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Metabolismo
Roberto
Takata
Introdução
O METABOLISMO1 é o conjunto das reações
físico-químicas2 que ocorrem em um
organismo3. Nos organismos atuais tais
conjuntos são bastante intrincados com milhares a milhões de reações
diferentes interconetadas. As reações têm suas taxas alteradas por estímulos
ambientais e também pela taxa de outras reações: pela alteração de
fatores como concentração de reagentes, quantidades de catalisadores,
ativadores, competidores e inibidores de reação e também por elementos
físicos como temperatura e distribuição espacial dos reagentes.
Por
meio dessas reações os organismos reagem ao ambiente e às alterações
nas condições internas, mantendo um estado interno mais ou menos estável
– a homeostase4, 5.
Essa estabilidade, no entanto, não é absoluta. As condições internas
do organismo não permanecem exatamente as mesmas ao longo do tempo – o
ponto de equilíbrio, isto é, o estado em torno do qual as condições
tendem a variar, geralmente muda com o desenvolvimento do organismo ou
periodicamente: a temperatura corporal média de um animal em hibernação
é diferente da do mesmo animal em estado ativo ou a concentração
hormonal em plantas adultas certamente é diferente da de plântulas
imaturas. (O desenvolvimento orgânico, na verdade, pode ser pensando como
a variação do ponto de equilíbrio ao longo do tempo, fazendo com que as
características dos organismos mudem ao longo do tempo – seu tamanho,
sua concentração interna de sais, seu comportamento e assim por diante.)
Embora os processos de alterações físico-químicas nos organismos
atuais tendam a ser complexos, mesmo em alguns sistemas simples (e inorgânicos)
podemos perceber essa tendência ao equilíbrio (dinâmico) em respostas a
alterações externas e internas – uma reação química simples, por
exemplo, pode-se deslocar para um ou outro sentido de acordo com a
concentração maior ou menor de reagentes ou produtos; ou ainda um
sistema de tampão ácido-base pode contrabalançar (dentro de uma certa
faixa de variação) a adição ou subtração de prótons à solução
permitindo que o pH varie muito pouco.
As
reações que compõem o METABOLISMO podem ser divididas em dois grupos
interdependentes:
Catabolismo6
– é o conjunto de reações que degradam as substâncias em componentes
menores (ou melhor seria dizer menos energéticos). Geralmente são
acompanhadas da liberação da energia contida nas ligações químicas
rompidas. Essa energia pode ser perdida para o ambiente ou utilizada em
outros processos biológicos – movimento, síntese de compostos, reprodução,
crescimento e desenvolvimento.
Anabolismo6
– é o conjunto de reações que produzem compostos e substâncias a
partir de componentes menores (ou menos energéticos – muitas vezes as
reações não envolvem a união de dois componentes, mas a transformação
de um componente em um componente mais energético, como no caso da alteração
do estado de oxidação de íons). Freqüentemente vale-se da energia
liberada nas reações catabólicas para produzir dos compostos necessários
no crescimento e desenvolvimento do organismo – ou pode utilizar-se mais
diretamente de fontes externas de energia como no caso da fotossíntese.
Da
relação entre os processos catabólicos e anabólicos depende o que
ocorre com o organismo. Se os processos catabólicos predominam, o
organismo pode se degenerar até sua total degradação – como ocorre no
processo de senescência (envelhecimento) – se são os processos anabólicos
que predominam, o organismo pode acumular reservas e recursos, crescendo
em tamanho, organização e complexidade. Porém os processos anabólicos
dependem fundamentalmente dos catabólicos como fonte de energia (e
componentes). No caso em que ambos os processos ocorrem em intensidades
equivalentes, as condições internas tendem a permanecer mais ou menos
iguais.
O
catabolismo e o anabolismo são em grande medida processos opostos – o
que é produzido por um processo o outro desfaz. Isso faz com que, grosso
modo, sejam incompatíveis. Se ambos ocorrerem no mesmo lugar ao mesmo
tempo teremos pouco mais do que o trabalho de Penélope ou de Sísifo. É
indispensável uma separação desses processos – a separação temporal
pode ser obtida por meio de controles que inibem um dos processos enquanto
o outro está correndo, a separação espacial pode ser alcançada por
meio da compartimentalização. A termodinâmica deve ser consultada.
O
METABOLISMO, sendo fundamentalmente um processo de transferência e
transformação de energia (vide nota 2), está sob ação
dos princípios termodinâmicos. Uma importante implicação disso é que,
dado que os processos biológicos dependem dos processos metabólicos, a
Vida só pode ocorrer em sistemas ou subsistemas abertos – isto
é, que troquem materiais e energia com o ambiente (ou pelo menos que não
sejam isolados, que troquem energia com o meio externo). Isso porque se não
há troca de energia com o meio, o metabolismo não pode continuar
indefinidamente já que as transformações sempre geram uma quantidade de
energia na forma que não pode ser utilizada no processo – a energia útil
(a que pode realizar trabalho nas condições do sistema) é
gradativamente consumida (isto é, transformada em uma forma que não é
capaz de realizar trabalho) até que o processo de transformação não
possa mais prosseguir.
