|
Fissão
e Fusão
Prof.
Luiz Ferraz Netto
leobarretos@uol.com.br
Matéria
e Energia
Até agora descrevemos a estrutura do átomo e o núcleo do mesmo,
analisando parcialmente certos fenômenos associados a eles. Nesta Parte
6, vamos tratar de expor como o homem logrou "extrair"
e utilizar a extraordinária energia "armazenada" no núcleo do
átomo.
Em princípios do século XX (1905), Einstein deu a conhecer sua teoria
especial da relatividade. Nela, o grande cientista estabeleceu que "matéria
e energia são apenas duas manifestações diferentes da mesma realidade
física fundamental e que podem converter-se, uma em outra, segundo a
equação:
E
= m.c2
". (6.1)
Anos
mais tarde, Rutherford (1914), com aquele talento notável que o fazia
pensar no futuro, indicou a possibilidade de "alterar o núcleo de um
átomo por colisão direta de tal núcleo com elétrons rápidos ou com
átomos de hélio (partículas beta, ou alfa, respectivamente) como os que
emitem a matéria radioativa".
As novas idéias, que na Parte 3
intitulamos de "Comoção na Física", assim como as descobertas
do nêutron e da radioatividade, artificial ou induzida, iniciaram outra
etapa que desempenharia papel determinante no futuro da ciência e no
destino da humanidade.
No estudo da estrutura nuclear, consideramos o núcleo como sendo
constituído de prótons e nêutrons, ficando claro, porem, que a massa
desse núcleo era menor que a soma das massas de seus componentes. Esta
pequena diferença em massa é equivalente a uma enorme quantidade de
energia, de acordo com a equação de Einstein. Por exemplo, a energia
liberada ao se formar um núcleo de hélio, pela combinação de dois
prótons e dois nêutrons, é sete milhões de vezes maior do que a que se
liberta ao se queimar carvão segundo o processo ordinário de combustão.
Logo, se se podem combinar dois nuclídeos leves para formar um mais
pesado, o núcleo pesará menos que a soma dos dois originais, aparecendo a
diferença em massa na forma de energia.
Por outro lado, se um núcleo pesado pudesse ser dividido em partes
menores, a soma das massas do pagamento seria menor do que a massa do
núcleo original.
Em ambos os processos, uma pequena quantidade de matéria desaparece, a
qual, de acordo com a teoria especial da relatividade, aparecera na forma
de uma enorme quantidade de energia. Estes processos, hoje conhecidos pelo
homem, são a fusão e a fissão nucleares.
O que se havia prognosticado, converteu-se em realidade quando, em 02 de
dezembro de 1942, foi posto em funcionamento, em Chicago (E.U.A.), o
primeiro reator nuclear, utilizando o processo de fissão. O homem havia
iniciado o aproveitamento da energia nuclear.
Reações Nucleares
O processo da emissão espontânea
de partículas alfa, por substancias radioativas naturais, foi utilizado
para provocar, com êxito, “transformaçoes” em núcleos estáveis. Com
efeito, quando uma partícula nuclear externa,utilizada como “projétil”,
sofre interação com o núcleo de um átomo, torna-se possível produzir,
ou provocar, uma reação nuclear.
Em
1936, Bohr estabeleceu a idéia de um núcleo composto nas reações
nucleares. Segundo tal idéia, um projétil, ou partícula, ao penetrar o
núcleo de um átomo, dava lugar ao aparecimento de um núcleo composto em
“estado excitado”. Em seguida, este núcleo composto emitia uma, ou
mais, partículas acompanhadas, ou não, de raios gama.
Fig.
6.1- Reação nuclear
Ao
se formar o “núcleo composto”, os núcleons mover-se-ão, no interior
do mesmo, com maior rapidez e o processo seguinte, formação do núcleo
resultante e emissão de partículas e raios gama, dependera da energia da
partícula incidente, dos chamados “processos de saída” etc. Quando as
energias das partículas incidentes são muito elevadas supõe-se que a
reação nuclear se dê diretamente, sem formação do núcleo composto;
este processo é chamado de “spallation” ou “fragmentação” (ou
ainda, desmoronamento).
