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O
que é Vida?
Roberto Takata
Introdução
Em sendo a BIOLOGIA o ramo das Ciências que estuda os seres vivos, seria
de se esperar que a definição de VIDA – o objeto final de estudo do
campo – fosse um pré-requisito para todas as pesquisas da área.
Não
é, contudo, exatamente o que ocorre. Não existe uma definição
universalmente aceita pelos biólogos do que seja VIDA, ainda assim eles não
hesitam em estudá-la: e até mesmo em procurá-la em outros cantos do
universo. Mas como estudar algo que não se sabe o que é?
Pode
parecer um tanto paradoxal – e, de fato, não deixa de ser – porém,
de outro lado, estuda-se algo justamente para se descobrir o que o objeto
estudado é (quais as suas características, o que faz, como surgiu, do
que é feito, etc.). Além disso, independentemente de uma definição
precisa, sabemos desde criança que um cavalo é um ser vivo, mas um livro
não – assim, os biólogos podem contornar, ao menos parcialmente, o
problema. (Antes de atirarmos pedras nos biólogos lembremo-nos de que
eles não estão sozinhos nessa delicada situação de lidar com algo que
não sabem bem o que é ou, se sabem, não sabem externá-la em palavras.
Para embaraçar um físico basta perguntar-lhe o que é matéria, energia
ou tempo – elementos básicos em seu estudo dos fenômenos naturais –,
um matemático não se sai melhor em explicar o que é um número. E, para
além do terreno estrito das Ciências, perguntemos a um literato o que
vem a ser poesia ou a um marchand o que é arte afinal de contas.)
De todo modo a questão persiste: o que faz então de um cavalo um ser
vivo; mas de um livro, um ser inanimado1?
Um
problema adicional é que conhecemos apenas um tipo de VIDA, a da Terra. E
esse conhecimento é – ainda que bastante detalhado sob muitos aspectos
– somente parcial.
A
despeito disso diversas tentativas foram feitas. E, a partir dos estudos
das formas de VIDA como a conhecemos, algumas propriedades em comum podem
ser levantadas. Alguns conceitos-chave que precisam ser levados em conta
para a definição de VIDA são: auto-replicação, metabolismo (homeostase/entropia/auto-organização),
delimitação (compartimentalização/individualização) e evolução/hereditariedade.
Auto-replicação
Uma característica marcante dos seres vivos é a sua capacidade de se
reproduzir, isto é, induzir a formação de cópias de si mesmo a partir
de elementos tomados do ambiente. De todo modo ela não pode ser
considerada a propriedade distintiva dos seres vivos ou, no mínimo,
teremos problema se a considerarmos isoladamente: se definirmos seres
vivos como entidades auto-replicantes, robôs programados para construir
robôs iguais a si em uma linha de montagem teriam que ser considerados
vivos; além disso, mulas, provectos senhores e eunucos não seriam seres
vivos dada a sua incapacidade reprodutiva. (Para
ver mais.)
Metabolismo
(homeostase/entropia/auto-organização)
O metabolismo é o conjunto de reações químicas que ocorrem no interior
do organismo (por vezes, no exterior também) que mantém mais ou menos
estáveis as condições internas do organismo (homeostase). Através do
metabolismo o organismo obtém energia utilizada em seu crescimento e
reprodução, transformando os compostos que absorve do ambiente e
incorporando-os em sua estrutura – com isso os seres vivos são capazes
de manter uma organização interna indefinidamente (auto-organização)2.
Os seres vivos são redutores puntuais de entropia (uma medida de
desordenação de um sistema3) – isto é,
eles diminuem ou mantêm o seu grau interno de desorganização,
desorganizando ainda mais o ambiente em que estão. O metabolismo, porém
também apresenta restições como marcador do que seja VIDA. Uma
geladeira realiza algo análogo ao metabolismo: mantém sua entropia
interna mais ou menos inalterada (mais frio dentro do que fora),
consumindo energia (a elétrica proveniente da tomada) e aumentando a
entropia do ambiente (o radiador lança constantemente a energia térmica
resultante para o ambiente); uma chama de vela também mantém a sua
organização interna às custas da organização do ambiente. Por outro
lado, organismos debilitados pela idade avançada ou tomado por uma doença
terminal estão perdendo a batalha para a entropia – seu organismo está
em franco processo de degeneração – mas ainda não os consideramos
mortos. (Para
ver mais.)< p>
Delimitação
(compartimentalização/individualização)
Os seres vivos são fenômenos localizados, isto é, ocupam uma região
limitada do espaço. E também são distintos do ambiente em que estão.
