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Constituição do núcleo do átomo Prof.
Luiz Ferraz Netto Introdução O passo que daremos é extraordinário porque agora passaremos do uso de unidades de medida da ordem de 10-8 cm (Angströn) para 10-13 cm (Fermi); isto é 100 000 vezes menores; por outro lado, passaremos de alguns elétron-volts de energia, para a casa dos milhões de elétron-volts (1 MeV = 106 eV). A primeira vista parece que teremos de enfrentar problemas semelhantes aos da estrutura eletrônica do átomo, com exceção do tamanho e da quantidade de energia. Aqui falaremos de camadas ou níveis, espectroscopia nuclear etc, mas encontraremos novas forças que têm um papel determinante no núcleo do átomo, forças diferentes e de natureza misteriosa, forças nucleares. O
Nêutron
Sem duvida alguma, a chamada "experiência de Rutherford”, que comprovou a existência do núcleo, marcou o inicio de uma era sem precedentes. A descoberta do nêutron em 1932 por James Chadwick conduziu a um ”entendimento” do núcleo do átomo. Doze anos antes Rutherford havia assinalado a possível existência de “uma partícula nuclear de carga zero”. Posteriormente, em 1930, Bothe e Becker constataram que ao bombardear berílio com partículas alfa originadas na desintegração do polônio “aparecia uma radiação emitida pelo berílio capaz de penetrar a matéria”. Esta radiação que não tinha carga, foi considerada por Bothe e Becker como raios gama. Um
ano mais tarde, F.Joliot e sua esposa Irene Joliot-Curie, filha de Madame
Curie, estudaram estas radiações encontrando propriedades interessantes
para as mesmas, tais como seu extraordinário efeito
ionizante e seu poder de penetração. Chadwick,
que nesta época trabalhava em Cambridge, foi quem resolveu o problema.
Utilizando uma fonte de partículas alfa (emissor alfa puro), ele
bombardeou um disco de berílio que utilizou como alvo, analisando as radiações
que provinham do berílio. Para detetar estas “radiações”, o celebre
pesquisador usou uma câmara de ionização que foi adaptada a um sistema
capaz de registrar as partículas que produziam numa placa fotográfica.
Estes foram explicados pelo grande investigador, considerando as referidas radiações constituídas por “partículas neutras”, sem carga, e com massa igual, aproximadamente, à do próton. Estas partículas foram chamadas nêutrons. A presença do nêutron completava a idéia do núcleo (idéia de Heisenberg), que podia ser considerado então constituído por nêutrons (massa ligeiramente maior que a do próton, sem carga elétrica e “spin” igual a 1/2) e prótons (carga positiva, igual e contrária a do elétron, com massa igual a 1836 vezes a do elétron, e “spin” 1/2). Tanto o nêutron como o próton obedecem ao principio de exclusão de Pauli. Na literatura é utilizado o termo núcleon para se referir ao próton e ao nêutron. O número total de prótons em um núcleo chamamos número atômico e o indicamos pela letra Z. Outra expressão utilizada é o número de massa, que é o numero total de núcleons ou seja a soma de prótons e nêutrons. 0 número de massa é representado pela letra A. O numero de nêutrons N será: N = A - Z = número de nêutrons Num átomo neutro o número de elétrons é igual ao de prótons. O número de prótons em um átomo identifica o átomo com um elemento determinado. Agora podemos explicar a existência dos isótopos de um elemento que não são mais do que “átomos de um elemento cujos núcleos têm o mesmo número de prótons mas diferem quanto ao número de nêutrons”. Os isótopos de um elemento têm as mesmas propriedades químicas mas diferem quanto à massa. Os
Isótopos
Os
átomos de néon correspondentes às massas 20 e 22 são isótopos do néon
de número atômico 10 e peso atômico médio 20,2, pois ambos os isótopos
se apresentam no néon natural na proporção de 9:1. Muitos elementos são
constituídos por uma mistura de isótopos. Para indicar um elemento qualquer, digamos X, escrevemos o número de massa na parte superior esquerda e seu número atômico na parte inferior esquerda, assim: A Assim é fácil a identificação dos isótopos de um elemento, por exemplo: 2411Na e 2311Na ou 3215P e 3015P As vezes utilizamos o termo isóbaro para indicar átomos de mesmo A e diferentes Z . É evidente que os isóbaros são elementos diferentes pois têm número atômico diferente. A
Unidade de Massa atômica Uma
u.m.a. é definida como “exatamente um doze avos da massa do isótopo
mais abundante do carbono ao qual se atribuiu, por definição, 12 000 000
u.m. a." O
tamanho do núcleo R = ro A1/3 onde R = raio do núcleo; A = número de núcleons; ro ~ 1,2.10-13 cm (esse valor depende, de certa forma, do tipo de experiência). Logo, o volume de um átomo é proporcional ao número de núcleos que o constituem. Outras experiências utilizando elétrons no lugar de nêutrons provaram que os prótons “estao ligeiramente concentrados no centro do núcleo”. As medidas das massas e raios nucleares conduziram a resultados surpreendentes sobre a densidade dos núcleos, obtendo-se valores tais como: mil milhões de toneladas por polegada cúbica, A
Energia de Ligação Definiremos a energia de ligação do núcleo como a energia que deve ser cedida ao núcleo para rompe-lo nas partículas que o constituem. Se indicarmos por M a massa do núcleo, mp a massa do próton, mn a massa do nêutron, a energia de ligação será dada por: Eligação = (Zmp + Mmn - M) c2 onde Z é o número de prótons e N é o número de nêutrons. Podemos escrever esta expressão da seguinte forma: Eligação = (ZMhidrogênio + Nmn - Mátomo).c2 onde Mhidrogênio = Z (mp + me); Mátomo = massa do núcleo + massa dos elétrons. A energia de ligação é devida a dois tipos de forças: as forças nucleares que mantém as partículas dos núcleos unidas e as devidas as forcas eletrostáticas repulsivas entre os prótons. Se dividirmos a energia de ligação de um núcleo pelo número de núcleons, obteremos a energia de ligação por núcleon, que é uma grandeza importante. Na ilustração MA04_03 esta representada a energia de ligação por núcleons em função do número de massa, observando-se que os elementos mais ativos são os de massa intermediaria.
