidos possam variar entre os vários
tipos de motores. A inversão do sentido da corrente, no momento oportuno,
é condição indispensável para a manutenção dos torques 'favoráveis',
os quais garantem o funcionamento dos motores. É por isso que um motor não
pode ser feito exclusivamente com ímãs permanentes!
A seguir, vamos examinar como essa 'condição indispensável para a manutenção dos torques favoráveis' é implementada nos diferentes tipos de motores. Perceba, por exemplo, que nas explicações acima, nada foi dito sobre 'como inverter o sentido da corrente'.
Motores
CC
Fazer um motor elétrico que possa ser acionado por pilhas ou baterias não
é tão fácil como parece. Não basta apenas colocar ímãs permanentes
fixos e uma bobina, pela qual circule corrente elétrica, de modo que possa
girar entre os pólos desses ímãs.
Uma corrente contínua, como o é a fornecida por pilhas ou baterias, é
muito boa para fazer eletroímãs com pólos imutáveis mas, como para o
funcionamento do motor é preciso periódicas mudanças de polaridade, algo
tem que ser feito para inverter o sentido da corrente nos momentos
apropriados.
Na
maioria dos motores elétricos CC, o rotor é um 'eletroímã'
que gira entre os pólos de ímãs permanentes estacionários. Para tornar
esse eletroímã mais eficiente o rotor contém um núcleo de ferro, que
torna-se fortemente magnetizado, quando a corrente flui pela bobina. O
rotor girará desde que essa corrente inverta seu sentido de percurso cada
vez que seus pólos alcançam os pólos opostos do estator.
O modo mais comum para produzir essas reversões é usar um comutador.
|
|
||
| A corrente flui ora num sentido ora no outro, no rotor desse motor CC, graças às escovas de metal (esquerda da ilustração). Essas escovas tocam o comutador do rotor de forma que a corrente inverte seu sentido a cada meia volta do rotor. | |||
Em sua forma mais simples, um comutador apresenta duas placas de cobre encurvadas e fixadas (isoladamente) no eixo do rotor; os terminais do enrolamento da bobina são soldados nessas placas. A corrente elétrica 'chega' por uma das escovas (+), 'entra' pela placa do comutador, 'passa' pela bobina do rotor, 'sai' pela outra placa do comutador e 'retorna' á fonte pela outra escova (-). Nessa etapa o rotor realiza sua primeira meia-volta. Eis um visual completo:
|
|
Nessa
meia-volta, as placas do comutador trocam seus contatos com as escovas e a
corrente inverte seu sentido de percurso na bobina do rotor. E o motor CC
continua girando, sempre com o mesmo sentido de rotação.
Mas, o motor CC acima descrito tem seus problemas. Primeiro não há nada
que determine qual será o sentido de sua rotação na partida, tanto poderá
iniciar girando para a 'esquerda' como para a 'direita'. Segundo, é que
por vezes, as escovas pode iniciar tocando ambas as placas ou eventualmente
nenhuma; o motor 'não dá partida'! Para que a partida se dê com total
confiança e no sentido certo é preciso que as escovas sempre 'enviem'
corrente para o rotor e que não ocorra nenhum curto circuito entre as
placas devido às escovas.
Na maioria dos motores CC consegue-se tais exigências colocando-se várias bobinas no rotor, cada uma com seu par de placas no comutador. Conforme o rotor gira, as escovas suprem a corrente para as bobinas, uma de cada vez, uma após a outra. A 'largura' das escovas também deve ser bem planejada.
O
rotor de um motor CC gira com velocidade angular que é proporcional à
tensão aplicada em suas bobinas. Tais bobinas têm pequena resistência elétrica
e conseqüentemente seriam percorrida por intensas correntes elétricas se
o rotor permanecesse em repouso. Todavia, uma vez em movimento, as alterações
do fluxo magnético sobre tais bobinas, geram uma força
contra-eletromotriz (f.c.e.m.), extraem energia daquela corrente e
baixa as tensões elétricas sobre tais bobinas. O torque resultante se
anulará quando essa f.c.e.m. se igualar á tensão elétrica aplicada; a
velocidade angular passa a ser constante.
Em geral, 'carregando-se' o motor (ligando seu eixo a algo que deve ser
movimentado) sua rotação não varia acentuadamente, mas, uma maior potência
será solicitada da fonte de alimentação (aumenta a intensidade de
corrente de alimentação). Para alterar a velocidade angular devemos
alterar a tensão aplicada ao motor.
O sentido de rotação do rotor depende das assimetrias do motor e também
do sentido da corrente elétrica; invertendo-se o sentido da corrente o
motor começará a girar 'para trás'. É assim que fazemos um trenzinho de
brinquedo 'andar para trás'; invertemos o sentido da corrente em seu
rotor.
Motores
universais
Antes de comentarmos sobre os
verdadeiros motores elétricos AC, vejamos um tipo intermediário de motor
denominado motor universal. Esse motor pode
funcionar tanto com alimentação DC como AC. Um verdadeiro motor elétrico
DC não aceita alimentação AC (essa inverte o sentido da corrente a cada
meio ciclo e isso apenas causaria trepidações); do mesmo modo, um
verdadeiro motor AC (como veremos) não aceita alimentação DC (essa não
oferecerá as convenientes alterações do sentido da corrente para o
correto funcionamento do motor).