Se utilizarmos o modelo da gota liquida (veja na Parte
3 os Modelos Nucleares), a interpretação resultante para o “núcleo
composto” se torna interessante. Pode-se representa-lo por urna “gota
de líquido quente” que, ao “evaporar-se” uma ou mais moléculas
(desintegração do núcleo composto dando lugar ao núcleo resultante e
emitindo partículas e raios gama), vai-se “esfriando” até alcançar
seu estado final.
As
primeiras experiências, nas quais se observa uma transmutação nuclear,
foram feitas por Rutherford em 1919. Utilizando Ra C’ como fonte emissora
de partículas alfa e nitrogênio comum como “alvo”, Rutherford
provocou a reação:
42He
+ 147N ===> 178O
+ 11H (6.2)
na
qual a partícula alfa, ao ser “absorvida” pelo núcleo de nitrogênio,
dá lugar à formação do oxigênio-17 (isótopo do oxigênio),
emitindo-se um próton.
Em
1930, Cockcroft e Walton projetaram um acelerador de prótons. Realizou-se,
então, a seguinte reação:
73Li
+ 11H ===> (84Be)(núcleo
composto) ===> 42He + 42He
(6.3)
Utilizando
prótons de alta velocidade como 'projéteis' e lítio-7 como ”alvo”,
conseguiram-se duas particu1as alfa. Esta reação teve grande
importância, pois serviu para comprovar que os núcleos dos átomos podiam
ser penetrados por partículas com energias menores que o valor necessário
para ultrapassar a “barreira de potencial” (veja na Parte
5, Desintegração Alfa).
Fig.
6.2. Modelo nuclear de Gamow.
O
uso das reações nucleares para provocar “transmutaçoes” tornaram-se
cada vez maior. Em 1934, o casal Joliot-Curie produziu isótopos
radioativos, pela primeira vez, ao descobrir o fósforo-30
(radioativo), bombardeando alumínio com partÍculas alfa.
A
reação pode ser representada por:
2713Al
+ 42He ===> 3015P
+ 10n
(6.4)
O
30P é radioativo e, por desintegração b+
, com perÍodo de semi-desintegração de 2,6 minutos, passa a silício-14:
3015P
==(0+1b)(T1/2=2,6min)==>
3014Si (6.5)
Um
ano antes (1933), a radioatividade induzida fora observada por Joliot-Curie,
ao bombardearem” boro-10 com partículas alfa:
105B
+ 42He ===> 137N
+ 10n
(6.6)
Eles
sugeriram que o nitrogênio produzido era instável e que se desintegrava,
por emissão de pósitrons (b+),
a carbono-13, assim:
137N
===> 136C + 01e(pósitron)
(6.7)
Em
1935 receberam o premio Nobel por sua descoberta.
Com
o desenvolvimento do ciclotron e outras maquinas aceleradoras(Betatron,
Síncrotron etc.) foi possível dispor de “projéteis” com velocidades
maiores, Ademais, lograram-se muitos tipos de reações nucleares
utilizando outra espécie de partículas. Principalmente, a descoberta do
nêutron, em 1932, marcou uma época sem precedentes, pois devido a
ausência de carga e alto poder de penetração, foi utilizado
especialmente por Fermi para “penetrar” os núcleos dos elementos
pesados que possuem carga elétrica elevada.
As
reações nucleares, usualmente, se abreviam com símbolos. Assim, por
exemplo, o bombardeio de alumínio-27 com prótons para dar magnésio-24 e
partículas alfa representa-se, em forma abreviada,por:
2713Al
+ 11H ===> 2412Mg
+ 42He (6.8)
Secção
de Choque
A probabilidade de que uma
partícula, utilizada como “projétil” numa reação nuclear, sofra
interação com um núcleo se descreve introduzindo o conceito de secção
de choque. Sabemos que, quando um núcleo é “bombardeado”
com partículas de uma determinada espécie, podem-se realizar diferentes
processos: espalhamento (recorde-se da experiência de Rutherford
que provou a existência do núcleo); transmutação de um elemento,
provocando,em determinados casos, o surgimento de elementos radioativos; partição
ou rompimento do núcleo (fissão); etc. A probabilidade de que estes
efeitos aconteçam,descreve-se em termos da secção
de choque.