Para que se tenha noção da tremenda energia contida no átomo basta lembrar que, uma unidade atômica de massa é equivalente em energia a aproximadamente 932 MeV. As
forças Nucleares As
forças nucleares cuja natureza na realidade se desconhece, são extraordinariamente
intensas e sempre de atração, capazes
de manter os nucleons ligados: nêutrons a prótons, prótons a prótons e
nêutrons a nêutrons. Para explicar como atuam as forças nucleares, Hideki Yuhawa, em 1935, propôs a teoria mesônica das forças nucleares. Segundo esta, as forças aparecem devido a troca de certas partículas de massa maior que o elétron e menor que a do próton. Estas partículas foram chamadas mésons. A explicação de sua existência assim como o tratamento da teoria mesônica escapa ao nível destas LEITURAS. Podemos mencionar entretanto que apesar de se ter trabalhado bastante no estudo das forças nucleares, a explicação e origem destas continua um enigma. Modelos
nucleares O
modelo da "gota líquida" Em um modelo nuclear deste tipo, os núcleons (prótons e nêutrons) são considerados “empacotados” constituindo um “gota liquida”. Os núcleos na gota encontram-se em estado de agitação térmica movendo-se ao acaso.
O núcleo possui, de acordo com o modelo, efeitos como a tensão superficial em um liquido, retendo-se os nucleons, “como uma gota de um líquido retém suas moléculas”. A emissão de partículas por um núcleo é explicada como a evaporação das moléculas em uma gota de um liquido. A energia de ligação total dos núcleons tem sido bem explicada com base neste modelo, assim como a fissão nuclear na qual se encontra a aplicação de maior utilidade. Entretanto, em reações nucleares de alta energia, assim como para explicar os níveis de energia ou estados excitados nos núcleos, o modelo da gota liquida não é de grande utilidade, donde a necessidade do uso de outros modelos nucleares. O
modelo de camadas Um
fato que deve ser mencionado neste modelo nuclear é que os núcleos mais
estáveis são aqueles em que o número total de núcleons de mesma espécie
( prótons ou nêutrons ) seja 2, 8, 20, 28, 50, 82 e 126. 168O, 4020Ca, 20882Pb etc. Estes números são chamados de 'números mágicos'(!). Aparentemente estes números indicam algo semelhante à existência de níveis, camadas ou sub-níveis de energia no núcleo. Neste modelo de camadas se supõe as partículas “suficientemente independentes umas das outras” de tal maneira que possam ficar em uma ‘órbita’ sem interferência das outras. São estabelecidas “órbitas” no núcleo com números quânticos bem definidos. Este modelo tem sido largamente utilizado com bastante êxito, mas um determinado número de fenômenos levou a utilização de outros modelos como o modelo coletivo ou unificado no qual são combinados elementos básicos tanto do modelo da gota líquida como do de camadas. Outro modelo nuclear de grande importância é o chamado modelo óptico de Weisskopf, baseado na absorção de nêutrons pelo núcleo quando este é bombardeado por nêutrons de alta energia. O estudo da estrutura nuclear constitui um dos mais apaixonantes estudos dentro da física, tanto no campo experimental como no teórico. Para terminar essa LEITURA 04, citaremos as palavras de Weisskopf a respeito de pesquisas da estrutura nuclear: -- "Considerando a pesquisa da estrutura nuclear no passado, encontraremos duas tendências relacionadas com o problema. A primeira é tentar explicar os fenômenos, as reações nucleares, os espectros etc., com o menor número possível de suposições especiais sobre as coisas que não conhecemos bem, por exemplo, as forças nucleares. A segunda tendência é ir diretamente aos fenômenos que não conhecemos muito bem, isto é, as forças nucleares". A
Física Nuclear tem tido mais sucesso utilizando o primeiro que o segundo
caminho.
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