Isso permite manter um ambiente interno, onde podem manter e concentrar os
elementos que captura do ambiente externo: nutrientes, por exemplo –
impedindo que se percam dispersos no meio ou sejam utilizados por outros.
Permite também a formação de um ambiente mais propício aos processos
que os mantêm, por exemplo, otimizando as reações químicas com
concentrações adequadas de reagentes. Todos os organismos vivos que
conhecemos possuem uma delimitação de natureza física – os seres
vivos são baseados em células, tendo nelas a sua unidade morfológica e
funcional, delimitadas por uma membrana formada por uma camada bilipídica
que as separa do meio externo – mesmo os vírus, seres acelulares (são
basicamente uma capa de proteína envolvendo um pedaço de ADN ou ARN),
funcionam apenas dentro de células (são parasitas intracelulares obrigatórios,
fora delas ficam inertes a ponto de alguns biólogos não o considerarem
seres vivos de fato). A delimitação certamente não define um ser vivo,
porém. Um carro é delimitado, sendo distinto do ambiente em que se
encontra.
Evolução
A auto-replicação faz com que os organismos produzam cópias de si
mesmo. Porém, as cópias não são sempre idênticas. Há sempre, por
mais baixa que seja, uma taxa inerente de erro no processo. As novas
variantes podem ser eliminadas então pela seleção natural – caso a
alteração signifique a produção de uma característica desvantajosa ao
indivíduo – ou permanecer na população ou até mesmo prosperar. Porém
definir VIDA como um processo de evolução (particularmente por seleção
natural) pode ser um pouco complicado: vírus de computador são capazes
de produzir cópias alteradas de si mesmo (normalmente as variantes
produzidas por acaso são as que mais danos causam ao funcionamento do
computador), alterações que podem garantir uma maior capacidade de
proliferação (produzem cópias mais rapidamente ou que escapam ao
programas antivírus) e com isso ocorrer uma evolução da população
desse tipo de vírus. Serão tais programas seres vivos? Alguns biólogos
estão prontos para achar que sim e não apenas vírus de computador, como
também idéias que passam de uma mente para outra e se multiplicam e
mudam ao longo das gerações, muitos outros, contudo, torcem o nariz para
tal concepção. (Para
ver mais.)
Bibliografia
El-Hani,
CN & Videira, AAP (orgs.) 2000 O que é vida? – para enteder
a Biologia do século XXI. Rio de Janeiro, Faperj/Relume Dumará, 311
págs.
Holmes,
R 1998 Life is... New Scientist (13 jun). http://www.newscientist.com/hottopics/astrobiology/lifeis.jsp
Margullis,
L & Sagan, D 2002 O que é vida? Rio de Janeiro, Jorge
Zahar, 289 págs.
Schrödinger,
E 1997 O que é vida? – o aspecto físico da célula viva
seguido de Mente e matéria e Fragmentos autobiográficos. São
Paulo, Unesp, 192 págs.
Notas
Nota1:
"inanimado". A palavra remete a anima, palavra latina
significando alma. Se o inanimado – desprovido de alma – contrasta com
os seres vivos, a idéia original era a de que a Vida representava a posse
da alma. A Vida seria uma propriedade especial a diferenciar os seres
vivos da matéria comum como pedras, água, terra, ar... Esse princípio
desenvolveu-se nas idéias vitalistas de certos sistemas filosóficos
antigos, casando-se com o ponto de vista de diversas religiões. Nas Ciências
foi progressivamente perdendo terreno, tendo início com o surgimento da
visão mecanicista do mundo (como os seres vivos não passando de autômatos
– sistemas físicos obedecendo simplesmente às leis naturais, como um
complexo relógio que pode ser reduzido e explicado pelo funcionamento de
suas engrenagens – na visão de Descartes, embora ele ainda reservasse
uma posição privilegiada aos seres humanos – que ainda possuiriam uma
porção intangível) e fortemente abalada com a síntese inorgânica –
por reações químicas ordinárias fora do corpo dos seres vivos a partir
de substâncias comuns – de compostos tidos como possíveis de serem
produzidos apenas pela ação direta do princípio vital: como no
experimento de Wöhler em 1828 produzindo uréia pelo aquecimento de
cianato e sal de amônio.