Como descreveremos este conceito?
Se
imaginarmos cada núcleo alvo apresentando uma área de interação para as
particulas incidentes, ou projéteis, tal que, qualquer partícula que
atinja esta área, sofra interação com o núcleo, teremos uma idéia do
que representa a secção de choque. Ou seja, é uma "área imaginaria
associada a cada núcleo" tal que, se o projétil chega a esta área,
a reação nuclear acontecerá.
Quanto maior for esta área, tanto maior será a probabilidade de que se
produza o evento. A secção de choque pode ser maior ou menor do que a
"secção de choque geométrica" (se pudéssemos medir o raio de
um núcleo - r -, sua área seria p.r2
que é o que se chama de secção de choque
geométrica).
Fig.
6.3. Conceito de secção de choque.
A
secção de choque varia de acordo com a energia da
partícula incidente e com o processo que se
considere. A unidade que se
utiliza para medi-la é o barn,
equivalente a 10-28 m2.
Fig.
6.4. O número de partículas N, que penetram num alvo, diminui
exponencialmente com a espessura x do alvo.
A
Descoberta da fissão Nuclear
Entre os físicos do século XX é
difícil encontrar algum que seja igualmente destacado nos campos teórico
e experimental. O caso de Enrico Fermi
é urna exceção; dotado de qualidades extraordinárias em ambos os
campos,foi um dos físicos mais notáveis desta época. Não podemos sequer
iniciar o estudo da fissão nuclear sem que apareça seu nome. Como
menciona Lise Meitner (descobridora da fissão, juntamente com Hahn,
Strassmann e Frisch), o pioneiro no estudo da fissão foi Fermi.
Com
efeito, depois da descoberta do nêutron e da radioatividade artificial,
Fermi iniciou uma série de experiências ”bombardeando, com nêutrons,
quantos elementos pode, obtendo, assim, uma série de radioisótopos, a
qual incluía elementos pesados”. Bombardeando urânio com nêutrons,
Fermi chegou a um resultado que pensou tratar-se de elementos de números
atômicos maiores do que o número atômico do urânio (elementos
transurânicos), até então, o de mais alto valor conhecido.
Segundo
expressa Lise Meitner, “ela achou estas experiências tão interessantes
que persuadiu a Otto Hahn e depois a Strassmann, a continuarem colaborando
juntos, visando a resolver estes problemas”. A partir de 1934,
estabeleceu-se uma estreita colaboração entre estes pesquisadores.
Ao
examinar o comportamento do urânio bombardeado com 'nêutrons lentos’
eles demonstraram, quimicamente, a formação de um emissor b,
o urânio-239. Evidentemente, a emissão de partículas beta praticamente
comprovava a presença de um elemento transurânicos (veja emissão b-,
na Parte 5). Mais tarde, este elemento
foi denominado netúnio (número atômico 93).
Posteriormente,
Irene Curie e Savitch informaram, ainda que com duvida, a descoberta de um
elemento transurânicos de 3 horas e meia de meia-vida, que tinha um
comportamento parecido ao lantânio, um dos chamados ”terras raras” na
tabela periódica dos elementos. Hoje se sabe que este “elemento” de 3
horas e meia de meia-vida não era senão uma mistura de bário e
lantânio.
A
experiência foi repetida por Hahn e Strassmann que concluíram que não se
tratava de um elemento novo e sim de uma mistura de isótopos do radio,
emissores beta. não obstante, ao tratar de separar estes isótopos do
radio, observaram, com surpresa extraordinária, que se tratava de
isótopos do bário, cujo número de massa era muito menor do que o do
rádio ou do urânio.
