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O
átomo de Bohr
(Parte 2)
Prof.
Luiz Ferraz Netto
leobarretos@uol.com.br
Teoria
de Bohr para o átomo de hidrogênio
Segundo o que foi explicado no
modelo atômico de Rutherford, este descrevia o átomo como constituído
por uma região central muito pequena, o núcleo,
carregado positivamente e ao redor do qual os elétrons carregados
negativamente ocupam uma região muito maior. Para os pesquisadores daquela
época era difícil aceitar as idéias de Rutherford. Era praticamente
impossível imaginar os elétrons girando ao redor do pequeno núcleo como
os planetas em suas órbitas ao redor do Sol.
Os elétrons eram partÍculas carregadas e, de acordo com as teorias clássicas
do eletromagnetismo, como já foram indicadas, estas partículas deviam
“irradiar” ou emitir energia na forma de ondas eletromagnéticas. Como
conseqüência, os elétrons perderiam energia neste processo giratório e
se precipitariam sobre o núcleo em um movimento espiral como foi ilustrado
em 23_MA01_08, na Parte
1 de nossas Leituras. Logo, "o átomo nuclear existiria
somente de forma transitória e a matéria estaria se contraindo"!
Os dois resultados vão de encontro ao que tem sido observado e
experimentado.
Por
outro lado, com base na teoria clássica, se os elétrons giram ao redor do
núcleo e ao fazê-lo emitem energia, a freqüência de revolução dos elétrons
deve mudar continuamente. Isto implica na emissão de um espectro
continuo por parte dos átomos. Esta conclusão também vai de
encontro aos resultados experimentais.
Com
efeito, já no fim do século XIX, a espectroscopia atômica havia avançado
muito e se tinha determinado expressões empíricas (obtidas da experimentação)
para o que constitui as series
espectrais.
Antes
de prosseguir com as idéias de Bohr, vamos introduzir alguns conceitos, o
que nos faz afastar um pouco da trajetória histórica seguida.
Espectros
luminosos
O procedimento geral seguido para
estudar a estrutura atômica provoca modificações no próprio átomo
devido às trocas de energia absorvida ou emitida por ele e isso permitiu
um melhor estudo do conjunto dessas radiações, caracterizadas por suas
freqüências ou comprimentos de onda. Este conjunto de radiações
constitui seu espectro. Para observá-los
utilizam-se os espectroscópios, os espectrógrafos etc.
Quando
os átomos de uma substância são excitados, por exemplo, fazendo passar
uma descarga elétrica através de um gás como o hidrogênio, a radiação
emitida tem um “espectro” que consta somente de certos comprimentos de
onda que se observam como raias finas com a ajuda de um espectroscópio.
Estas raias são dessa substancia, constituindo assim seu espectro
de emissão.
Se,
por outro lado, se faz passar luz branca (que contem todos os comprimentos
de onda visíveis) através de um gás, observa-se que faltam certos
comprimentos de onda que correspondem às radiações absorvidas pelos átomos
da substancia (gás). Tal fenômeno constitui o espectro
de absorção.
Se
as idéias clássicas fossem aplicáveis, esses espectros não poderiam ser
observados.
Niels
Bohr
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A
primeira explicação, ou uma primeira interpretação teórica dos
espectros tomando como base um modelo atômico, foi dada em 1913 pelo físico
Niels Bohr, que nessa época trabalhava com Rutherford, em Cambridge.
Bohr
aceitou o modelo atômico nuclear de Rutherford para explicar a
constituição do átomo de hidrogênio. De acordo com este, o hidrogênio
era formado por um núcleo carregado positivamente (uma só carga
positiva) e um elétron girando ao redor dele. Para
explicar as dificuldades, já mencionadas, que a Física clássica
opunha a essas idéias, assim como as raias observadas no espectro do
hidrogênio, o físico dinamarquês estabeleceu seus postulados que
mais tarde apareceriam como resultados da Mecânica Quântica.
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Bohr
supunha:
1. Que o elétron no átomo de hidrogênio
somente podia mover-se em determinadas órbitas, correspondentes a
certas energias de ligação, E1, E2, E3,
... En a que chamou de estados
estacionários, nos quais, ainda que o elétron se movesse, não
emitia radiação.
Essas órbitas ou estados estacionários eram tais que o momento
angular do elétron* era um múltiplo
inteiro de h/2p.
O elétron em seu “estado normal” encontra-se na órbita mais próxima
do núcleo.
* De acordo com a mecânica clássica (e
para o caso considerado por Bohr, ou seja, órbitas circulares) a
medida do momento angular (L) seria igual a: L = m.v.r |

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2.
Em circunstancias apropriadas, o elétron podia passar de um estado
estacionário a outro. Por exemplo, quando se submete o hidrogênio a uma
descarga elétrica, dando-lhe energia, o elétron pode absorver esta
energia E1 passando a estados energéticos mais elevados E2,
E3 etc.
Se o átomo adquire energia suficiente o elétron pode chegar a ser
separado do átomo, ficando este ionizado.