Os seres vivos devem então se interpor a um fluxo de energia – como a
da luz solar rumo ao espaço sideral no caso dos organismos fotossintéticos
ou que deles dependem (caso da maioria dos organismos conhecidos).
Corte-se o fluxo de energia e, rapidamente, a Vida deixa de existir –
como flores no escuro ou pessoas em inanição7.
O corte do fluxo não precisa se dar necessariamente na entrada de
energia, pode ocorrer também pelo bloqueio da saída de energia
– impeça-se, por exemplo, a dispersão de energia térmica com camadas
e camadas de material isolante e em um tempo bem curto atingiremos uma
situação bastante crítica8.
Embora
o METABOLISMO seja essencial para os processos biológicos, certos
organismos em condições especiais podem suspender suas atividades metabólicas,
retomando-as quando as condições lhes forem mais favoráveis – essa
capacidade de retomada das atividades metabólicas e das demais atividades
biológicas depende da preservação de sua estrutura interna9.
Para a maioria dos casos, no entanto, a cessação das atividades metabólicas
significa a morte. Um leve asteísmo está presente neste fato:
embora seja extremamente embaraçoso aos biólogos a incapacidade de se
dar uma definição de Vida (vide "O
que é Vida?"), podemos definir a morte de um organismo
como a cessação irreversível de seus processos metabólicos.
Notas
Nota1:
do grego metabolê, ês (metá 'para além de' + bálló
'lançar, jogar') 'transformação; mudança de natureza, caráter ou
costume'. Noção que surge em outros vocábulos como a-, hemi-
e holometábolo, referindo-se à condição de certos organismos
– notadamente insetos – de passarem ou não pelo processo de
metamorfose (uma transformação em sua constituição física), ou
metábole, figura de linguagem que consiste na repetição das
mesmas idéias, apenas com palavras diferentes, ou a repetição das
mesmas palavras com alteração na ordem.
Nota2:
em uma definição mais ampla, o metabolismo pode ser entendido como o
conjunto de transformações energéticas que ocorrem em um sistema físico
e as alterações físicas que causam essas transformações,
acompanham-nas ou delas decorrem – nesse sentido, poderemos falar até
mesmo de metabolismo de geladeiras e estrelas. Uma definição ainda mais
ampla seria o conjunto de operações realizadas sobre elementos de um
sistema – aqui, sistemas abstratos como programas de computadores (mesmo
desconsiderando-se a questão do hardware) ou mesmo uma equação
matemática podem ser acusados de ter metabolismo.
Nota3:
'no organismo' - por vezes, tais reações podem ocorrer também fora
do organismo: algumas espécies iniciam sua digestão extracorporalmente,
como as das aranhas – cujo veneno injetado na vítima digere seus
tecidos, permitindo ao predador apenas sorver a massa liqüefeita.
Nota4:
Termo criado pelo fisiologista americano Walter Cannon (1871-1945),
cunhado sobre o grego hómois, a, on 'semelhante, de mesma
natureza' e stásis, eós 'estabilidade, fixidez'.
Nota5: Não
deixa de ser irônico que por meio do metabolismo (essencialmente uma transformação,
mudança nas condições) se obtenha a homeostase (essencialmente
uma permanência das condições internas). Ainda que possamos ver
uma ironia – certamente involuntária – nisso, não chega a ser um
paradoxo. Lembremo-nos da passagem de "Alice do outro lado do
espelho" de Lewis Carrol, em que a Rainha de Copas diz para Alice:
"É preciso correr o mais rápido que você puder para ficar no mesmo
lugar!" ou do ato de baldear a água para fora de uma canoa furada ou
da expressão "enxugar gelo" – como o ambiente interno e o
externo tendem a se alterar com o tempo (ver no texto principal a questão
sobre as implicações termodinâmicas do
metabolismo), as transformações metabólicas, em muitos casos, atuam
no sentido de contrabalançar essas alterações.
Nota6:
"Catabolismo" e "anabolismo" – dos gregos katá
'para baixo' e aná 'para cima'.
Nota7: A
energia útil que mantém o processo varia de sistemas para sistema.
Apesar das alegações em contrário, para humanos é inútil a simples
presença de energia na forma luminosa – assim como para um carro à
gasolina, energia elétrica não serve; não estamos aparelhados para
utilizar diretamente essa fonte de energia. Para nosso organismo, a
energia deve estar na forma de ligações químicas de compostos orgânicos
como açúcares e gorduras.
Nota8:
Tal bloqueio impede o funcionamento de outros sistemas além de organismos
individuais. Vide o que acontece com uma cidade que sofre com uma greve
prolongada dos coletores de lixo.
Nota9:
"depende da preservação de sua estrutura interna" – Assim, o
sonho da ressuscitação após o congelamento do corpo permanece bastante
distante, a despeito das promessas de algumas empresas, pois o processo de
congelamento de um volume tão grande quanto o humano não é rápido o
bastante para se evitar a formação de cristais de gelo maiores – que
rompem a integridade das células.
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