Otto
Hahn escreveu a Lise Meitner explicando o surpreendente resultado obtido
(Natal, 1938); esta e Frish ofereceram uma explicação ao fenômeno.Sem
duvida alguma, estavam frente a um processo completamente diferente dos já
conhecidos. Utilizando “o modelo da gota liquida” para o núcleo de
urânio, estes pesquisadores concluíram, em sua famosa comunicação: “Um
novo tipo de reação nuclear",
que, devido ao elevado número de prótons no núcleo de urânio, a tensão
superficial do mesmo diminuía, devido à repulsão dos prótons. Ao se
bombardear urânio com nêutrons, estes eram capturados pelos núcleos
daquele (ver fig. 6.5), convertendo-se o urânio em um núcleo tal que, o
movimento de prótons e nêutrons no mesmo, se tornava violentíssimo
(provocando oscilações extraordinárias), produzindo-se finalmente, a
fissão ou bipartição do mesmo e liberando-se uma tremenda quantidade de
energia. A fissão nuclear era uma realidade.
A
partir deste momento (1939), o estudo da fissão nuclear converteu-se em
tema de estudo no mundo inteiro, culminando com a aparição do primeiro
reator nuclear (1942) e a explosão da bomba atômica (1945).
Fig.
6.5- Fissão do Urânio-235
Mecanismo
da Fissão
Ao desenvolvermos o tema da
descoberta da fissão nuclear, mencionamos que o modelo nuclear mais
adequado para explica-la era o modelo da gota líquida.
Com
efeito, se imaginamos o núcleo como uma “gota líquida” constituída
pelos núcleos (prótons e nêutrons), podemos pensar em forças como a “tensao
superficial” atuando no mesmo. Se considerarmos os prótons e os
nêutrons como “esferazinhas” na “gota liquida”, estas estarão “ligadas”
pelas chamadas forças nucleares (já mencionadas) de curto alcance e
sempre de atração, às quais atribuímos, de certa forma, a estabilidade
do núcleo. Sem duvida, é necessário levar em conta as forças repulsivas
entre os prótons, ou repulsão de Coulomb.
Ao aumentar o número de prótons as forças repulsivas aumentarão
consideravelmente e, segundo observamos nos núcleos pesados, o número de
nêutrons é maior do que o número de
prótons; desta maneira, obtém-se as forças atrativas adicionais para
contrabalançar a “repulsao coulombiana” e garantir,de certa forma, a
estabilidade de um núcleo pesado.
O
núcleo, concebido então como uma gota liquida, será capaz de ‘oscilar'
se utilizando-se o procedimento adequado, for levado a um estado de
excitação.
Quando
isto ocorre, a forma da "gota liquida” muda como se indica na fig.
6.6. As forças de tensão superficial tratam de compensar as forças
repulsivas, assim como a inércia da matéria. Se este estado de
excitação não é grande, as forças de superfície são suficientes para
compensar as forças repulsivas e, o núcleo perdera este estado de
excitação por simples emissão de radiação gama.
Imaginemos
agora que tal estado de excitação é elevado; por exemplo, consideremos o
núcleo de um elemento pesado como o urânio-235, com 92 prótons e 143
nêutrons, que se bombardeia com “neutrons lentos”(explicamos esse
termo mais adiante). É possível que este núcleo “capture” ou absorva
um nêutron. A energia deste é suficiente para levar o núcleo de
urânio a um estado altamente excitado. A gota liquida, com a qual
representamos o núcleo, começa a oscilar, os nucleons movem-se com maior
“rapidez”, o volume da “gota liquida” permanece constante, porem, a
área total aumenta com as vibrações (ver fig. 6.6). Se estas são
suficientemente fortes, finalmente o núcleo fissiona-se.
Fig.
6.6- Explicação da fissão nuclear utilizando o modelo da “gota
líquida”.
Para
se conhecer a energia média liberada na fissão do 23592U
suponhamos que na fissão são produzidos dois fragmentos, ou núcleos tais
que, ao somar os números de massa, antes e depois da fissão, observa-se
uma perda de massa de 0,2146 unidades de massa atômica, como por exemplo:
10n
+ 23592U ===> 14156Ba
+ 9236Kr + b10
+ energia (6.9)
então,
lembrando que 1 u.m.a. = 931 MeV, teremos 0,2146 u.m.a ~ 200
milhões de elétron-volts por núcleo; compare-se com 4 elétron-volts por
molécula, produzidos na combustão ordinária. Os fragmentos não podem
ser mantidos unidos. A distancia de separação entre tais fragmentos é
tal que ficam fora do alcance das forças nucleares (curto alcance); sem
duvida, a repulsão eletrostática faz então, com que os núcleos se
separem com extraordinária energia. O núcleo fissionou-se libertando
enorme quantidade de energia.