Em caso contrario, se o elétron passa de uma órbita de maior energia para
outra de menor energia, como conseqüência da transição, emitirá radiação.
Esta
energia radiante, seja emitida ou absorvida, aparecerá como um fóton
de freqüência n.
Isto é, em geral:
Eo
- Ef = hn
... (9)
onde
Eo = Energia inicial, Ef
= Energia final, h = Constante da Planck e n
= freqüência da radiação.
Se
Ef > Eo, o átomo absorverá um fóton; se, pelo
contrario, Eo > Ef , emitirá um fóton de freqüência
proporcional, em ambos os casos,à diferença de energia.
Bohr
conseguiu calcular as energias das órbitas e pôde predizer as freqüências
das radiações emitidas pelo elétron ao passar para órbitas diferentes.
De
forma surpreendente demonstrou "que esses valores coincidiam com as
freqüências determinadas pela técnica experimental". A
teoria de Bohr foi generalizada e mais tarde foi modificada com base na mecânica
quântica.
Exporemos, de forma simples, como Bohr determinou as energias para os
estados estacionários no átomo de hidrogênio.
Cálculos
O átomo de hidrogênio está constituído, de acordo com Bohr, por um núcleo
carregado positivamente (próton, de carga +e) e movendo-se ao seu redor,
em uma órbita circular, um elétron (carga -e). O
elétron move-se, então, pela ação da resultante centrípeta devida à
atração eletrostática do núcleo.
De
acordo com as leis de Coulomb, esta força de atração eletrostática é
dada por:
Felet.
= |e|.|e|/r2 = e2/r2
e
aplicando a segunda lei de Newton da Dinâmica
F
= ma, onde a = aceleração
centrípeta = v2/r , vem F = m.v2/r
e então:
e2/r2
= mv2/r ou seja,
mv2 = e2/r ... (10)
porém,
de acordo com o segundo postulado de Bohr, nos estados estacionários o momento
angular é um múltiplo inteiro de h/2p
(h = constante de Planck), logo
momento
angular = n.h/2p
m.v.r = n.h/2p
Isolando
v nessa última, elevando ao quadrado e substituindo na (10),
obtemos os raios das órbitas estacionárias:
r
= n2.h2 / (4p2.m.e2)
= n2. ro ... (11)
onde ro = h2/(4p2.m.e2)
= 0,53 x 10-8 cm
Este
valor é uma "constante" que denominamos raio
de Bohr.
Se
na expressão (11) dermos a n os valores 1,2,3 ... obteremos os
distintos raios das órbitas estacionarias.
Sendo,
por outro lado, a energia total do elétron: E = Ecin. + Epot.
, com Ecin. = (1/2)m.v2 e, usando a (10)
:
Ecin.
= e2/2r ... (12)
O
potencial eletrostático que o núcleo de carga +e produz, a uma distancia
r, vale: V = e/r e, então, a energia potencial do elétron será
dada por:
Epot.
= (-e).V = (-e).e/r = -e2/r ... (13)
Substituindo
em E = Ecin. + Epot os resultados (12) e (13)
teremos:
E
= e2/2r - e2/r = -e2/2r
... (14)
Na
expressão (14), teremos E ==> 0 para r ==> infinito, o
que corresponderia ao átomo ionizado. O sinal
menos indica que a energia do átomo decresce a medida que o elétron
se aproxima do núcleo. Quanto mais perto uma carga negativa ficar de outra
positiva, tanto menor será a energia do sistema.
Se
substituirmos o valor do raio r dado pela (11) na equação (14),
para a energia, obteremos em geral:
En
= (-2p2.m.e4)/(r2.h2),
que nos dá a energia para os estados estacionários, E1, E2
.... En com .... n = 1, 2, 3 ... etc. (inteiros). A
energia está quantizada!
Se,
agora, um elétron passa de um estado Eo a um estado final Ef,
de acordo com Bohr, a freqüência do fóton
absorvido ou emitido será:
n
= (Eo - Ef)/h = [(2p2me4)/h3].(1/ni2
- 1/nf2)
ou seja,
n = [(2p2me4)/h3].(1/ni2
- 1/nf2) ... (15)
que
concorda com os resultados experimentais.
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23_MA02_09 - Absorção
e emissão de energia segundo Bohr.
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Neste
modelo simples do átomo de hidrogênio, o elétron pode estar em uma órbita
qualquer ou em estados estacionários caracterizados pelos números
quânticos 1, 2, 3 ...... n.
Quando o elétron passa de uma órbita qualquer ao estado fundamental, obtém-se
a série de Lyman. Se o estado final é n = 2,
a serie será a de Balmer e assim
sucessivamente, como se indica abaixo.
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23_MA02_10 - Transições
energéticas que dão origem às séries espectrais.
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Apesar
do valor extraordinário da teoria de Bohr, esta não foi capaz de explicar
inúmeros problemas importantes como, por exemplo, a causa de transições
entre certos estados estacionários não ocorrerem nunca, ou melhor
dizendo serem proibidas.