Nota2:
À primeira vista isso pareceria contrariar a segunda lei da termodinâmica
– a lei descreve o princípio fundamental de que em sistemas isolados as
transformações tendem a ocorrer do estado menos provável para o mais
provável ao longo do tempo. Se deixado à própria sorte nas condições
do meio em que viçam as árvores, um pedaço de madeira tende a se
desfazer em pequenos fragmentos (mesmo se as bactérias e outros
organismos decompositores não estivessem no local, a madeira aos poucos
iria se desfazer – embora levasse muito mais tempo), o mesmo com um naco
de carne de vaca largado no meio de uma pastagem. Não obstante a árvore
viva está sempre a produzir mais madeira, a partir basicamente de gás
carbônico e água, incorporando-a em seu tronco e a vaca a produzir as
fibras musculares de sua carne a partir do capim e da água. No entanto os
seres vivos não são sistemas fechados, eles trocam matéria e energia
com o ambiente. A árvore e o gado mantém ou aumentam a sua organização
interna, lutando contra a tendência natural da desagregação de suas
partes, aumentando a desordem do meio em que vivem – se considerarmos o
sistema árvore/ambiente ou vaca/ambiente, aí sim perceberemos que esse
sistema segue o previsto pela segunda lei da termodinâmica. Embora a
madeira e o pedaço de carne também não seja sistemas isolados, neles não
ocorrem os processos que substituem as porções perdidas como ocorriam no
interior dos organismos de onde vieram.
Nota3:
"uma medida de desordenação de um sistema". Ordem é um
conceito intuitivo e tem a sua utilidade na compreensão da entropia. Mas
pode ser enganoso. Não devemos entender ordem estritamente como um estado
de disposição organizada, simétrica, coordenada. Tem mais a conotação
de um estado particular, uma dada disposição específica. Se pensarmos
em um quarto, a nossa noção de um quarto ordenado se casa com a noção
de ordem entrópica na medida em que apenas um conjunto restrito de
disposição das partes será considerado um quarto bem arrumado: as
roupas e meias dentro das gavetas, as gavetas todas fechadas, o colchão
sobre a cama, o lençol sobre o colchão e estirado, a fronha cobrindo o
travesseiro e assim por diante. Uma meia fora da gaveta é um elemento de
'desordem' – quer em cima da cama, sobre a escrivaninha, em baixo do armário,
sob o travesseiro, etc. Há então mais disposições diferentes que
consideraremos 'desordem' (quarto desarrumado) do que 'ordem' (quarto bem
arrumado). Se deixarmos a disposição ao acaso mais provavelmente ela se
dará em uma das que consideraremos desarrumada. Devemos despender energia
para que o quarto permaneça na disposição que consideramos arrumado.
Por outro lado, imaginemos que se cometeu um crime nesse quarto – o lençol
foi arrancado da cama, o colchão foi tombado, as gavetas abertas pelo
criminoso que procurava alguma coisa e toda revirada, as meias espalhadas
pelo chão, o armário escancarado. A cena do crime deve ser conservada
para que a polícia possa desvendar o crime: a disposição dos objetos
pode revelar se houve luta ou se a vítima foi pega enquanto dormia, qual
foi o último lugar em que o assassino fez a sua busca e outras pistas
importantes (para saber quem pode ser o assassino ou para, uma vez
capturado, saber qual o grau de gravidade do crime cometido pelo assassino
– se ele matou a sangue frio ou depois de uma discussão, por exemplo).
Nesse caso, mesmo a disposição que consideraríamos arrumada – por
nossa experiência do dia-a-dia e por nosso senso estético – não
serve, ela não corresponde à disposição equivalente à cena do crime.
Essa cena é bagunçada, mas corresponde a um estado particular. E agora
qualquer modificação aleatória desfaz essa disposição. Para manter
esse estado particular desarrumado temos que empregar energia. A ordem no
caso dos seres vivos é uma disposição particular que garanta a eles a
capacidade de explorar o ambiente, dele obter recursos e se reproduzir,
por exemplo – a maioria das disposições possíveis dos elementos que
compõem um ser vivo em particular resultariam em um ser inviável, sem
essas características: se os átomos que nos compõem fossem juntados
aleatoriamente dificilmente resultaria em qualquer coisa semelhante a nós.
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