Os
produtos da fissão são instáveis, têm excesso de nêutrons e, por sua
vez, seguem cadeias de desintegração mediante emissão b-
ou emissão de nêutrons, que conduzem a nuclídeos estáveis, por exemplo,
no caso de fissão do 23592U, se os produtos
de fissão são os indicados, estes seguirão as transformações:
14156Ba
==(b)[18min]==>
14157La ==(b)[3,7
h]==> 14158Ce ==(b)[33
dias]==> 14159Pr
(6.10)
9236Kr
==(b)[3
s]==> 9237Rb ==(b)[75,3
s]==> 9238Sr ==(b)[2,6
h]==> 9239Y ==(b)[3,6
h]==> 9240Zr (6.11)
A
transformação dos produtos da fissão, por emissão b-,
ou por emissão de nêutrons, “depende da energia do núcleo com respeito
a cada um destes processos".
Quando
a fissão nuclear tem lugar, a maior parte dos nêutrons são emitidas num
curto intervalo de tempo. Estes nêutrons são chamados de instantâneos
(ou prontos). Contudo, menos de 1% dos nêutrons são emitidos
posteriormente. Estes nêutrons, provenientes da desintegração dos
produtos de fissão, são chamados nêutrons
atrasados.
Fig.
6.7- Emissores de nêutrons atrasados.
Determinou-se
que, em média, são libertados 2,5 nêutrons, na fissão do urânio-235.
Na
fig. 6.8. encontramos a representação das energias dos nêutrons
instantâneos.
Fig.
6.8- Gráfico das energias dos nêutrons instantâneos na fissão do
urânio-235.
A
energia média dos raios gama emitidos na fissão do urânio-235 é de
aproximadamente 23 MeV.
A
fissão nuclear tem sido estudada, utilizando-se outros elementos ou
isótopos de um mesmo elemento: tório, plutônio-239, urânio-238,
urânio-233 etc., variando-se o “projétil” ou método para a
excitação do núcleo. Desta forma, a fissão tem sido produzida por
bombardeio com raios gama ou prótons; inclusive, pode-se pensar em “fissao
espontânea” em núcleos muito instáveis; contudo, é mais
provável que, neste ultimo caso, os núcleos sigam desintegração alfa.
Em
nosso estudo da fissão sempre temos mencionado elementos pesados,embora,
teoricamente, seja possível pensar na fissão de qualquer elemento se
tivéssemos energia suficiente. Contudo, o processo só tem “significado
pratico” quando o núcleo tem número atômico > ou = a 90. Em
Berkeley, 1951, utilizando-se de prótons de alta energia conseguiu-se a
fissão de elementos leves, tais como:
63Cu
+ prótons ===> 38Cl + 25l
+ n
Numerosos
núcleos atômicos são produzidos pela fissão do urânio e do tório ao
se bombardeá-los com nêutrons; este fato faz pensar em que, tanto o
núcleo de tório quanto o do urânio, pode “romper-se” de varias
formas ou de maneiras diferentes, ao absorver um nêutron. Sem duvida, os
produtos de fissão conhecidos têm números atômicos compreendidos entre
30 e 63, dependendo esta distribuição da energia de excitação
disponível para os processos de fissão ou “bipartição”.
Fig.
6.9- Gráfico que mostra os rendimentos nos produtos da cadeia de cisão do
urânio-235, em função do número de massa.
Elementos
Transurânicos
Chamaram-se elementos transurânicos
aos que possuem números atômicos maiores que 92 (urânio). O primeiro
destes elementos e o netúnio, obtido pelo bombardeamento do urânio com
nêutrons de baixa energia. Neste caso, pode-se produzir fissão do
urânio-235, porém o urânio-238 absorve um nêutron passando a
urânio-239 que, posteriormente, se desintegra (desintegração beta), com
uma meia vida de 23 minutos, a netúnio-239, da seguinte forma:
23892U
+ 10n ====> 23992U
||
||
\ /
23993Np + e-
(6.12)
Por
sua vez o netúnio é radioativo e, por desintegração beta, dá
plutônio:
23993Np
====> 23994Pu + e-
(6.13)
O
plutônio foi o primeiro elemento produzido pelo homem em quantidades
apreciáveis e tem quinze isótopos conhecidos, todos radioativos. Destes,
o mais importante é o plutônio-239, pois é físsil e pode ser
utilizado como fonte de energia.