De
acordo com Heisenberg, a teoria de Bohr falha, “porque as idéias
fundamentais em que se baseia: órbitas estacionárias, validez das leis clássicas
do movimento etc, não podem ser postas a prova sem cair em graves contradições.
Sommerfeld:
Órbitas elÍpticas
Procurando dar maior generalização
a teoria de Bohr, Sommerfeld “concedeu”
aos elétrons maior liberdade, permitindo a estes moverem-se não somente
em órbitas circulares mas também elípticas. Deste modo
procurava explicar o caso de átomos mais complicados.
No
átomo de Bohr, a posição do elétron ficava definida pelo ângulo
descrito. Ao aceitar as idéias de
Sommerfeld (órbitas elípticas) supondo o núcleo no foco
da elipse descrita, a distancia do núcleo (r) varia, assim como o ângulo
descrito q
( teremos duas variáveis).
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23_MA02_11 - O elétron
descreve órbita
elíptica, de acordo com Sommerfeld.
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Sommerfeld,
manteve invariável a primeira órbita de Bohr (circular) mas adicionou uma
elíptica à segunda circular; duas órbitas elípticas à terceira (ver
ilustração 23_MA02_12), introduzindo o chamado número
quântico azimutal k , além do
numero quântico principal n. Assim,
para as diferentes órbitas:
| n = 1 |
n = 2 |
| k = 1 |
k = 1
k = 2 |
Logo,
para cada valor de n havia n
órbitas permitidas. As órbitas de mesmo n
correspondiam à estados energéticos iguais e as únicas transições
permitidas eram aquelas para as quais Dk
= +1 ou -1.
As
teorias atuais são as que explicam claramente o porque
nem todas as transições existem.
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23_MA02_12 - Órbitas de
Bohr-Sommerfeld para n = 1 e n = 2, no átomo de hidrogênio.
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Sommerfeld
também procurou explicar o fato de algumas raias especiais de elementos
mais complexos que o hidrogênio serem formadas realmente por varias raias,
explicando que, devido às interações dos elétrons, certas órbitas elípticas
teriam energias ligeiramente diferentes das órbitas circulares.
Apesar
destas idéias, Sommerfeld não acrescentou nenhuma contribuição básica
ao modelo de Bohr.
O
efeito Compton
Não podemos encerrar esta primeira
etapa da física no século XX, sem fazer ao menos uma breve menção ao
efeito Compton.
Arthur
Compton ao estudar o espalhamento de raios X, utilizando como meio
espalhador um bloco de carbono, observou que as freqüências dos raios X
espalhados diminuíam em certos ângulos.
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23_MA02_13 - Experiência
de Compton
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Para
explicar a modificação da freqüência dos raios espalhados, Compton
utilizou a teoria quântica da luz. O físico norte-americano propôs que a
interação entre um fóton ou quantum de luz e um elétron de um átomo
podia ser considerada sob certas condições como a colisão entre duas
partículas em mecânica Clássica.
Os
elétrons, ligados ao núcleo do átomo por forças eletrostáticas, podiam
comportar-se como elétrons livres se a energia (hn)
e a quantidade de movimento (hn/c)
dos fótons incidentes fosse suficientemente grande.
Utilizando
as leis da conservação da energia: hn
= hn’
+ (1/2) mv2 , onde h.n
= energia do fóton incidente, hn’
= energia do fóton espalhado e (1/2)mv2
= energia cinética do chamado “elétron de recuo”.
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23_MA02_14 - Efeito
Compton.
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Como
o valor da velocidade do “elétron de recuo” está próximo da
velocidade da luz, em muitos casos deve-se utilizar a correção relativística
para a massa (ver relatividade, nessa Sala 23).
Compton
também aplicou a conservação da quantidade de movimento como no caso de
duas esferas elásticas, obtendo finalmente a equação:
l'
- l
= (h/mo.c)(1 - cosq)
onde:
l'
- l = aumento do comprimento de onda
para o fóton espalhado; h/mo.c = comprimento de onde de
Compton, onde h é a constante de Planck, mo a massa em repouso
do elétron e c a velocidade da luz e, q
= ângulo de espalhamento do fóton de comprimento de onda l'.
O
elétron de recuo do efeito Compton foi descoberto simultaneamente por
Wilson e por Bothe e Becker.
O
efeito Compton ocorre principalmente com elétrons livres ou fracamente
ligados e pode ser explicado como uma absorção do fóton incidente pelo
elétron livre. A energia deste fóton aparece repartida entre o elétron
de recuo e um outro fóton de menor energia. Na explicação deste fenômeno,
utiliza-se a idéia de “fotons virtuais”,
mas não podemos nestas notas estendermos em sua explicação.
A
teoria quântica da luz foi desenvolvida com as idéias de Compton.
Continuaram entretanto, sem resposta as perguntas: como
era constituÍdo o átomo? como explicar sua natureza?
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