Porém, se substituirmos os ímãs permanentes dos estatores dos motores DC
por eletroímãs e ligarmos (em série) esses eletroímãs no mesmo
circuito do rotor e comutador, teremos um motor universal. Eis a ilustração
dessa 'engenhoca':
![]() Nos motores universais, tanto estator como rotor são eletroímãs com bobinas em série e concordância. |
Este motor 'girará' corretamente quer seja alimentado por corrente contínua ou corrente alternada. A diferença notável entre motor universal e motor DC é que se você alimentar o motor universal com fonte DC, ele não inverterá o sentido de rotação se você inverter a polaridade da fonte (como acontece com o motor DC), continuará a girar sempre no mesmo sentido. Se você quiser realmente inverter o sentido de rotação de um motor universal deverá inverter as ligações nos eletroímãs dos estatores para inverter seus pólos.
|
Motores universais são usados, por exemplo, em batedeiras elétricas, aspiradores de pó etc. Em tais motores, com o tempo de uso, haverá desgastes nas escovas de carvão e deverão ser substituídas. Basta você levar um pedacinho da escova velha até uma loja de ferragens, comprar o par de escovas novas adequadas e repor no motor; uma operação bastante simples. |
|
Motores
AC síncronos
Alguns motores são projetados para
operar exclusivamente com corrente alternada. Um tal
motor é esquematizado a seguir:
![]() O motor síncrono AC usa eletroímãs como estatores para fazer girar o rotor que é um ímã permanente. O rotor gira com fre- qüência igual ou múltipla daquela da AC aplicada. |
Este motor é essencialmente idêntico a um gerador elétrico; realmente, geradores e motores têm configuração bastante próximas. Um gerador usa do trabalho mecânico para produzir a energia elétrica enquanto que um motor usa a energia elétrica para produzir trabalho mecânico. O rotor, na ilustração acima, é um ímã permanente que gira entre dois eletroímãs estacionários. Como os eletroímãs são alimentados por corrente alternada, seus pólos invertem suas polaridades conforme o sentido da corrente inverte. O rotor gira enquanto seu pólo norte é 'puxado' primeiramente para o eletroímã esquerdo e 'empurrado' pelo eletroímã direito. Cada vez que o pólo norte do rotor está a ponto de alcançar o pólo sul de um eletroímã estacionário, a corrente inverte e esse pólo sul transforma-se um pólo norte. O rotor gira continuamente, terminando uma volta para cada ciclo da corrente alternada. Como sua rotação é perfeitamente sincronizada com as reversões da C.A, este motor é denominado 'motor elétrico síncrono da C. A.'. O motor da bomba d'água de máquinas de lavar roupa, por exemplo, são desse tipo. Os motores de C.A síncronos são usados somente quando uma velocidade angular constante é essencial para o projeto.
Entretanto, os motores síncronos ilustram um ponto importante sobre motores e geradores: são, essencialmente, os mesmos dispositivos. Se você conectar um motor C.A síncrono à rede elétrica domiciliar e o deixar girar, extrairá energia do circuito elétrico e fornecerá trabalho mecânico. Mas, se você ligar uma lâmpada incandescente no cordão de força que sai desse mesmo motor e girar bem rapidamente seu rotor (com um sistema de rodas acopladas e manivela), gerará 'eletricidade' e a lâmpada acenderá.
Motores
A.C. de indução
Alguns motores de corrente alternada
têm rotores que não são quer imãs permanentes quer
eletroímãs convencionais. Estes rotores são feitos de metais não-magnéticos,
como o alumínio, e não têm nenhuma conexão
elétrica. Todavia, o isolamento elétrico deles não
os impede de ficarem 'magnetizados' ou 'imantados'. Quando um rotor feito
de alumínio é exposto a campos magnéticos
alternados, correntes elétricas começam a fluir por ele e estas correntes
induzidas tornam o rotor magnético. Esse é um fenômeno básico do
eletromagnetismo denominado indução eletromagnética. Tais motores, que
usam desse fenômeno para tornarem seus rotores magnetizados, são chamados
de 'motores A.C de indução'.
Os
motores de indução são provavelmente o tipo o mais comum de motor de C.
A., comparecendo em muitos eletrodomésticos (ventiladores, motores de
toca-discos etc.) e aplicações industriais. Fornecem bom torque, começam
facilmente a girar, e são baratos. Um motor de indução trabalha '
movendo' um campo magnético em torno do rotor --- o denominado 'campo
magnético girante'.
O estator que cerca o rotor contem um eletroímã sofisticado. O estator não
se movimenta, mas sim o campo magnético que ele produz! Com um uso
inteligente de vários recursos eletromagnéticos (espiras de curto
circuito, capacitores etc.), o estator pode criar pólos magnéticos de que
se deslocam em um círculo e se movimenta em torno do rotor. Na ilustração
abaixo, o pólo norte do estator 'gira' no sentido anti-horário em torno
do rotor.
![]() |
Motores
de passo
Muitos dispositivos computadorizados (drives, CDRom etc.) usam motores
especiais que controlam os ângulos de giro de seus rotores. Em vez de
girar continuamente, estes rotores giram em etapas discretas; os motores
que fazem isso são denominados 'motores de passo'.
O rotor de um motor de passo é simplesmente um ímã permanente que é
atraído, seqüencialmente, pelos pólos de diversos eletroímãs estacionários,
como se ilustra:
![]() ![]() Num motor de passo, o rotor é atraído por um par de pólos do estator e a seguir, por outro. O rotor movimenta-se por etapas discretas, pausando em cada orientação, até que novo coman- do do computador ative um jogo diferente de eletroímãs. |
Estes eletroímãs são ligados/ desligados seguindo impulsos cuidadosamente controlados de modo que os pólos magnéticos do rotor se movam de um eletroímã para outro devidamente habilitado.
Eis algumas ilustrações (animadas) de motores de passo:
![]() |
|
![]() |
|