Fig.
6.10- Fissão do plutônio-239.
O
elemento plutônio, segundo dos elementos
transurânicos, foi descoberto por Arthur Wahl, Glenn T. Seaborg e Joseph
Kennedy e seu nome foi sugerido pelos dois primeiros em honra de Plutão, o
segundo planeta em nosso sistema solar depois de Urano.
A energia nuclear liberada por uma 0,5 kg de plutônio é equivalente à
energia produzida pela combustão de 1 500 000 kg de carvão:
Fig.
6.11- Comparação da energia liberada por 0,5 kg de plutônio-239 e seu
equivalente em carvão.
Vários
elementos transurânicos foram produzidos no laboratório e a tabela
periódica, que até há poucos anos, se estendia só até o urânio
(número atômico 92), hoje conta com novos elementos
(transurânicos).
Reação
em Cadeia
Na fissão de elementos pesados 233U, 235U,
232Th, 239Pu etc., é emitido mais de
um nêutron e, já que esta partícula pode provocar novas fissões, em
determinadas condições, e possível conseguir uma reação
em cadeia ou auto mantida. A energia liberada num processo deste
tipo é extraordinária ... e, nem sempre foi possÍvel controlá-la. Eis
um exemplo de reação em cadeia:
O
controle da fissão é hoje uma realidade que permite ao homem utilizar, de
modo seguro, uma fonte de energia extraordinária. A produção de energia
nuclear se consegue mediante o emprego dos reatores nucleares.
Fusão
Nuclear
Até aqui tratamos, com minúcias, o
fenômeno da divisão ou fissão de um núcleo em fragmentos menores. Ao
terminarmos, poderíamos perguntar: seria possível
pensar no fenômeno inverso? Isto é,
poderíamos combinar os núcleos de elementos leves, digamos, hidrogênio,
para dar lugar a elementos mais pesados? Que
quantidade de energia obteríamos neste processo?
Para
começarmos o estudo da fusão nuclear,
podemos dizer que se a energia produzida no fenômeno da fissão nos
pareceu extraordinária, a que se obtém, ao realizar-se a combinação ou
fusão de elementos leves, é ainda maior.
O
estudo atual da fusão pretende, precisamente, colocar nas mãos do homem a
tremenda energia liberada nestes processos de forma controlada.
Pensemos
no Sol, uma de nossas maiores fontes de energia. Como
é possível que, durante séculos, este tenha estado a nos proporcionar
luz/calor, brilhando de maneira extraordinária? A
que se deve o processo que se realiza nas estrelas separadas de nosso
planeta por distancias impossíveis de imaginar?
Hoje em dia sabemos que o Sol é constituído, basicamente por hidrogênio*
com temperaturas tais (40 000 000o perto de seu centro) que os
núcleos de hidrogênio podem combinar-se ou fusionar-se para dar lugar a
núcleos de hélio, com certa perda de massa que aparece em forma de
imensas quantidades de energia. O processo, sem duvida, é lento e,
afortunadamente , o Sol continuara brilhando, como fez até agora, por
muitos milhares de anos.
PoderÍamos
tentar reproduzir esta reação termonuclear**
na terra, entretanto, foi mais fácil provocar o processo de fusão entre
núcleos de deutério (isótopo do hidrogênio, com um nêutron e um
próton no seu núcleo ) e túlio, outro isótopo com um nêutron adicional
(dois nêutrons e um próton no núcleo). Estes núcleos sofrem fusão de
forma mais rápida. O deutério e o trítio, talvez possam constituir os
principais combustÍveis em um “reator termonuclear” do futuro.
*
Na realidade o Sol é constituído pelo que se chama plasma, "gás
quente”, uma mistura caótica de elétrons livres e íons de hidrogênio
(átomos que perderam seu elétron).
** Também chamou-se assim a fusão nuclear,
devido às altas temperaturas nas quais ela se realiza.
Mecanismo
da fusão e Problemas associados com a mesma
A fim de explicar o fenômeno da
fusão que se realiza no sol, utilizou-se a cadeia de reações que alguns
chamam de ciclo do carbono e que expressamos
em continuação:
11H
+ 126C ===> 137N
+ gama
137N ===> 136C + e
+ n
11H
+ 136C ===> 147N
+ gama
11H
+ 147N ===> 158O
+ gama
158O ===> 157N + e+
+ n
11H + 157N ===> 126C
+ 42He
(6.14)
Somando-se
as equações anteriores, o resultado é equivalente à fusão de quatro
prótons (núcleos de hidrogênio) dando uma partícula alfa e dois
pósitrons mais raios gama, com uma perda de massa equivalente a uma
energia de 24,7 milhões de elétron-volts.
Outra
série de processos, descrita como o ciclo próton-próton, foi
utilizada para descrever este processo:
11H
+ 11H ===> 21H
+ e+ + n
11H
+ 21H ===> 32H
+ gama
32H + 32H
===> 42He + 11H
+ 11H
(6.15)
Novamente,
o processo resulta na formação de uma partÍcula alfa, dois pósitrons
mais raios gama, a partir de quatro prótons. A energia liberada é de 4,7
MeV.
As
reações de fusão mais prováveis de serem obtidas e controladas na terra
são as seguintes:
21H
+ 21H ===> 32He
+ 1on + 3,3 MeV
dêuteron dêuteron hélio
-3
(6.16)
21H
+ 21H ===> 31H
+ 11H + 4 MeV
dêuteron dêuteron
trítio
daqui
a combinação de um dêuteron com um tríton (núcleo de trítio):
31H
+ 21H ===> 42He
+ 1on + 17,6 MeV
O
processo, para produzir uma reação de fusão controlada, apresenta muitos
problemas. Em primeiro lugar, temos que pensar que os núcleos,inclusive
deutério e trítio, estão carregados positivamente. Quando dois núcleos
se aproximam, digamos de deutério, a baixas velocidades, a repulsão será
tão grande que seria impossível que chegassem a fusionar~se.*
Por isto, é necessário que os núcleos possuam energias elevadíssimas
para conseguir vencer a repulsão de Coulomb. A energia necessária foi
calculada em 20 000 elétron-volts, mas para alcança-la necessitaríamos
elevar a temperatura do deutério a uns 200 milhões de graus. A esta
temperatura não se pode sequer considerar o deutério e trítio no estado
gasoso. Os elétrons são arrancados do átomo, deixando este ionizado e
constituindo uma mistura de elétrons e íons, que se denomina plasma.
É necessário, pois a criação de um”plasma quente’.
Certamente teremos que nos perguntar: Que recipiente
seria capaz de conter este “plasma” a temperaturas de mais de 200
milhões de graus?
A
solução para este problema poderia ser: utilizar um “recipiente de
paredes imateriais” difícil de imaginar; mas, pensemos em “paredes
constituídas por campos magnéticos" (cortinas magnéticas)
que, ao atuar sobre os elétrons e íons, os obrigaria a mover-se em
círculos de pequeno raio. Isto parece ser uma solução, entretanto, novos
problemas, que não discutiremos aqui, aparecem com essas idéias.
*
Recordemo-nos que, para conseguir que as forças nucleares atrativas atuem,
teríamos que levar os núcleos a distancias de 10-13 cm.
Fig.
6.12- Plasma contido por “paredes magnéticas”.
Outro
problema difícil de resolver, na fusão controlada, é o do tempo em que o
plasma deve ser mantido no “recipiente de paredes imateriais”, para
produzir a fusão. Nosso “equipamento de produção de fusão”
necessitaria ao menos “encerrar”, ou confinar o plasma durante um
segundo ou mais.Aparentemente, o tempo é curto, mas, devemos recordar-nos
que estamos em escalas atômicas. Atualmente numerosos projetos
desenvolveram-se para encontrar as condições apropriadas que permitam ao
homem aproveitar a energia de fusão como já faz com a fusão nuclear.
|